segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Pio XII foi mesmo o papa de Hitler

Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa

Se alguém, mesmo depois da obra monumental do professor John Cornwell, Universidade de Cambridge, tivesse alguma dúvida de que Pio XII, Eugenio Pacelli, tinha sido mesmo o papa de Hitler, por sua ligação com o nazismo, a dissipou totalmente com a reportagem que o Canal 82 da Net, History Channel, colocou no ar na segunda-feira, 5 de fevereiro. O livro de Cornwell, traduzido por A.B. Pinheiro de Lemos, foi editado no Brasil pela Imago.

Alcançou grande repercussão, não só pelos documentos históricos que contém, mas sobretudo porque na ocasião discutia-se, ainda no tempo de João Paulo II, se Pio XII deveria ser ou não canonizado. Uma forte onda contrária verificou-se em vários pontos do mundo. O relato do professor inglês é arrasador. Todas as posições de Pacelli estão documentadas desde quando, em 33, núncio apostólico em Berlim e Munique, firmou com Adolf Hitler a Concordata do Vaticano, por delegação de Pio XI, Achile Tatti, que o antecedeu.

Mas Pio XI, em 1939, pouco antes morrer, iniciara uma série de pronunciamentos contrários ao nazismo. Entretanto, morreu em agosto daquele ano, exatamente quando Hitler invadiu a Polônia, e a Inglaterra de Churchill declarou guerra ao eixo Alemanha-Itália. A voz do Vaticano se calou. Também desapareceram os editoriais do "Oservatore Romano". O silêncio de Pacelli entrou em cena. Pio XII assumiu em 39 e morreu em 1958, substituído por João XXIII, o autor da magnífica Encíclica Mater e Magistra.

Em todo curso da Segunda Guerra Mundial, não se ouviu uma só palavra de Pacelli condenando qualquer fato nazista. Tenaz adversário dos judeus e dos comunistas, Pio XII fez o alinhamento pela omissão. Não se pronunciou sequer contra o holocausto, os campos de extermínio, o projeto de "solução final" contra os judeus. Foram covardemente assassinados 6 milhões de judeus no campos de concentração, o maior deles Auschwitz: Pio XII nada - absolutamente nada - falou.

O processo de canonização estava caminhando, mas, de repente, parou. O relator da matéria no Vaticano, padre Peter Gumpel, recuou para a sombra. O historiador judeu Albert Goldenhagem pronunciou-se classificando a canonização como o escândalo do século e João Paulo II travou o andamento da matéria. Sinalizou indiretamente ser contrário, ao liberar os documentos de Pacelli apenas até 1942. "Depois - disse dois anos antes de morrer - decidirei o que vou fazer quanto aos textos de 1942 a 1945". Para bom entendedor, meia palavra basta. Todo esforço para santificar Pio XII entrou em recesso. Joseph Ratzinger, Bento XVI, também não se mostra disposto a recolocar a questão em debate.

Os adeptos da canonização recorriam ao desfecho do concílio - vejam só os leitores - de 1870, que consagrou a infalibilidade papal e a considerou um triunfo do dogma sobre a história. Ora, considerar a vitória do dogma contra a história significa, tacitamente, reconhecer o contrário. Pois não se trata de êxito ou derrota, mas sim da busca da verdade.

João Paulo II, por seu turno, lendo-se com atenção sua afirmativa de 97, considerou superada a visão de 1870, que vinha sendo usada para defender Pio XII. Jesus Cristo - afirmou - é o ponto de partida e de chegada da filosofia da Igreja em relação ao holocausto nazista. E pediu perdão aos judeus pelo fato do Vaticano ter-se omitido. Aliás, vergonhosamente.

Por que o papa João Paulo II dispôs-se a liberar os documentos de Pacelli só até 1942? John Corwell e o History Channel fornecem a resposta. Simplesmente porque na mensagem de Natal de 42, ano especialmente crítico para a política mundial, antes da derrota de Rommel nas areias de Al Alamein e de Von Paulus nas estepes da Rússia, havia incerteza quanto ao desfecho da guerra.

Mas Hitler havia anunciado a solução final contra os judeus e a guerra total contra todos os países que se opunham ao nacional-socialismo. Inclusive, em 41, antes do ataque do Japão a Pearl Harbour, Hitler, em discurso no Parlamento (Reichstag), focalizado ao vivo no filme "Ascensão e queda do III reich", baseado no livro fantástico do jornalista William Schirer, debochou da carta que o presidente Roosevelt lhe enviara, indagando se prosseguiria na política de invasões militares e escravização das nações que capitulassem.

Ao dizer que Cristo era o ponto de partida e de chegada da história, Wojtyla nitidamente rebateu a tese da canonização de Pio XII que se baseava exatamente no desfecho do concílio de 117 anos atrás. João Paulo II falou sobre o episódio, histórico, como citei, em 1997.

A concordata entre o Vaticano e a Alemanha nazista foi firmada em 1933, exatamente por Pacelli, então núncio apostólico em Berlim. Por ela, o nazismo autorizava o funcionamento dos colégios católicos em território alemão, mas o Vaticano não se envolveria em questões de contestação aos crimes hediondos praticados sob a suástica. Nove anos depois, na Cátedra de São Paulo, Pio XII nada disse - na famosa mensagem de Natal - sobre os campos de extermínio.

E em 1943 condenou os partizans pelo atestado feito contra as forças de ocupação alemãs na Itália. A Itália fora invadida duplamente: pelos alemães para restabelecer Mussolini no poder, pois havia sido demitido pelo rei Vítor Emanoel, e pelos aliados que destroçavam as forças nazistas. History Channel acentuou a condenação da atitude dos partizans por Pio XII.

E também o fato de Pacelli ter mantido o silêncio de sempre em relação à represália alemã de matar com um tiro na nunca, nas catacumbas de Roma, cinco italianos por cada soldado alemão morto. Todo o relato histórico de Cornwell e do Canal 82 da Net tornam Pio XII, na realidade, um ex-futuro santo da Igreja Católica. Foi mesmo o papa de Hitler. Uma vergonha.