quinta-feira, março 15, 2007

O presente da reeleição

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil

Só não é oficial, mas foi assimilada pelos profissionais do ramo e pelo público em geral a evidência de que o presidente Lula imprimiu ao segundo mandato uma feição própria, que não se confunde com os quatro anos inaugurais do maior governo de todos os tempos.

O quatriênio da reeleição, como já se constata pela amostra dos 73 dias iniciais, lavou a alma presidencial de todas as impurezas dos atritos e crises dos escândalos do mensalão e do caixa 2, da gatunagem da compra de ambulâncias superfaturadas na operação dos sanguessugas e das tramóias petistas. E recebeu a reeleição na bandeja dos mais de 61 milhões de votos como um presente do povo, a dádiva do eleitorado pelo muito que fez em todas as áreas, especialmente na assistência social com a milagreira distribuição de mais de 11 milhões de Bolsas Família.

Ora, presente não impõe o constrangimento da retribuição. Basta o agradecimento do agraciado. E é de desfrutar o mimo até a última gota o que cuida, em tempo integral, o nosso benemérito. Nunca exibiu mais ruidosa descontração no à-vontade que, às vezes, passa da conta, ou do ponto, como no torneio oratório com o presidente Bush. Mas que o inspirou na inédita seqüência, gravada e fotografada, do bate-bola no gramado do estádio do Maracanã e dos três pênaltis batidos, descalço e de calça dobrada, com a habilidade de peladeiro veterano com 61 anos nas costas.

Não são meros instantes. Mas um estado de espírito que anuncia o novo estilo de governo. Ou, pelo menos, os retoques no modelo que entrou para a história e quitou as dívidas dos compromissos de quatro campanhas.

As delongas nas barganhas com os ansiosos partidos e pretendentes ganham a transparência da explicação nos recados, cada vez mais explícitos e diretos que vem repetindo em declarações e conversas. Lula não tem pressa. Reeleição dispensa a reforma ministerial. E para trocar meia dúzia de ministérios e secretários pelos compromissos de apoio não é preciso correr. Ao contrário, o tempo amansa a impaciência, como é exemplo perfeito o recuo do PT e a fritura da ex-prefeita Marta Suplicy, que baixou o topete e aceita qualquer cargo que a preserve do esquecimento.

Certamente não era necessário esperar tanto para a óbvia escolha de Tarso Genro para ministro da Justiça. O gaúcho de fala empolada improvisa explicação para qualquer embaraço que ninguém entende, mas engole com medo de passar por idiota.

Valeu a pena esperar pelo apodrecimento do PR - montado na carcaça do antigo e notório PL, que brilhou na roubalheira do mensalão, e beneficiado pela fusão com o Prona do Enéas - que escorregou no suspeito inchaço fulminante: elegeu 23 deputados e contabiliza 38, atraídos pelo tinir das convicções.

O presidente Lula cuida de outros assuntos mais atrativos. Braceja para consolidar a sonhada liderança continental, plataforma para o salto para os espaços do mundo. Viaja, discursa, diverte-se, solta piadas. Sua missão foi cumprida nos quadros de recordes históricos. Como a marca do PIB, em que batemos o Haiti com o honroso penúltimo lugar na América Latina. Ou a carga tributária que raspa nos 40% contra os 20% da média dos países emergentes.

Detalhes, como o da malha rodoviária em pandarecos. Ou o da perda recordista de florestas primárias no mundo, na companhia ilustre do México, Indonésia e Papua Nova Guiné.

Ninharias. Lula está em outra. Quem não estiver satisfeito queixe-se à ministra Dilma Rousseff. Para boas explicações, procure o novo ministro da Justiça, Tarso Genro.