segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Um indignado que deixou saudades

Roberta Campos Babo, Tribuna da Imprensa

Morto há dez anos, Darcy Ribeiro defendia uma sociedade solidária

Darcy Ribeiro disse, certa vez, que "só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca". Defensor de uma sociedade solidária, o etnólogo, antropólogo, professor, educador, ensaísta e romancista Darcy Ribeiro certamente estaria indignado com a violência que assombra o Brasil. Dez anos depois de sua morte (17 de fevereiro), seu sonho de ver um desenvolvimento justo para todos os cidadãos ainda não foi atingido.

Mineiro polêmico, revolucionário, engajado e movido pela obsessão de salvar o Brasil, era um homem que pensava grande. Por isso deu tanta importância à educação, vista por ele como o único meio para alcançar essa transformação social. "Sem um povo educado, não há como fazer o País crescer".

Com obras traduzidas para diversos idiomas, Darcy figura entre os maiores intelectuais brasileiros de todos os tempos. Notabilizou-se por trabalhos desenvolvidos nas áreas de Educação, Antropologia e Sociologia. Um dos responsáveis pela criação da Universidade de Brasília e idealizador da Universidade Estadual do Norte Fluminense, o professor Darcy criou, planejou e dirigiu a implantação dos Centros Integrados de Ensino Público (Cieps), um projeto pedagógico de assistência em tempo integral a crianças.

Criou também a Biblioteca Pública Estadual, a Casa França-Brasil, a Casa de Cultura Laura Alvim, o Centro Infantil de Cultura de Ipanema e o Sambódromo, em que colocou 200 salas de aula para fazê-lo funcionar também como uma enorme escola primária.

A implicância com os homens e a paixão pelas mulheres eram evidentes. Adorava passear de charrete, sempre acompanhado por mulheres, pelo seu sítio, em Maricá. Aliás, esta cidade do litoral fluminense foi o cenário de uma das maiores travessuras de Darcy. Em 1995, ele enlouqueceu os médicos ao fugir da UTI. Depois de 21 dias de internação para se tratar do câncer, ele deixou o hospital no Rio para se esconder em sua casa em formato de oca na praia de Maricá, projetada por Oscar Niemeyer. "No hospital só tinha gente querendo morrer, eu quero viver", justificou. Acabou vivendo mais dois anos, até ser vencido pela "bolinha maligna", como ele definiu o câncer que já lhe tirara um pulmão em 1974.

Fundou o Museu do Índio e criou o Parque Indígena do Xingu. Elaborou para a Unesco um estudo do impacto da civilização sobre os grupos indígenas brasileiros no século XX e colaborou com a Organização Internacional do Trabalho na preparação de um manual sobre os povos aborígenes de todo o mundo. Admirado inclusive pelos adversários, Darcy exerceu vários cargos públicos, como ministro-chefe da Casa Civil do presidente João Goulart, vice-governador do Rio de Janeiro e senador.

Membro da Academia Brasileira de Letras, Darcy foi exilado e teve cassados os direitos políticos durante a ditadura militar. Viveu em vários países da América Latina, conduzindo programas de reforma universitária. Escreveu dezenas de ensaios e livros, entre eles os romances "Maíra", "O mulo", "Utopia selvagem" (1982) e "Migo" (1988). Seu último trabalho foi "O povo brasileiro", de 1995.

Darcy não tinha medo da morte. O que o "fazedor de coisas" abominava era a idéia de não mais realizar, dizer adeus aos "fazimentos". E não mais poder divertir o mundo ao seu redor com lições bem-humoradas de amor à vida, como as frases que usava para explicar seus arroubos intelectuais. "Mais vale errar se arrebentando do que preparar-se para nada", dizia o poeta Darcy.