terça-feira, abril 17, 2007

Brasil queima os dedos em negócios da Petrobras no Oriente Médio

William Waack, G1
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Não há negócios sem significado político em lugares como o Oriente Médio, e por isso não é surpresa a pressão americana para a Petrobras cancelar projetos de perfuração de petróleo no Irã. As empresas americanas estão proibidas de atuar no Irã e podem ser punidas, mas o Congresso em Washington hesita em estender o mesmo tratamento a companhias estrangeiras.Não é surpresa também a resposta que o presidente Lula deu em Washington quando indagado sobre as pressões americanas. O Brasil se recusa a ceder. É a tradicional resposta de governos brasileiros nos últimos 30 anos, pelo menos. É bom para a soberania, mas nem sempre foi bom para os negócios – a Petrobras tem larga experiência nisso.
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Ela foi garfada por Saddam Hussein quando descobriu um dos melhores campos de petróleo no Iraque, nos anos 80. Saddam deveria ter mostrado alguma gratidão à Petrobras, mas o ditador iraquiano seguia fielmente o que seu ídolo, Josef Stálin, dizia sobre gratidão: “é uma doença de cachorro”. Quando invadiu o Kuwait, em 1990, e viu empresas brasileiras querendo cair fora da confusão, Saddam fez reféns cerca de 300 peões de uma empreiteira com sede em Minas Gerais.
Como já aconteceu com muita freqüência, foi o contribuinte brasileiro, via Banco do Brasil, quem acabou pagando o prejuízo da empreiteira privada. Na época, outros empreendimentos nas mãos de particulares – como o projeto de construir mísseis ar-ar para Saddam – causaram consideráveis dores de cabeça em termos de política externa, e delas ficou uma lição que os diplomatas brasileiros conhecem bem: é difícil meter-se em negócios no Oriente Médio sem queimar os dedos.
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Um dos campos iranianos nos quais a Petrobras também vai trabalhar (junto da espanhola Repsol) fica no Mar Cáspio, que hoje ocupa um lugar central na geopolítica do petróleo. Para chegar aos principais centros consumidores do planeta, o petróleo do Cáspio (dividido entre vários países) precisa ser levado via o conturbado Cáucaso, ou o ainda mais conturbado Golfo Pérsico. Não há como escapar a fazer parte de algum conflito – simplesmente não existe escolha “certa”.
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Para a Petrobras, os riscos são empresariais, e não há como evitá-los, se ela quiser permanecer sendo uma empresa de ponta internacional. Para o governo brasileiro, os riscos são políticos, e o problema é saber em que escala. O Brasil é um país pequeno demais, em termos de política internacional, para jogar qualquer tipo de “peso” num conflito como o do Oriente Médio – seja para proteger, seja para promover o que fazem empresas nossas por lá.
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Tem sido nossa política tradicional, no Oriente Médio, do ponto de vista empresarial, encontrar nichos e explorá-los da maneira mais discreta possível. Foi assim inclusive com a já falida indústria bélica nacional – e tem sido assim com a exportação de carne de frango, móveis, sapatos ou aviões.
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uriosamente, o Brasil é um dos poucos países do mundo que desfrutam de indiscutível simpatia em qualquer lugar do Oriente Médio. O futebol é um dos esportes coletivos sancionados mesmo nos regimes islâmicos mais estritos (Bin Laden, por exemplo, adora futebol, que usava como preparação física para terroristas em treinamento no Afeganistão, exigindo apenas que usassem calças compridas)e em qualquer país da região é imediata a associação Brasil – bola – alegria – harmonia.
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Essa boa imagem verde (aliás, a cor do Islã) e amarela é reforçada também pelo fato de que as grandes comunidades em conflito por lá (árabes e israelenses) têm uma convivência extraordinariamente pacífica e tranqüila por aqui. Isso é bom para diplomatas, empresários e jornalistas em missão no Oriente Médio. Mas seria possível transformar um dado tão positivo em peso político maior?
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Dificilmente. Tanto diplomatas israelenses quanto de vários países árabes queixam-se de que o Brasil é “ausente” – e talvez não pudesse ser mesmo diferente. Nossos interesses comerciais não são de tamanho suficiente para que um governo brasileiro, qualquer governo, se transforme em ator importante no conflito. Terrorismo não é um problema para o Brasil, apesar do que se diz (sem provas contundentes) sobre a Tríplice Fronteira. A questão religiosa está longe de mobilizar nosso cotidiano político.
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Mesmo assim, é difícil escapar às armadilhas. Escolher parceiros no Oriente Médio simplesmente por serem “anti-americanos”, ou “progressistas”, é arriscar-se a cair em más companhias. Aliás, é bastante complicada a definição do que seja um “moderado” no Oriente Médio (vale para quem apóia políticas americanas por um lado e financia radicais islâmicos por outro?), do que seja um “regime democrático” (em se tratando de países árabes), do que seja uma “atitude transigente” (a de Israel em relação aos palestinos é?).
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Nesse sentido, talvez nosso pequeno peso político seja uma dádiva. E a Petrobras que se vire – ela sabe onde está se metendo.