sábado, abril 21, 2007

Briga de compadres entre o MST e Lula

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil

Nas três campanhas perdidas na fase de aprendizado e na vitória bisada, o candidato Luiz Inácio Lula da Silva sempre inclui no cardápio dos improvisos a enfática afirmação dos seus compromissos com a reforma agrária. Nos entreatos com a entusiástica militância do MST, escorava as desconfianças dos conservadores com o argumento invariável e convincente de que ninguém como ele, " com a experiência vitoriosa da liderança sindical para encaminhar a solução do entendimento". Em aceno de paz de balançar o coração dos companheiros, com o boné do MST enfiado na cabeça, distribuiu abraços e pancadas nas costas.

No quatriênio inicial, sacudido pelas turbulências dos escândalos, que impôs a troca de metade do gabinete palaciano, o MST encurtou a corda das reivindicações, sem deixar cair a peteca. Arrufos, choques, ocupações na marra e a tragédia de Carajás levaram em banho-maria as relações de compadres ressabiados entre o presidente deslumbrado com a própria imagem, o brilho do sucesso na descoberta do mundo e o inegável sucesso da novidade da biografia do torneiro mecânico no palco internacional. A campanha corrige os arrufos. O MST, tal como o PT, não tinha alternativa além do apoio à reeleição do parceiro compulsório.

Agora, aos três meses e 19 dias do segundo mandato, pelo visto as coisas desandaram. Claro que não se trata de rompimento, que não interessa a nenhum dos lados.

Mas o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, para marcar o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária, levou ao pé da letra o Abril Vermelho e tocou fogo no campo. Invasões de fazendas que qualifica de improdutivas em 11 Estados, bloqueio de rodovias, ocupação de 25 das 27 praças de pedágio no Paraná, as duas principais estradas que cortam o Estado do Rio - a Via Dutra e a BR-101- fechadas durante horas conquistaram o ambicionado destaque no noticiário dos jornais e redes de TV. Não importa que o enfoque seja negativo, com tom azedo da crítica. Afinal, tudo é lucro.

Na derrapada a todo risco, a ocupação de uma unidade do Exército, em Três Barras e em Papanduva, no norte de Santa Catarina, e, de contrapeso, a ocupação da sede do Incra resultou num fiasco e por pouco não degenera em confronto. Prevaleceu o bom senso. Os sem-terra bateram em retirada mas ameaçam com nova invasão e resmungam que as terras ocupadas pelo Exército são improdutivas. Campo de treinamento militar não é horta.

Para não faltar a gaiatice que alivia tensões, o governador da Bahia, Jaques Wagner, de boné do MST no alto da cuca, olhos esfogueados pelo deslumbramento dos vivas e aplausos de cerca de 5 mil trabalhadores, prometeu este mundo e o outro, com a generosidade de quem dispõe do dinheiro dos outros.
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Na mesma cadência, a inquieta governadora do Pará, Ana Júlia, petista de carteirinha, com tempo à vontade, passou o dia na visita ao local do massacre de Carajás e distribuiu promessas de atendimento aos pedidos dos sem-terra.

Mas, se o governo é do PT, se o presidente da República é o companheiro Lula, contra quem protesta o MST?

O MST soltou a língua e mandou os constrangimentos às favas. Cobra de Lula a audiência pedida há mais de um ano, em ofício protocolado no Palácio do Planalto. Trechos do documento foram revelados com arranhões nas boas regras da cortesia. Bate firme: "Nos últimos anos pouco ou nada foi feito para uma verdadeira reforma agrária", que não se resume na distribuição de Bolsas Família.

A briga de compadres vai acabar em discurso do Lula, de boné do MST na cabeça e o chorrilho de promessas.

No mais didático exemplo de um problema sério mal conduzido, sem projeto nem controle, no clima de improvisação e bagunça que alterna invasões, violência com o cala-boca de verbas para tranqüilizar os sôfregos.

COMENTANDO A NOTÍCIA: Pode ser que me engane, mas acho que os dirigentes do MST começam a acordar para uma realidade que até pouco tempo lhes parecia impossível: a de que Lula, tirando o discurso, nada tem a lhes oferecer, a não ser mais dinheiro, que, de resto, não é dele. Fica fácil assinar cheques para usar dinheiro alheio. Porém, projeto de reforma agrária, que é bom e é o que interessa para alguns dirigentes dos sem-terra, parece que Lula nada tem para apresentar. Se o tivesse, já o teria feito no primeiro mandato, e pelo que se sabe, e os número aí estão para provar, o governo Lula ficou devendo e muito. Lembram-se da estatística que governo apresentou no início do ano, e aqui comentado, quando não respeitou sequer os assentamentos feitos ainda na ditadura militar ? Pois é, um verdadeiro engodo, uma mentira descarada que servia, na aparência apenas para falsear a falta de política agrária. Os próprios dirigentes dos sem-terra informam que os 150.000 assentados de janeiro de 2003 morando nos acampamentos do MST permanecem iguais nos números, o que representa dizer que, rigorosamente, na questão de reforma agrária, o governo Lula não avançou um milímetro de onde FHC havia parado, este sim, com estatística verdadeira e vitoriosa para apresentar. E sem firulas. E sem vestir camisetas, enrolar-se em bandeiras e trajar bonés.

Villas-Bôas nos remete para um acontecimento que vai de certo acontecer: Lula recebendo os sem terra no Planalto, fazendo discursos, promessas, cantarolando asneiras pelos cotovelos, liberando mais verbas. Porém, será isto agora suficiente para o movimento serenar seus protestos e conter suas invasões ? Pode ser, mas pouco a pouco o vazio de programas e ações públicas no terreno vasto das amplas necessidades do país, vão acabar falando mais altos do que os discursos cretinos. E é com isto que devemos contar. Porque não será possível para Lula levar o país no gogó até 2010. O país quer e pode mais do que se tem conseguido. E, como diriam nossas avós: discurso não enche barriga.