Política externa brasileira apóia os experimentos no continente
Willian Waack, G1
Os formuladores da política externa brasileira passaram dias tentando provar, emparedados que foram pelas declarações de um ex-embaixador brasileiro em Washington, que não são motivados por ideologia. Aí vem o aumento do preço que o Brasil paga pelo gás da Bolívia para mostrar que eles só estão fingindo, ou pretendem não saber o que é ideologia.
O presidente Lula justificou a mudança da posição brasileira - que até esta quinta feira (15) era a de deixar as discussões sobre o gás (corretamente) no campo técnico - com base na "generosidade" que o Brasil teria de mostrar em relação ao vizinho. O que quer dizer "generosidade"?
Em primeiro lugar, quer dizer facilitar a vida de um vizinho às custas do acionista da Petrobrás (quem paga o gás), entre eles milhares de trabalhadores brasileiros que compraram ações da empresa. Às custas também de consumidores, tanto empresas quando pessoas físicas. É um gesto, portanto, político. Uma escolha feita para agradar a Evo Morales.
Em segundo lugar, é um apoio explícito a quem tomou refinarias da Petrobrás na ponta da baioneta, ameaça expulsar agricultores brasileiros e mentiu para Lula pelo menos duas vezes (em público, por sinal). Morales precisa urgentemente de "vitórias" políticas como esta, a de impor um preço do gás ao gigante brasileiro, como forma de aplacar em parte a virulenta disputa política na qual ele jogou seu próprio país.
A "generosidade" brasileira em relação a Morales é, no extremo lógico do raciocínio, uma generosidade em relação ao um experimento político duvidoso, marcado pela perseguição a oposicionistas, truculência no trato ao Legislativo, quebra de contratos e uma retórica que em nada ajuda ao declarado interesse brasileiro de fomentar a integração sul-americana.
"Não vamos nos esquecer que na Bolívia aconteceu uma revolução", disse-me recentemente importante formulador da política externa brasileira. "Foi pelo voto, mas foi uma revolução". O que estamos mostrando, portanto, é "generosidade" frente a essa revolução. Cabe aqui reiterar que em lugar algum está escrito que um eleitorado não praticará suicídio político, mesmo que esse suicídio receba o nome de "revolução".
É comum, neste ponto da controvérsia, ouvir-se o argumento de que as decisões tomadas na Bolívia foram populares, soberanas e legítimas, no sentido de que resultaram de eleições limpas e democráticas. Foram, sim. Mas isso não significa que se deva aplaudir qualquer coisa decretada em La Paz. Aqui entra o fator ideológico na formulação da nossa política externa. Ela não se deveria pautar por simpatias pela "revolução" indígena ou o que quer que Morales pretenda. Ela se deveria formular a partir dos nossos interesses.
Não nos interessam em nada, e estamos falando de futuras gerações, vizinhos mergulhados em turbulências que precisam ser aplacadas com "vitórias" políticas obtidas às nossas custas. Não nos interessam vizinhos que desrespeitam contratos e acordos assinados e fazem das agressões a nossos investimentos (estes, sim, uma grande ajuda à prosperidade da população boliviana) um instrumento de luta interna.
É sintoma preocupante da pobreza intelectual de quem se sente atacado pelos argumentos acima atribuir aos críticos - como vêm fazendo vários integrantes do governo - uma postura "imperialista" ou favorável a uma "invasão" da Bolívia. Esse tipo de defesa da conduta brasileira frente à Bolívia (e à Venezuela) é a melhor tradução do viés ideológico na nossa política externa.
No caso da Bolívia, ela tem como primeiro foco o apoio ao experimento político dos outros.
COMENTANDO A NOTÍCIA :
Bastaria citarmos o pensamento do Cláudio Humberto em sua página:
Pensando bem...
Cláudio Humberto
...cozinhar o Peru em banho-maria pode ser bom. O problema é o preço do gás.
Willian Waack, G1
Os formuladores da política externa brasileira passaram dias tentando provar, emparedados que foram pelas declarações de um ex-embaixador brasileiro em Washington, que não são motivados por ideologia. Aí vem o aumento do preço que o Brasil paga pelo gás da Bolívia para mostrar que eles só estão fingindo, ou pretendem não saber o que é ideologia.
O presidente Lula justificou a mudança da posição brasileira - que até esta quinta feira (15) era a de deixar as discussões sobre o gás (corretamente) no campo técnico - com base na "generosidade" que o Brasil teria de mostrar em relação ao vizinho. O que quer dizer "generosidade"?
Em primeiro lugar, quer dizer facilitar a vida de um vizinho às custas do acionista da Petrobrás (quem paga o gás), entre eles milhares de trabalhadores brasileiros que compraram ações da empresa. Às custas também de consumidores, tanto empresas quando pessoas físicas. É um gesto, portanto, político. Uma escolha feita para agradar a Evo Morales.
Em segundo lugar, é um apoio explícito a quem tomou refinarias da Petrobrás na ponta da baioneta, ameaça expulsar agricultores brasileiros e mentiu para Lula pelo menos duas vezes (em público, por sinal). Morales precisa urgentemente de "vitórias" políticas como esta, a de impor um preço do gás ao gigante brasileiro, como forma de aplacar em parte a virulenta disputa política na qual ele jogou seu próprio país.
A "generosidade" brasileira em relação a Morales é, no extremo lógico do raciocínio, uma generosidade em relação ao um experimento político duvidoso, marcado pela perseguição a oposicionistas, truculência no trato ao Legislativo, quebra de contratos e uma retórica que em nada ajuda ao declarado interesse brasileiro de fomentar a integração sul-americana.
"Não vamos nos esquecer que na Bolívia aconteceu uma revolução", disse-me recentemente importante formulador da política externa brasileira. "Foi pelo voto, mas foi uma revolução". O que estamos mostrando, portanto, é "generosidade" frente a essa revolução. Cabe aqui reiterar que em lugar algum está escrito que um eleitorado não praticará suicídio político, mesmo que esse suicídio receba o nome de "revolução".
É comum, neste ponto da controvérsia, ouvir-se o argumento de que as decisões tomadas na Bolívia foram populares, soberanas e legítimas, no sentido de que resultaram de eleições limpas e democráticas. Foram, sim. Mas isso não significa que se deva aplaudir qualquer coisa decretada em La Paz. Aqui entra o fator ideológico na formulação da nossa política externa. Ela não se deveria pautar por simpatias pela "revolução" indígena ou o que quer que Morales pretenda. Ela se deveria formular a partir dos nossos interesses.
Não nos interessam em nada, e estamos falando de futuras gerações, vizinhos mergulhados em turbulências que precisam ser aplacadas com "vitórias" políticas obtidas às nossas custas. Não nos interessam vizinhos que desrespeitam contratos e acordos assinados e fazem das agressões a nossos investimentos (estes, sim, uma grande ajuda à prosperidade da população boliviana) um instrumento de luta interna.
É sintoma preocupante da pobreza intelectual de quem se sente atacado pelos argumentos acima atribuir aos críticos - como vêm fazendo vários integrantes do governo - uma postura "imperialista" ou favorável a uma "invasão" da Bolívia. Esse tipo de defesa da conduta brasileira frente à Bolívia (e à Venezuela) é a melhor tradução do viés ideológico na nossa política externa.
No caso da Bolívia, ela tem como primeiro foco o apoio ao experimento político dos outros.
COMENTANDO A NOTÍCIA :
Bastaria citarmos o pensamento do Cláudio Humberto em sua página:
Pensando bem...
Cláudio Humberto
...cozinhar o Peru em banho-maria pode ser bom. O problema é o preço do gás.