Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa
O incomparável Joel Silveira, na década de 40, conquistou a justa fama de maior repórter do País, porque tratava os assuntos cruamente, sem medo e sem piedade. Começou uma série de reportagens sobre velhos dirigentes políticos. E acabava sempre dando algumas bordoadas nos coitados.
Um dia, foi procurar o lendário Antonio Carlos de Andrada, ex-governador de Minas e ex-presidente da Câmara dos Deputados. Mal entrou, Joel levou um susto. O velho Andrada começou a falar de Sergipe, do pai de Joel, dos amigos dele, das crônicas dele, dos livros dele, que citou um a um.
Joel ficou encantado, fez a entrevista. Na semana seguinte, "Diretrizes" publicava uma reportagem de Joel, muito simpática, sobre Antonio Carlos. Um amigo, surpreso, perguntou ao ex-governador como conseguiu aquilo. - Muito simples. Passarinho que não pode fugir de cobra fica voando em volta. Eu dei um vôo em torno dele, dos livros dele e ele amansou. Foi só jeito. Lula governa como passarinho fugindo de cobra. Só voando e falando.
Heróis
A "Folha" tinha feito uma enquete com 200 "personalidades" (jornalistas, escritores, professores, artistas, economistas, religiosos) para escolherem "o maior brasileiro de todos os tempos". Ganhou Getulio, depois Juscelino, Machado de Assis, Rui Barbosa, Tiradentes, Santos Dumont.
O jornal fez também uma votação pela internet: 66.303 pessoas. Ganhou "o povo" com 32%. Depois, Santos Dumont (18%), Juscelino (13%), Getulio (8%), Rui Barbosa (6%), Tiradentes (6%), Machado de Assis (5%), Niemeyer (4%), Pedro II (4%), Tom Jobim (3%), José Bonifácio (1%).
Não há apagão que apague Santos Dumont. Nem cassação que derrube Juscelino. E nenhum voto para general. Ao contrário da América Latina, o Brasil não é uma civilização militarizada. E Niemeyer é nosso herói vivo.
Piauí
Lula e o PT fizeram um carnaval de propaganda e um balaio de votos com os empréstimos e seguros consignados em folha de pagamento dos funcionários. Mas, às vezes eles mesmos descarregam a benemerência na cabeça do povo. No Piauí, está acontecendo uma história revoltante.
Até certo tempo, o Piauí era o único Estado que não tinha desconto em folha. O governador Hugo Napoleão, depois de uma série de exigências, liberou os descontos em folha para bancos e empresas que tinham solidez.
Veio o governo do PT: Wellington Dias. Os descontos continuaram e o governo do Estado recolhe o dinheiro dos funcionários e ainda cobra taxas das empresas para fazer os descontos em folha. Mas, em vez de repassar para os bancos, planos de saúde, seguradoras, associações de classe, o governo do PT começou a ficar com o dinheiro, que não é dele. Não paga nada. Pega tudo.
Está dando a maior confusão. O funcionário é descontado todo mês na folha de pagamento. Como o governo não repassa o dinheiro, os planos de saúde, seguros de vida, associações de pensões suspendem os atendimentos. E pior. Os bancos estão cobrando mais juros e processando os funcionários.Isso é coisa que se faça, governador? Que papelão! Logo você, do PT!
Afonso Arinos
O ótimo livro do embaixador Afonso Arinos, filho ("Mirante", da Topbooks), que comentei aqui na terça, dá uma bela lição de espírito público. Quem escreve tem o dever de dizer o que pensa, doa a quem doer. Ele diz:
1 - "Fernando Henrique é, sem dúvida, o presidente mais preparado intelectualmente que o Brasil já teve até hoje. Organiza e racionaliza a administração do Estado, procura conceituar com lógica os atos de governo. Mas sua ação se compromete com negócios nebulosos, como o processo das privatizações, se desfazendo de empresas públicas estratégicas para nossa economia, e conduzindo a entrega de grandes ativos estatais aos consórcios privados, constituídos pela associação de grupos nacionais aos estrangeiros. Vende o patrimônio do Estado com financiamento do próprio Estado, sob o pretexto de abater a dívida pública - que até hoje só fez multiplicar-se".
2 - "As dimensões do território e da população do Brasil representariam por si só fonte inesgotavel de produção e enorme mercado de consumo, suficientes para nos tornarem um dos maiores países agrícolas e industriais do mundo. Isto se a economia brasileira não fosse gerida por ex-associados e antigos empregados de patrões estrangeiros mais atentos aos ditames de pátrias e matrizes distantes do que aos interesses nacionais".
Tarso Bobbio
Parece que os eflúvios jurídicos de Milton Campos, Mem de Sá, José Carlos Dias, Marcio Tomás Bastos e outros raros que passaram pelo Ministério da Justiça estão fazendo bem ao árdego leninista Tarso Genro. Depois que assumiu o ministério, começou a tomar juízo. Agora é "bobiano": "A genialidade de Norberto Bobbio (jurista e filósofo italiano) demonstra que, sem regras estáveis e previsíveis, o resultado é sempre pior para uma maioria. Se existe uma possibilidade verdadeira de socialismo, ela é, em primeiro lugar, uma questão democrática. Sem uma ordem jurídica legítima, sem obediência às regras do direito, a saída será sempre totalitária".
