sexta-feira, dezembro 15, 2006

Governo se cala diante de genocídio

por Ricardo A. Setti, no Jornal do Brasil
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A "política externa independente" adotada pelo presidente Jânio Quadros em seu efêmero governo de menos de sete meses (31 de janeiro a 25 de agosto de 1961) foi vista com grande perplexidade na época. A História, porém, logo se encarregou de mostrar que se tratava de um contraponto supostamente "progressista" ao conservadorismo interno - que ia da política monetária extremamente rígida a atitudes de moralismo grotesco como a proibição do uso de biquínis. A "política externa independente" levou Jânio a receber pela primeira vez uma delegação comercial da China comunista, enviar missões à União Soviética e países de sua órbita e, entre outras peripécias, exatos seis dias antes de renunciar à Presidência, a condecorar com a Ordem do Cruzeiro do Sul o mítico guerrilheiro cubano Ernesto Che Guevara, então ministro do governo de Fidel Castro.
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Coisa parecida se dá com o governo do presidente Lula. Há, naturalmente, setores internos em que se fazem concessões à esquerda - como a virtual entrega dos organismos encarregados da questão agrária a militantes, com a conseqüente impunidade de atos criminosos cometidos por invasores de terras e ocupantes de prédios públicos. Mas é no terceiro-mundismo da política externa em que mais aparece essa ambigüidade, digamos, estratégica. É ali que o governo se envolve em iniciativas puramente retóricas, de retorno virtualmente zero, como essa um tanto patética Cúpula África-América do Sul idealizada por Lula e realizada dias atrás em Abuja, na Nigéria, à qual nada menos que 41 dos 66 chefes de Estado com presença prevista sequer se preocuparam em comparecer.
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É igualmente na área da política externa que se cometem excessos intoleráveis, como os constantes afagos feitos pelo governo brasileiro a ditaduras, ou Lula declarar seu apoio ao populista demagogo Evo Morales ainda como candidato à Presidência da Bolívia e, mais recentemente, fazer o mesmo em relação ao igualmente populista, demagogo e autoritário Hugo Chávez na Venezuela. Portanto, longe do certo escândalo que provocou, deve ser visto apenas como conseqüência natural dessa postura na área externa o por todos os títulos vergonhoso voto que o Brasil, novamente, proferiu no Conselho de Direitos Humanos da ONU.
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Deixemos um pouco de lado o calamitoso problema do tráfego aéreo brasileiro e as picuinhas em torno da eleição para a presidência da Câmara dos Deputados para examinar essas atitudes do governo. No último episódio, estava em jogo uma resolução que exigia do governo muçulmano do Sudão a investigação e a punição das autoridades envolvidas no que é hoje o pior genocídio em andamento no mundo - a limpeza étnica promovida por milícias pró-governo central das populações não árabes na região de Darfour, a Oeste do país. Os sucessivos massacres, iniciados em 2003, já teriam provocado pelo menos 200 mil mortes e um êxodo de proporções bíblicas entre a população negra, com 2,5 milhões de refugiados em situação desesperadora, parte deles no vizinho Chade.
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Apoiada por um bloco de países da Europa Ocidental e pelo Canadá, a resolução perdeu por somente dois votos - 22 a 20 - havendo quatro abstenções, uma delas a do Brasil. Em vez de acompanhar países ocidentais democráticos, o Itamaraty preferiu alinhar-se a ditaduras tenebrosas ou governos autocráticos que votaram contra ou se abstiveram, como os da Arábia Saudita, China, Cuba, Paquistão, Rússia e Zâmbia. Esse tipo de voto vergonhoso vem se repetindo no Itamaraty de Lula.