segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Os heróis de Iwo Jima, por Eastwood

Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa

É um filme fortíssimo, realista, magnífico, "A conquista da honra", de Clint Eastwood, produzido por Steven Spielberg, muito importante tanto para a história universal moderna quanto para a inesgotável saga do cinema. Da mesma forma que Spielberg retirou o clássico glamour das fitas de guerra em "O resgate do soldado Ryan", o diretor do premiado "Menina de ouro" coloca sua obra de arte no contexto de excelente reportagem, na qual não faltam depoimentos daqueles que viveram a epopéia no Pacífico, sobreviventes da vitória heróica e estratégica da Segunda Guerra Mundial.

A foto de Joe Rosentalt ganhou o mundo e pesou, como não poderia deixar de ser, no ânimo dos americanos no desenrolar do conflito com o Japão, que teve início em dezembro de 41, quando do ataque à base de Pearl Harbour, e chegou ao final com as bombas de Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 45. A fotografia épica, segundo Eastwood, teve duas versões.

Os fuzileiros navais desembarcaram na ilha, fundamental como base aérea para os ataques que se seguiram ao território japonês. A luta foi terrível. Iwo Jima havia sido tomada duas vezes e por duas vezes recuperada pelos nipônicos. Na terceira, um grupo de soldados fincou a bandeira dos Estados Unidos em solo japonês. Não se sabe por que, tampouco o filme explica, um oficial mandou recolher o pavilhão e substituí-lo por outro.

Rosentalt e certamente muitos outros que estavam na jornada sentiram a importância da fotografia nos jornais da América e do mundo. A imagem foi reproduzida, mantendo, é claro, o sentido de esforço, vitória e êxito. Músculos retesados, firmeza na expressão e no olhar. O fato da segunda foto ter sido posada não retira o caráter épico da imagem.

O que aconteceu depois, ao longo do tempo, não pertence àquele instante de glória, tampouco Eastwood e Spielberg enfraquecem este enfoque essencial. Mas como sempre notei nas pesquisas que fiz, em matéria de história invariavelmente aparecem sombras. As batalhas de Iwo Jima, Guadalcanal, Misway, Okinawa, Corregedor, esta quando esteve colocada em risco a ida do general Douglas MacArthur, comandante-em-chefe americano, têm os seus labirintos, suas falhas, suas contradições.

A começar pelo episódio de Pearl Harbour. O Japão do almirante Tojo atacou traiçoeiramente a 7 de dezembro. Mas estavam existindo hostilidades diplomáticas e retaliações comerciais de parte a parte. Como explicar, portanto, que o comando militar dos EUA tivesse concentrado dois terços de sua frota naval num só ponto? O serviço secreto não detectou o deslocamento de navios japoneses. Foi um desastre enorme.

Os EUA, que possuíam uma produção de aço de 50 milhões de toneladas ano, contra uma de 8 milhões do Japão, recuperaram-se rapidamente. A traição do ataque, que antecedeu à declaração formal de guerra, mobilizou a opinião pública americana e mundial. O imperador Hiroito, então considerado divino, condição que mudou com a derrota de 45, sabia que ou o Japão alcançaria a vitória em tempo curto, ou não teria a menor chance.

O aço é fundamental para o destino de uma guerra. E se, depois de Pearl Harbour, os EUA teriam que combater na Europa, pois Hiroito alinhou-se ao nazismo de Hitler, o Japão igualmente teria que enfrentar a China, dividida entre Chang Kai Shek e Mao Tse Tung, porém unida na época contra o inimigo comum do país. O país do sol nascente ingressou na maior contradição de toda sua história. Tanto assim que, de 45 a 49, o Japão teve o general MacArthur como seu governador geral.

As falhas americanas em Iwo Jima foram grandes. Eastwood destaca duas: a não identificação prévia das casamatas nas encostas e o fato de o comando americano da ilha ter achado que todos os japoneses estivessem mortos, e por isso mandou recolher os armamentos para embarcá-los na partida. Mas havia 262 sobreviventes que, numa madrugada de sangue, mataram a golpes de sabre 52 soldados dos EUA.

Às vezes nós superestimamos a capacidade informativa e de percepção das grandes potências, e por isso ficamos perplexos diante de erros tão primários. Como perplexos ficamos na seqüência em que "A conquista da honra" mostra que os navios americanos que saíram na direção de Iwo Jima não levaram em conta que um soldado havia caído no mar, que se transformou em seu túmulo.

A guerra nada tem de belo e o heroísmo que oferece decorre muito mais do sacrifício dos seres humanos que perdem suas vidas e sua integridade no confronto sempre desesperado e sanguinário. Neste ponto "A conquista da honra" é quase um filme oposto a "Iwo Jima, o portal da glória", reprodução de Hollywood de cerca de 50 anos atrás. Os verdadeiros heróis, acentua o texto, são os que morreram na luta por Iwo Jima.

Um romântico exagero, talvez uma força de expressão. Muitos verdadeiros heróis sobreviveram ao combate e puderam contar a história ao diretor consagrado que disputa mais um Oscar, e que dentro de poucos dias coloca nas telas brasileiras a segunda parte de sua obra (a luta sob a ótica japonesa), "As cartas de Iwo Jima". Clint Eastwood baseou-se em fatos reais.

Como Spielberg, ao filmar "O resgate do soldado Ryan", recorreu ao testemunho do fotógrafo Robert Capa. Eastwood e Spielberg muito acrescentaram ao processo de procura da verdade, que no fundo inspira a todos nós, seres humanos. O herói índio esquecido de Iwo Jima pertence à consciência universal. "A conquista da honra" é um filme imperdível.