Guilherme Fiúza, Política & Cia., NoMínimo
O transatlântico Brasil segue lentamente em alto mar. Tem problemas crônicos na casa de máquinas. O capitão e sua tripulação tomam providências: reúnem-se para discutir a faxina no convés e a arrumação dos móveis no salão de jogos.
A esquizofrenia do transatlântico chegou a um ponto quase folclórico. Nem se pode mais dizer que os problemas cruciais permanecem intocados por causa do conflito de interesses. Não é mais o falso debate sobre privatizações, em que um lado fica querendo parecer mais brasileiro do que o outro empunhando falsos dogmas de patriotismo. Agora a paralisia está no consenso.
Governo e oposição estão caminhando para a costura de um acordo que acaba com o instituto da reeleição. Um movimento gigantesco, uma mobilização descomunal de energia e tempo para mudar a mudança, para jogar fora a arte final e consagrar o rascunho – que depois de amanhã alguém provavelmente descobrirá que não serve (tanto que já não servia) e partirá para rasurar a rasura.
Não importa discutir se é o ideal ou não que os presidentes, governadores e prefeitos possam ter dois mandatos seguidos. O que importa é que o Brasil não é confiável para criar regras, porque não se acostuma a respeitá-las.
Talvez a reeleição seja mais problema que solução. Ou talvez seja o contrário. Quem pode afirmar categoricamente? A única certeza inquestionável é que, se o Brasil tem problemas na casa de máquinas, esse definitivamente não é o tema que vai destravá-lo, que mereça a prioridade de um difícil acordo nacional.
O país tem uma estrutura tributária absurda, caótica, que supostamente só beneficia os arrecadadores, mas nem isso, porque não se pode arrecadar bem de uma economia constrangida pela própria forma de arrecadação. O Brasil tem uma infra-estrutura doente de terra e ar, e mata seu futuro a cada dia negando dignidade a professores, policiais e produtores de ciência e cultura.
E o que faz o Brasil diante disso? Vai discutir a reeleição.
A premissa é de que um governo gasta boa parte do seu tempo e dos seus recursos trabalhando para reeleger o seu chefe. Não é possível que nesse transatlântico só haja marinheiros de primeira viagem. A luta pela permanência no poder nasceu no dia em que se criou a reeleição? Qual é exatamente essa diferença abismal entre tentar manter no cargo o mesmo governante e tentar eleger um sucessor aliado?
O que é melhor? Um bis de Maluf ou a invenção de um Celso Pitta?
É impressionante que um governo, um Congresso, enfim, as instituições políticas de um país com tudo por fazer estejam mobilizadas para rasurar mais uma vez uma regra que, na perspectiva do tempo histórico, acaba de ser mexida – e que tem muito pouco a ver com o bom funcionamento da casa de máquinas, do país real.
A reeleição pode ser boa, porque a continuidade na administração pública é um artigo raro. Se há imperfeições na forma como tem sido processada, que se busque as correções de rumo. É preciso livrar-se de uma vez por todas dessa síndrome adolescente de que avançar é criar regras novas a cada nascer do sol.
Numa agenda política tacanha, em que só há foco para discussão de crises, CPIs e outras trombadas, a celebração de um pacto entre governo e oposição para acabar com a reeleição compõe o quadro acabado de uma república com alma de rincão.
Para que botar ordem na tribo se podemos ficar aqui eternamente discutindo os mandatos dos caciques?
O transatlântico Brasil segue lentamente em alto mar. Tem problemas crônicos na casa de máquinas. O capitão e sua tripulação tomam providências: reúnem-se para discutir a faxina no convés e a arrumação dos móveis no salão de jogos.
A esquizofrenia do transatlântico chegou a um ponto quase folclórico. Nem se pode mais dizer que os problemas cruciais permanecem intocados por causa do conflito de interesses. Não é mais o falso debate sobre privatizações, em que um lado fica querendo parecer mais brasileiro do que o outro empunhando falsos dogmas de patriotismo. Agora a paralisia está no consenso.
Governo e oposição estão caminhando para a costura de um acordo que acaba com o instituto da reeleição. Um movimento gigantesco, uma mobilização descomunal de energia e tempo para mudar a mudança, para jogar fora a arte final e consagrar o rascunho – que depois de amanhã alguém provavelmente descobrirá que não serve (tanto que já não servia) e partirá para rasurar a rasura.
Não importa discutir se é o ideal ou não que os presidentes, governadores e prefeitos possam ter dois mandatos seguidos. O que importa é que o Brasil não é confiável para criar regras, porque não se acostuma a respeitá-las.
Talvez a reeleição seja mais problema que solução. Ou talvez seja o contrário. Quem pode afirmar categoricamente? A única certeza inquestionável é que, se o Brasil tem problemas na casa de máquinas, esse definitivamente não é o tema que vai destravá-lo, que mereça a prioridade de um difícil acordo nacional.
O país tem uma estrutura tributária absurda, caótica, que supostamente só beneficia os arrecadadores, mas nem isso, porque não se pode arrecadar bem de uma economia constrangida pela própria forma de arrecadação. O Brasil tem uma infra-estrutura doente de terra e ar, e mata seu futuro a cada dia negando dignidade a professores, policiais e produtores de ciência e cultura.
E o que faz o Brasil diante disso? Vai discutir a reeleição.
A premissa é de que um governo gasta boa parte do seu tempo e dos seus recursos trabalhando para reeleger o seu chefe. Não é possível que nesse transatlântico só haja marinheiros de primeira viagem. A luta pela permanência no poder nasceu no dia em que se criou a reeleição? Qual é exatamente essa diferença abismal entre tentar manter no cargo o mesmo governante e tentar eleger um sucessor aliado?
O que é melhor? Um bis de Maluf ou a invenção de um Celso Pitta?
É impressionante que um governo, um Congresso, enfim, as instituições políticas de um país com tudo por fazer estejam mobilizadas para rasurar mais uma vez uma regra que, na perspectiva do tempo histórico, acaba de ser mexida – e que tem muito pouco a ver com o bom funcionamento da casa de máquinas, do país real.
A reeleição pode ser boa, porque a continuidade na administração pública é um artigo raro. Se há imperfeições na forma como tem sido processada, que se busque as correções de rumo. É preciso livrar-se de uma vez por todas dessa síndrome adolescente de que avançar é criar regras novas a cada nascer do sol.
Numa agenda política tacanha, em que só há foco para discussão de crises, CPIs e outras trombadas, a celebração de um pacto entre governo e oposição para acabar com a reeleição compõe o quadro acabado de uma república com alma de rincão.
Para que botar ordem na tribo se podemos ficar aqui eternamente discutindo os mandatos dos caciques?