Xico Vargas, NoMínimo
O Rio de Janeiro inaugurou ontem um monumento ao mais grave malefício contido na herança do ex-governador Anthony Garotinho. Atende pelo nome de Centro Integrado de Apuração Criminal – Ciac – e reúne 10 delegados que terão sob guarda todos os inquéritos condenados à poeira pelo projeto Delegacia Legal.
O Ciac é coisa boa. Ruim é o que aconteceu entre a criação das novas delegacias e a inauguração de ontem: mais de 200 mil (de novo: mais de 200 mil) crimes deixarão de ser investigados porque seus inquéritos ficaram sem investigação e prescreveram. Essa é a grande obra que o casal legou ao estado na área de segurança.
Tijolo por tijolo esse desastre começou a ganhar forma na tese segundo a qual uma delegacia legal precisaria nascer sem inquéritos em estoque ou passivo de investigação - zerinho. Assim foi feito, a cada inauguração correspondeu a criação de uma delegacia-podre, depósito de todos os inquéritos em andamento até que o futuro lhes desse destino.
Passavam de 300 mil pastas, na época. Hoje não passam de 100 mil os casos que ainda podem escapar do arquivo. Além do desatino geral que o gesto de jogar isso tudo no lixo representou, os registros da mudança assinalam uma sucessão de barbaridades pontuais.
Na 14ª delegacia (Leblon), por exemplo, meses depois de inaugurada a Delegacia Legal no prédio reformado, pilhas de inquéritos destruídos pela água foram encontradas num banheiro que havia sido lacrado e só foi aberto porque um cano d’água explodiu na parede. Nunca se soube por que não foram levados para outro prédio com os demais, que compunham o acervo da antiga delegacia. Os papéis da 12ª (Copacabana) viajaram na caçamba descoberta de uma picape para serem reunidos aos da 15ª (Gávea). Ninguém arrisca avaliar o que se perdeu pelo caminho.
Há cerca de três anos aqui se escreveu que pelo menos metade dos crimes daqueles inquéritos abandonados iria para baixo do tapete. Otimismo imperdoável. Resta à população, pelo menos, saber a quem debitar uma boa parte da ineficiência que leva a polícia a desvendar apenas 3% dos crimes que registra.
COMENTANDO A NOTÍCIA: Na raiz de todos os males que aflige a segurança pública em todo o território nacional, e não apenas circunscrita ao Rio de Janeiro, está a última frase do artigo do Xico: apenas 3% dos crimes é que são desvendados. O que isto representa ? Representa que toda e qualquer retenção de recursos destinados à segurança pública, e que são retirados para pagamento de dívida pública, se converte em um crime a mais não desvendado. A falta de aparelhamento não apenas no policiamento ostensivo e preventivo de ruas e prédios, mas na inteligência e na investigação, representa bem o espírito público que falta em nossas autoridades. Enquanto nossa cultura for a de que estar na classe política é para regalar-se nas benesses sem nenhuma responsabilidade, quando deveria ser a de se cumprir a missão de servir e atender às necessidades da população para a qual o político se acha investido do cargo que ocupa, não haverá solução que baste. Ou todo o Estado se volta com sua imensa estrutura paquidérmica e perdulária para o benefício da sociedade para o qual foi fundado, ou se declara impotente de vez. O que não se pode, é submeter o país todo a extorsão de impostos e mais impostos, sem que este “pagamento” se converta em serviços públicos decentes e humanos. Precisamos reverter esta cultura o quanto antes, senão não sobrará nada para as futuras gerações, a não ser o caos total.
Não tenho números à mão, mas do jeito que a situação se encontra, não surpreenderia nada sabermos que gastamos muito recursos públicos com salários, fanfarras, vantagens e privilégios dos políticos, do que com investimentos em segurança. Ou em saneamento básico. Ou em Educação. Ou em saúde. Isto é demonstrativo de que a elite política brasileira, há muito tempo, tornou-se gigolô da nação !