O incomparável Joel Silveira, na década de 40, conquistou a justa fama de maior repórter do País, porque tratava os assuntos cruamente, sem medo e sem piedade. Começou uma série de reportagens sobre velhos dirigentes políticos. E acabava sempre dando algumas bordoadas nos coitados.
Um dia, foi procurar o lendário Antonio Carlos de Andrada, ex-governador de Minas e ex-presidente da Câmara dos Deputados. Mal entrou, Joel levou um susto. O velho Andrada começou a falar de Sergipe, do pai de Joel, dos amigos dele, das crônicas dele, dos livros dele, que citou um a um.
Joel ficou encantado, fez a entrevista. Na semana seguinte, "Diretrizes" publicava uma reportagem de Joel, muito simpática, sobre Antonio Carlos. Um amigo, surpreso, perguntou ao ex-governador como conseguiu aquilo. - Muito simples. Passarinho que não pode fugir de cobra fica voando em volta. Eu dei um vôo em torno dele, dos livros dele e ele amansou. Foi só jeito. Lula governa como passarinho fugindo de cobra. Só voando e falando.
Heróis
A "Folha" tinha feito uma enquete com 200 "personalidades" (jornalistas, escritores, professores, artistas, economistas, religiosos) para escolherem "o maior brasileiro de todos os tempos". Ganhou Getulio, depois Juscelino, Machado de Assis, Rui Barbosa, Tiradentes, Santos Dumont.
O jornal fez também uma votação pela internet: 66.303 pessoas. Ganhou "o povo" com 32%. Depois, Santos Dumont (18%), Juscelino (13%), Getulio (8%), Rui Barbosa (6%), Tiradentes (6%), Machado de Assis (5%), Niemeyer (4%), Pedro II (4%), Tom Jobim (3%), José Bonifácio (1%).
Não há apagão que apague Santos Dumont. Nem cassação que derrube Juscelino. E nenhum voto para general. Ao contrário da América Latina, o Brasil não é uma civilização militarizada. E Niemeyer é nosso herói vivo.
Piauí
Lula e o PT fizeram um carnaval de propaganda e um balaio de votos com os empréstimos e seguros consignados em folha de pagamento dos funcionários. Mas, às vezes eles mesmos descarregam a benemerência na cabeça do povo. No Piauí, está acontecendo uma história revoltante.
Até certo tempo, o Piauí era o único Estado que não tinha desconto em folha. O governador Hugo Napoleão, depois de uma série de exigências, liberou os descontos em folha para bancos e empresas que tinham solidez.
Veio o governo do PT: Wellington Dias. Os descontos continuaram e o governo do Estado recolhe o dinheiro dos funcionários e ainda cobra taxas das empresas para fazer os descontos em folha. Mas, em vez de repassar para os bancos, planos de saúde, seguradoras, associações de classe, o governo do PT começou a ficar com o dinheiro, que não é dele. Não paga nada. Pega tudo.
Está dando a maior confusão. O funcionário é descontado todo mês na folha de pagamento. Como o governo não repassa o dinheiro, os planos de saúde, seguros de vida, associações de pensões suspendem os atendimentos. E pior. Os bancos estão cobrando mais juros e processando os funcionários.Isso é coisa que se faça, governador? Que papelão! Logo você, do PT!
Afonso Arinos
O ótimo livro do embaixador Afonso Arinos, filho ("Mirante", da Topbooks), que comentei aqui na terça, dá uma bela lição de espírito público. Quem escreve tem o dever de dizer o que pensa, doa a quem doer. Ele diz:
1 - "Fernando Henrique é, sem dúvida, o presidente mais preparado intelectualmente que o Brasil já teve até hoje. Organiza e racionaliza a administração do Estado, procura conceituar com lógica os atos de governo. Mas sua ação se compromete com negócios nebulosos, como o processo das privatizações, se desfazendo de empresas públicas estratégicas para nossa economia, e conduzindo a entrega de grandes ativos estatais aos consórcios privados, constituídos pela associação de grupos nacionais aos estrangeiros. Vende o patrimônio do Estado com financiamento do próprio Estado, sob o pretexto de abater a dívida pública - que até hoje só fez multiplicar-se".
2 - "As dimensões do território e da população do Brasil representariam por si só fonte inesgotavel de produção e enorme mercado de consumo, suficientes para nos tornarem um dos maiores países agrícolas e industriais do mundo. Isto se a economia brasileira não fosse gerida por ex-associados e antigos empregados de patrões estrangeiros mais atentos aos ditames de pátrias e matrizes distantes do que aos interesses nacionais".
Tarso Bobbio
Parece que os eflúvios jurídicos de Milton Campos, Mem de Sá, José Carlos Dias, Marcio Tomás Bastos e outros raros que passaram pelo Ministério da Justiça estão fazendo bem ao árdego leninista Tarso Genro. Depois que assumiu o ministério, começou a tomar juízo. Agora é "bobiano": "A genialidade de Norberto Bobbio (jurista e filósofo italiano) demonstra que, sem regras estáveis e previsíveis, o resultado é sempre pior para uma maioria. Se existe uma possibilidade verdadeira de socialismo, ela é, em primeiro lugar, uma questão democrática. Sem uma ordem jurídica legítima, sem obediência às regras do direito, a saída será sempre totalitária".