José Paulo Kupfer, NoMínimo
George Bush não cedeu nas tarifas que os Estados Unidos impõem ao etanol brasileiro exportado para lá. E ainda precisamos ver no que vai dar o acordo de cooperação tecnológica e de expansão de mercado firmado por Brasil e EUA. Em termos práticos, resumindo, a visita do presidente americano ao Brasil, que tumultuou o trânsito e o cotidiano na cidade de São Paulo, não foi uma brastemp, mas não foi o zero, como há quem já se apresse a concluir.
Então, ficamos assim: se Bush não atendeu a Lula, Lula também não ofereceu ao convidado a comida brasileira que ele declarou publicamente interessado em conhecer. Na próxima, é bom lembrar ao cerimonial do Itamaraty que, como o etanol, a cozinha brasileira é cheia de atrativos.
Não vai dar para entrar para valer com o etanol brasileiro no mercado americano, mas também isso não é o maior problema. Haverá mercados de sobra na Europa e na Ásia e mesmo aqui nas vizinhanças – neste caso não só para o combustível, mas para a tecnologia de produção e para a venda de serviços de projeto e montagem de usinas.
O maior problema é o Brasil dormir nos louros do seu pioneirismo na pesquisa tecnológica de biocombustíveis e não progredir, lado a lado com os americanos. Por que eles vão vir com tudo na busca do etanol extraído da celulose.
No Brasil, há previsões de que chegaremos ao etanol de celulose, obtido a partir do bagaço e da palha da cana, em dois anos. Mas a corrida ficou mais acirrada. Fundos suficientes para pesquisa e desenvolvimento tecnológico do biocombustível, eis o grande gargalo.
Há outras questões a serem resolvidas antes que se possa transformar em realidade o sonho de fazer do Brasil a Arábia Saudita do etanol. Uma das mais críticas, nem de longe mencionada, é a do custo de produção. Sabe-se que o Brasil tem enormes vantagens com a matéria-prima. Mas não se ouve falar da enorme – e vergonhosa – vantagem da mão-de-obra.
A jornalista Maria Cristina Fernandes, do Valor Econômico, relata que 60% da produção paulista, que responde por 60% da produção brasileira, ainda são colhidos manualmente, em péssimas condições de trabalho. Nenhuma das 74 usinas fiscalizadas em 2006 escapou de autuações, havendo casos de uma única usina com quase 30 autuações. A tendência da mecanização, que já domina as lavouras do Mato Grosso, ainda está longe de mudar o quadro.
Nas últimas duas décadas, a produtividade média do cortador de cana dobrou, alcançando agora a incrível marca de 12 toneladas por dia. Sua remuneração, no entanto, fez caminho inverso. De um piso que equivaleria hoje à cerca de R$ 900 por mês, a remuneração reduziu-se para menos de R$ 500 mensais, nos dias de hoje.
As condições “chinesas” de trabalho no corte da cana, como escreve Maria Cristina, não são aceitáveis, sobretudo para um produto que pode projetar o Brasil como ponta-de-lança do principal combustível renovável. E indicam que, para que o Brasil consiga exportar seu etanol em larga escala, uma revolução no tratamento da mão-de-obra da cana terá de acompanhar os avanços na tecnologia de produção. Os compradores, especialmente os europeus, pressionarão para a melhoria das condições de trabalho na produção de etanol.
A moral da história é que, se, realmente, o Brasil está bem na parada dos biocombustíveis e deu um passo interessante ao firmar a parceria com o governo Bush, ainda tem muito chão para carpir e adubar, se pretende manter a posição de liderança que conseguiu conquistar e não quiser correr o risco de sofrer as dores de cabeça de uma ressaca de etanol.
COMENTANDO A NOTICIA: De fato, a lavoura de cana além da condição sub-humana com que os trabalhadores são obrigados a lidar, da remuneração vergonhosa, o conjunto deste quadro já vitimou muita gente jovem, e provocou a invalidez de outro tanto. Claro que o governo deve fiscalizar, mas é preciso conscientizar os empresários brasileiros. Sua grande maioria trata seus empregados feitos escravos. E quase todos tem condições de remunerar melhor e não o fazem. Uma porque não querem, outra porque não se deram conta de que na fortuna que constrói com seus negócios está construída no trabalho dos empregados submetidos a indignas condições de trabalho. E aqui é que entendo que os sindicatos, as ONGs, a CNBB, e os agentes públicos deveriam atuar, fiscalizar e cobrar das autoridades as devidas punições além de um amplo processo de conscientização empresarial.
