segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Política externa brasileira

Política externa brasileira apóia os experimentos no continente
Willian Waack, G1

Os formuladores da política externa brasileira passaram dias tentando provar, emparedados que foram pelas declarações de um ex-embaixador brasileiro em Washington, que não são motivados por ideologia. Aí vem o aumento do preço que o Brasil paga pelo gás da Bolívia para mostrar que eles só estão fingindo, ou pretendem não saber o que é ideologia.

O presidente Lula justificou a mudança da posição brasileira - que até esta quinta feira (15) era a de deixar as discussões sobre o gás (corretamente) no campo técnico - com base na "generosidade" que o Brasil teria de mostrar em relação ao vizinho. O que quer dizer "generosidade"?

Em primeiro lugar, quer dizer facilitar a vida de um vizinho às custas do acionista da Petrobrás (quem paga o gás), entre eles milhares de trabalhadores brasileiros que compraram ações da empresa. Às custas também de consumidores, tanto empresas quando pessoas físicas. É um gesto, portanto, político. Uma escolha feita para agradar a Evo Morales.

Em segundo lugar, é um apoio explícito a quem tomou refinarias da Petrobrás na ponta da baioneta, ameaça expulsar agricultores brasileiros e mentiu para Lula pelo menos duas vezes (em público, por sinal). Morales precisa urgentemente de "vitórias" políticas como esta, a de impor um preço do gás ao gigante brasileiro, como forma de aplacar em parte a virulenta disputa política na qual ele jogou seu próprio país.

A "generosidade" brasileira em relação a Morales é, no extremo lógico do raciocínio, uma generosidade em relação ao um experimento político duvidoso, marcado pela perseguição a oposicionistas, truculência no trato ao Legislativo, quebra de contratos e uma retórica que em nada ajuda ao declarado interesse brasileiro de fomentar a integração sul-americana.

"Não vamos nos esquecer que na Bolívia aconteceu uma revolução", disse-me recentemente importante formulador da política externa brasileira. "Foi pelo voto, mas foi uma revolução". O que estamos mostrando, portanto, é "generosidade" frente a essa revolução. Cabe aqui reiterar que em lugar algum está escrito que um eleitorado não praticará suicídio político, mesmo que esse suicídio receba o nome de "revolução".

É comum, neste ponto da controvérsia, ouvir-se o argumento de que as decisões tomadas na Bolívia foram populares, soberanas e legítimas, no sentido de que resultaram de eleições limpas e democráticas. Foram, sim. Mas isso não significa que se deva aplaudir qualquer coisa decretada em La Paz. Aqui entra o fator ideológico na formulação da nossa política externa. Ela não se deveria pautar por simpatias pela "revolução" indígena ou o que quer que Morales pretenda. Ela se deveria formular a partir dos nossos interesses.

Não nos interessam em nada, e estamos falando de futuras gerações, vizinhos mergulhados em turbulências que precisam ser aplacadas com "vitórias" políticas obtidas às nossas custas. Não nos interessam vizinhos que desrespeitam contratos e acordos assinados e fazem das agressões a nossos investimentos (estes, sim, uma grande ajuda à prosperidade da população boliviana) um instrumento de luta interna.

É sintoma preocupante da pobreza intelectual de quem se sente atacado pelos argumentos acima atribuir aos críticos - como vêm fazendo vários integrantes do governo - uma postura "imperialista" ou favorável a uma "invasão" da Bolívia. Esse tipo de defesa da conduta brasileira frente à Bolívia (e à Venezuela) é a melhor tradução do viés ideológico na nossa política externa.

No caso da Bolívia, ela tem como primeiro foco o apoio ao experimento político dos outros.


COMENTANDO A NOTÍCIA :

Bastaria citarmos o pensamento do Cláudio Humberto em sua página:

Pensando bem...
Cláudio Humberto

...cozinhar o Peru em banho-maria pode ser bom. O problema é o preço do gás.