segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Ameaça de falta de água movimenta negócios

Gazeta Mercantil

A escassez de água, que começa a despontar como um dos problemas para a sociedade global em um futuro próximo, já começa a movimentar o mundo dos negócios. Segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1 bilhão de pessoas não têm acesso a água potável. E, de acordo com a FAO, agência das Nações Unidas para agricultura e alimentação, em 20 anos faltará água para 60% da população mundial. De olho nas projeções - e no aumento da preocupação com o meio ambiente -, a Techem, empresa alemã especializada em serviços de medição individualizada, expande os seus negócios e aposta no Brasil.

A empresa, que investiu R$ 1 milhão em seus primeiros meses no País, onde chegou no ano passado, planeja investir mais R$ 5 milhões em 2007. De origem alemã, a Techem está presente em 23 países, mas chega à América Latina por meio do Brasil. A empresa tem o desafio de tornar o serviço de medição individualizada, amplamente difundido na Europa, mais conhecido por aqui. O apelo para a contratação do serviço é duplo, pois traz benefícios para o meio ambiente e para o bolso - no caso daqueles que fazem uso consciente da água.

Por meio da instalação de equipamentos, que estão ligados a um sistema de radiofreqüência, em apartamentos ou conjuntos comerciais, a Techem faz a leitura remota do consumo de água de cada condômino, possibilitando que contas individuais sejam emitidas, de acordo com o consumo de cada um.

Segundo Eduardo Lacerda, gerente geral da Techem no Brasil, a instalação dos medidores provoca uma queda de 20% a 25%, em média, no consumo dos prédios. 'Quando as pessoas começam a pagar pela água que consomem, aumenta a responsabilidade e a consciência do uso.' Lacerda afirma que, por meio da medição individualizada, é possível inclusive identificar a ocorrência de problemas como vazamentos, o que também contribui para a redução do desperdício.

A estratégia comercial da empresa recém-chegada ao Brasil abrange condomínios residenciais ou comerciais, novos ou usados. O custo médio de um medidor instalado pela Techem é de R$ 450 aproximadamente, mas o preço varia de acordo com o projeto dos prédios e facilidade na instalação. A Techem é responsável pela venda, instalação, leitura e suporte dos equipamentos, cobrando posteriormente uma espécie de mensalidade dos condomínios pelos serviços prestados.

Nos apartamentos novos, a presença de medição individualizada tem se tornado um argumento de venda para as construtoras, já que isso pode acarretar em um menor valor de condomínio, dependendo do consumo de cada família ou morador. A diretora comercial da Blockar do Brasil, pioneira na prestação desse tipo de serviço no País, Patrícia Rodrigues, também afirma que o aumento da preocupação com a escassez da água, nos últimos anos, alavanca os negócios.

'As construtoras estão vendo que esta é uma tendência do mercado e que oferecer a medição individualizada facilita a valorização do imóvel e a venda. As próprias pessoas procuram esse tipo de serviço', afirma. De acordo com os cálculos da empresa, a economia de água para o condomínio de uma forma geral, após a instalação dos medidores, é de 30% a 40%.

A Blockar do Brasil, especializada em serviços hidráulicos e de economia de água, é uma das pioneiras em medição individualizada no Brasil. A empresa, de capital 100% nacional, começou a oferecer esse tipo de serviço há quatro anos e hoje pelo menos 60% das atividades da empresa são de medição individual. Segundo Patrícia, para atender a este aumento de demanda a empresa deve aumentar os seus investimentos em cerca de 30%. 'No início, tínhamos de bater de porta em porta explicando o que é o produto e oferecer o serviço. Hoje a gente não precisa mais correr atrás do cliente', conta.

Tanto a Techem como a Blockar do Brasil concentram as suas operações em São Paulo, onde a disponibilidade de água por habitante é menor do que a recomendada pela OMS. Mas foi por pouco que todo o País não ganhou um forte incentivo para economizar água. O Projeto de Lei 787/03, de autoria do então deputado federal Julio Lopes (PP-RJ) e que tornava obrigatória a instalação de medidores individualizados em novas construções, chegou a ser aprovado pela Câmara e pelo Senado, mas foi vetado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que entendeu que essa decisão caberia a cada município e não seria o caso de ser adotada em nível nacional.

(Tatiana Freitas - InvestNews)