George Bush não cedeu nas tarifas que os Estados Unidos impõem ao etanol brasileiro exportado para lá. E ainda precisamos ver no que vai dar o acordo de cooperação tecnológica e de expansão de mercado firmado por Brasil e EUA. Em termos práticos, resumindo, a visita do presidente americano ao Brasil, que tumultuou o trânsito e o cotidiano na cidade de São Paulo, não foi uma brastemp, mas não foi o zero, como há quem já se apresse a concluir.
Então, ficamos assim: se Bush não atendeu a Lula, Lula também não ofereceu ao convidado a comida brasileira que ele declarou publicamente interessado em conhecer. Na próxima, é bom lembrar ao cerimonial do Itamaraty que, como o etanol, a cozinha brasileira é cheia de atrativos.
Não vai dar para entrar para valer com o etanol brasileiro no mercado americano, mas também isso não é o maior problema. Haverá mercados de sobra na Europa e na Ásia e mesmo aqui nas vizinhanças – neste caso não só para o combustível, mas para a tecnologia de produção e para a venda de serviços de projeto e montagem de usinas.
O maior problema é o Brasil dormir nos louros do seu pioneirismo na pesquisa tecnológica de biocombustíveis e não progredir, lado a lado com os americanos. Por que eles vão vir com tudo na busca do etanol extraído da celulose.
No Brasil, há previsões de que chegaremos ao etanol de celulose, obtido a partir do bagaço e da palha da cana, em dois anos. Mas a corrida ficou mais acirrada. Fundos suficientes para pesquisa e desenvolvimento tecnológico do biocombustível, eis o grande gargalo.
Há outras questões a serem resolvidas antes que se possa transformar em realidade o sonho de fazer do Brasil a Arábia Saudita do etanol. Uma das mais críticas, nem de longe mencionada, é a do custo de produção. Sabe-se que o Brasil tem enormes vantagens com a matéria-prima. Mas não se ouve falar da enorme – e vergonhosa – vantagem da mão-de-obra.
A jornalista Maria Cristina Fernandes, do Valor Econômico, relata que 60% da produção paulista, que responde por 60% da produção brasileira, ainda são colhidos manualmente, em péssimas condições de trabalho. Nenhuma das 74 usinas fiscalizadas em 2006 escapou de autuações, havendo casos de uma única usina com quase 30 autuações. A tendência da mecanização, que já domina as lavouras do Mato Grosso, ainda está longe de mudar o quadro.
Nas últimas duas décadas, a produtividade média do cortador de cana dobrou, alcançando agora a incrível marca de 12 toneladas por dia. Sua remuneração, no entanto, fez caminho inverso. De um piso que equivaleria hoje à cerca de R$ 900 por mês, a remuneração reduziu-se para menos de R$ 500 mensais, nos dias de hoje.
As condições “chinesas” de trabalho no corte da cana, como escreve Maria Cristina, não são aceitáveis, sobretudo para um produto que pode projetar o Brasil como ponta-de-lança do principal combustível renovável. E indicam que, para que o Brasil consiga exportar seu etanol em larga escala, uma revolução no tratamento da mão-de-obra da cana terá de acompanhar os avanços na tecnologia de produção. Os compradores, especialmente os europeus, pressionarão para a melhoria das condições de trabalho na produção de etanol.
A moral da história é que, se, realmente, o Brasil está bem na parada dos biocombustíveis e deu um passo interessante ao firmar a parceria com o governo Bush, ainda tem muito chão para carpir e adubar, se pretende manter a posição de liderança que conseguiu conquistar e não quiser correr o risco de sofrer as dores de cabeça de uma ressaca de etanol.
COMENTANDO A NOTICIA: De fato, a lavoura de cana além da condição sub-humana com que os trabalhadores são obrigados a lidar, da remuneração vergonhosa, o conjunto deste quadro já vitimou muita gente jovem, e provocou a invalidez de outro tanto. Claro que o governo deve fiscalizar, mas é preciso conscientizar os empresários brasileiros. Sua grande maioria trata seus empregados feitos escravos. E quase todos tem condições de remunerar melhor e não o fazem. Uma porque não querem, outra porque não se deram conta de que na fortuna que constrói com seus negócios está construída no trabalho dos empregados submetidos a indignas condições de trabalho. E aqui é que entendo que os sindicatos, as ONGs, a CNBB, e os agentes públicos deveriam atuar, fiscalizar e cobrar das autoridades as devidas punições além de um amplo processo de conscientização empresarial.