quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Então você quer mais energia nuclear?

por Claudio Shikida, site do Instituto Millenium

Energia nuclear é uma das formas menos poluentes de energia. Causa dificuldades, por exemplo, para discursos de ecologistas radicais. Tanto é assim que um dos fundadores do Greenpeace, Patrick Moore, abandonou o grupo e hoje advoga o uso desta fonte de energia, não sem enfrentar a fúria dos antigos aliados. Atualmente, este tipo de energia ocupa cerca de 2% do total de energia gerada no Brasil. Sobre os novos planos do governo recentemente divulgados, afirmou um estudioso:

…as reservas atuais são suficientes para abastecer todas as usinas do programa proposto por 60 anos. ‘Há uma fila de parceiros internacionais querendo nos ajudar a desenvolver o setor, em troca de urânio. [O Estado de São Paulo, 11.02.07, p.B4]

Energia nuclear, no Brasil, é monopólio estatal. E isto é uma possível fonte de problemas. Por exemplo, na Índia, esta é uma discussão que tem tomado importância desde recente acordo Bush-Manmohan em 2006 (veja também este estudo interdisciplinar do MIT, de 2003, para uma discussão sobre o tema).
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A história do programa nuclear brasileiro é praticamente uma história da intervenção estatal na economia, incluindo aspectos políticos como a aliança entre intelectuais nacionalistas durante regime militar em prol do desenvolvimento de armamento nuclear: não era difícil, nos corredores das faculdades, encontrar militantes não-liberais (mas também contrários ao governo militar) que viam com bons olhos o crescimento de um poder nuclear brasileiro em um ingênuo sonho de tons “antiimperialistas” (leia-se: “anti-capitalistas”).

De qualquer forma, em 1988, o governo, oficialmente, renunciou ao desenvolvimento de armas nucleares, um ano após a tragédia de Goiânia e, em 2003, envolveu-se em uma polêmica com a Agência Internacional de Energia Atômica sobre a fiscalização de seus reatores, gerando uma desnecessária atmosfera de desconfiança internacional quanto aos reais objetivos dos projetos nucleares do país. Recentemente veio à tona o fato de que o desenvolvimento das usinas nucleares brasileiras não ocorreu de modo totalmente seguro: ocorreram problemas sérios que somente agora vieram à tona (por que será que a palavra “monopólio” não me abandona?).

Não existe uma tradição empresarial brasileira de exploração da energia nuclear, claro, pois desde seu início o assunto era considerado monopólio governamental. Mas é possível imaginar-se arranjos regulatórios mais flexíveis, nos quais a produção da energia nuclear seja feita com forte presença privada (veja os links acima). Outro ponto importante é a segurança. O desrespeito à lei no Brasil com ações terroristas como as do PCC em São Paulo deveriam fazer as autoridades mais cautelosas e menos ufanistas. Não é difícil imaginar cenários de ameaça terrorista a usinas brasileiras, sejam estes causados por criminosos comuns ou mesmo eco-terroristas. Como será feita a segurança destas usinas se armas de grupos de bandidos, muitas vezes, são originárias dos arsenais militares? Finalmente, a questão básica: quem pagará pela construção destas usinas? O cidadão. Quanto custa? Ainda não se sabe. Que alternativas foram deixadas de lado? Também não está claro.

O perigo da energia nuclear não está na energia em si. Está nas instituições que devem garantir a eficiência econômica e institucional da matriz energética. E esta questão, leitor, eu não vejo nunca em discussão. Eis um bom ponto para a reflexão.