O Rio de Janeiro inaugurou ontem um monumento ao mais grave malefício contido na herança do ex-governador Anthony Garotinho. Atende pelo nome de Centro Integrado de Apuração Criminal – Ciac – e reúne 10 delegados que terão sob guarda todos os inquéritos condenados à poeira pelo projeto Delegacia Legal.
O Ciac é coisa boa. Ruim é o que aconteceu entre a criação das novas delegacias e a inauguração de ontem: mais de 200 mil (de novo: mais de 200 mil) crimes deixarão de ser investigados porque seus inquéritos ficaram sem investigação e prescreveram. Essa é a grande obra que o casal legou ao estado na área de segurança.
Tijolo por tijolo esse desastre começou a ganhar forma na tese segundo a qual uma delegacia legal precisaria nascer sem inquéritos em estoque ou passivo de investigação - zerinho. Assim foi feito, a cada inauguração correspondeu a criação de uma delegacia-podre, depósito de todos os inquéritos em andamento até que o futuro lhes desse destino.
Passavam de 300 mil pastas, na época. Hoje não passam de 100 mil os casos que ainda podem escapar do arquivo. Além do desatino geral que o gesto de jogar isso tudo no lixo representou, os registros da mudança assinalam uma sucessão de barbaridades pontuais.
Na 14ª delegacia (Leblon), por exemplo, meses depois de inaugurada a Delegacia Legal no prédio reformado, pilhas de inquéritos destruídos pela água foram encontradas num banheiro que havia sido lacrado e só foi aberto porque um cano d’água explodiu na parede. Nunca se soube por que não foram levados para outro prédio com os demais, que compunham o acervo da antiga delegacia. Os papéis da 12ª (Copacabana) viajaram na caçamba descoberta de uma picape para serem reunidos aos da 15ª (Gávea). Ninguém arrisca avaliar o que se perdeu pelo caminho.
Há cerca de três anos aqui se escreveu que pelo menos metade dos crimes daqueles inquéritos abandonados iria para baixo do tapete. Otimismo imperdoável. Resta à população, pelo menos, saber a quem debitar uma boa parte da ineficiência que leva a polícia a desvendar apenas 3% dos crimes que registra.
COMENTANDO A NOTÍCIA: Na raiz de todos os males que aflige a segurança pública em todo o território nacional, e não apenas circunscrita ao Rio de Janeiro, está a última frase do artigo do Xico: apenas 3% dos crimes é que são desvendados. O que isto representa ? Representa que toda e qualquer retenção de recursos destinados à segurança pública, e que são retirados para pagamento de dívida pública, se converte em um crime a mais não desvendado. A falta de aparelhamento não apenas no policiamento ostensivo e preventivo de ruas e prédios, mas na inteligência e na investigação, representa bem o espírito público que falta em nossas autoridades. Enquanto nossa cultura for a de que estar na classe política é para regalar-se nas benesses sem nenhuma responsabilidade, quando deveria ser a de se cumprir a missão de servir e atender às necessidades da população para a qual o político se acha investido do cargo que ocupa, não haverá solução que baste. Ou todo o Estado se volta com sua imensa estrutura paquidérmica e perdulária para o benefício da sociedade para o qual foi fundado, ou se declara impotente de vez. O que não se pode, é submeter o país todo a extorsão de impostos e mais impostos, sem que este “pagamento” se converta em serviços públicos decentes e humanos. Precisamos reverter esta cultura o quanto antes, senão não sobrará nada para as futuras gerações, a não ser o caos total.
Não tenho números à mão, mas do jeito que a situação se encontra, não surpreenderia nada sabermos que gastamos muito recursos públicos com salários, fanfarras, vantagens e privilégios dos políticos, do que com investimentos em segurança. Ou em saneamento básico. Ou em Educação. Ou em saúde. Isto é demonstrativo de que a elite política brasileira, há muito tempo, tornou-se gigolô da nação !