terça-feira, abril 17, 2007

Um bonito exemplo

Ubiratan Iorio, economista, Jornal do Brasil

Nestes tempos inacreditáveis, em que uma ministra que ganha para promover uma "igualdade racial" que já existe constitucionalmente, manda às favas o seu cargo de "heroína" - que, sobre ser redundante, também é caro para os contribuintes - para semear nos nossos irmãos negros o ódio contra os brancos; em que, a pretexto de uma "igualdade na chegada", muitos, inclusive magistrados, justificam crimes bárbaros pelas "desigualdades"; em que se pretende premiar famílias de bandidos com "bolsas"; em que um rabino esquerdista tisna a respeitável tradição moral judaica furtando gravatas (caras, pois ele não é bobo); em que "teólogos" que se dizem católicos atacam o papa e exaltam hereges da Teologia da Libertação; em que a hierarquia militar é desrespeitada pelos controladores de vôo e o governo cede à insubordinação, só recuando por pressão; em que os deputados decidem que não trabalharão mais em Brasília às segundas-feiras; em que a mediocridade é enaltecida e a inteligência execrada; nestes tempos incríveis, o exemplo - real - de Marlene é uma lufada de ar fresco no ambiente moral podre que nos circunda e um veemente desmentido às teses sociológicas e antropológicas das "esquerdas".

Moradora de um morro carioca em área bastante violenta (que redundância!), abandonada pelo marido com quatro filhos ainda crianças, pobre, mas digna, não buscou as bolsas-esmolas que os governos distribuem em troca de votos e de adesão compulsória à seita do mau pastor de plantão que detém sua partilha. Pelo contrário, olhou para dentro de si e enxergou-se uma mulher de fibra, valente, honesta, trabalhadora e, sobretudo, empreendedora.

Esperar pelos governos? Para que? Reclamar? Nada disso! E Marlene foi à luta, sozinha. Primeiro, voltou a estudar, no supletivo de uma escola estadual, perto do pé do morro. Esforçada e sempre com um sorriso para oferecer, despertou a simpatia de professoras dedicadas, verdadeiras heroínas como ela e abandonadas como ela pelos governantes. Abriu uma tendinha ao lado de sua casa, onde vendia café e média com pão e manteiga, feitos com esmero e carinho, mostrando que qualquer trabalho honesto, por mais humilde que seja, deve ser realizado com dedicação. Em meses, passou a vender também sanduíches, com grande saída, porque, além de bem feitos, tinham preços justos.

Soube ser firme com os filhos: nenhum deles envolveu-se com o tráfico que domina o morro e que, diversas vezes ao ano, "ordena" que a escola seja fechada. O mais velho, inclusive, está terminando o segundo grau, prepara-se para prestar vestibular no segundo semestre deste ano e vai ganhar um computador da mãe, comprado a prazo, ainda neste mês.

Vendo que seu negócio ia bem, matriculou-se em um curso gratuito de preparação de salgadinhos, que já sabia fazer, mas sem aquela arte que, segundo ela, cativaria os consumidores. Assim que se sentiu em condições, passou a vendê-los em sua tendinha, sempre com limpeza, capricho, ingredientes de boa qualidade e preços bons.

A demanda, naturalmente, foi grande, o que a conduziu, com seu espírito de iniciativa, à quarta etapa, a de preparar refeições "quentinhas", vendidas, primeiro, no morro, mas, logo, a famílias do asfalto, atraídas pela fama, já corrente, de limpeza, qualidade e bom preço. Hoje, Marlene vive a quinta fase de seu empreendimento: fornece refeições para alguns restaurantes e, como a procura tem sido grande, já conta com quatro auxiliares de cozinha, que, com olho na qualidade, orienta em tempo integral.

Segue firme na escola, sempre com bons conceitos e notas. E a sexta etapa já sabe qual será: abrir uma loja no asfalto, daqui a um ou dois anos.

Que Deus abençoe você, Marlene, que não é "pobre por vocação", pois nunca esperou que os governos fizessem chover o maná! Houvesse muitas e muitos com a sua têmpera, os políticos populistas que preferem manter a pobreza, ao invés de atacar suas causas, morreriam de fome.