Sérgio Pardellas e Lorenna Rodrigues , Jornal do Brasil
Relatórios recentes do Centro de Controle de vôo de Brasília (Cindacta-1), obtidos pelo Jornal do Brasil, revelam a situação caótica do setor responsável por controlar o tráfego aéreo do Rio de Janeiro. Faltam operadores no turno de pernoite (das 22 h às 6h), há problemas de comunicação com profissionais que respondem por outras regiões e o sistema de controle apresenta seguidas falhas que, alertam os documentos, podem comprometer a segurança dos vôos em todo o Estado.
Neste ano foram registrados casos em que aviões desapareceram do radar de controle e ocorreu também a chamada "duplicidade de pistas", quando a imagem de uma aeronave aparece duplicada no monitor.
No dia 27 de janeiro, segundo "Relatório de Perigo" redigido por um operador responsável pela região do Rio de Janeiro, uma falha de comunicação "poderia ter culminado em um incidente grave de tráfego aéreo" envolvendo aviões da GOL e da TAF Linhas Aéreas. Havia a informação preliminar de que as duas aeronaves voavam na mesma altitude. Mas, segundo o documento, os controladores não conseguiam identificar a altura exata do avião da GOL.
"Não avistávamos o tráfego do GLO1950. Só passamos a visualizar com o anticolisão. Avistávamos somente algumas pistas primárias", diz o texto.
No mesmo dia, o controlador relata que foi instruído por outro setor a pedir que uma aeronave da TAM mudasse de altitude, de 350 mil para 370 mil pés. Mas o comandante do vôo manteve a altitude, sob a alegação de que seguia orientação de outro controlador. A sorte é que não havia, naquele momento, nenhum aparelho sobrevoando àquela altura.
"O fato aqui descrito é lugar comum. Já foi relatado. É fator contribuinte para incidentes e acidentes."
Em outro "Relatório de Perigo", datado de 8 de fevereiro deste ano, o controlador alerta para a necessidade de mais operadores-radar no turno das 22h as 6h, período em que, segundo ele, o volume de tráfego é igual ou superior aos de outros turnos. De acordo com a descrição, o caso é gravíssimo e exige solução imediata. A situação do setor responsável pelo controle de vôo do Rio de Janeiro, acrescenta, é a mais crítica.
"Tipifico o caso de poucos operadores e a incompatibilidade do tráfego noturno e diurno aos descansos necessários aos controladores como gravíssimo. Sugiro atuações rápidas a este caso. Este relato é mais crítico na região RJ".
No dia 14 de março foi registrado outro caso considerado grave pelos controladores, no setor que cuida dos vôos que partem e desembarcam no Rio. De acordo com relato do supervisor da região RJ, "detectamos em todas as pistas o código asterístico". O símbolo aparece quando os aviões desaparecem do radar de controle. Na linguagem dos controladores, o sistema deixou de avistar o alvo. As falhas nos radares, dizem os especialistas no controle do tráfego aéreo, tornam os vôos menos seguros.
Fatos como esses têm levado o controlador a executar procedimentos alternativos na tentativa de obter maior segurança nos vôos. Por isso, a necessidade de controle do fluxo de aviões em todo o país e os constantes atrasos, justificam.
- Essa situação é uma rotina no trabalho. Nós sabemos que os equipamentos não estão bons e que as frequências não funcionam, enquanto a Aeronáutica continua falando que está tudo perfeito. É um jogo de interesse - disse um controlador de Brasília que trabalha há mais de 20 anos no Cindacta 1, e temendo represálias, preferiu não se identificar.
Os chamados "Relatórios de Perigo" são escritos em papéis timbrados do Sistema de Investigação e Prevenção de Acidentes (Sipaer). Os documentos, segundo o órgão, devem ser baseados em fatos ou experiências pessoais e não precisam ser assinados pelo controlador, a não ser que haja o interesse de saber quais medidas foram tomadas. O objetivo dos relatos é aumentar a segurança de vôo.
Há também os boletins de ocorrências operacionais que servem para relatar situações de menor gravidade. O JB teve acesso a 10 boletins envolvendo o setor responsável pelo Rio de Janeiro. Dois deles com data de 22 de novembro de 2006. No primeiro, o supervisor da região RJ informa que, quando os radares de Três Marias (MG) e Couto (TO) estavam inoperantes, ocorreram perdas e falhas de detecção no radar em seis quadrículas - subdivisões de setores do radar. No outro, o controlador alerta para a ocorrência da multiplicação de aviões da GOL e TAM. As duas aeronaves apareciam duplicadas no sistema, como se estivessem ocorrendo quatro vôos. As duplicações de pista, informou o documento, podem causar transtornos no espaço aéreo devido porque o controlador deixa de saber qual informação do radar é a correta.
Procurada, a Aeronáutica tentou desqualificar os documentos. Disse que, a despeito da linguagem técnica e do timbre oficial, não teria como atestar a veracidade dos relatórios de perigo, uma vez que eles poderiam ser "escritos por qualquer pessoa".
- O que podemos assegurar é que o controle do espaço aéreo é absolutamente seguro - disse a assessoria do Comando da Aeronáutica.
Relatórios recentes do Centro de Controle de vôo de Brasília (Cindacta-1), obtidos pelo Jornal do Brasil, revelam a situação caótica do setor responsável por controlar o tráfego aéreo do Rio de Janeiro. Faltam operadores no turno de pernoite (das 22 h às 6h), há problemas de comunicação com profissionais que respondem por outras regiões e o sistema de controle apresenta seguidas falhas que, alertam os documentos, podem comprometer a segurança dos vôos em todo o Estado.
Neste ano foram registrados casos em que aviões desapareceram do radar de controle e ocorreu também a chamada "duplicidade de pistas", quando a imagem de uma aeronave aparece duplicada no monitor.
No dia 27 de janeiro, segundo "Relatório de Perigo" redigido por um operador responsável pela região do Rio de Janeiro, uma falha de comunicação "poderia ter culminado em um incidente grave de tráfego aéreo" envolvendo aviões da GOL e da TAF Linhas Aéreas. Havia a informação preliminar de que as duas aeronaves voavam na mesma altitude. Mas, segundo o documento, os controladores não conseguiam identificar a altura exata do avião da GOL.
"Não avistávamos o tráfego do GLO1950. Só passamos a visualizar com o anticolisão. Avistávamos somente algumas pistas primárias", diz o texto.
No mesmo dia, o controlador relata que foi instruído por outro setor a pedir que uma aeronave da TAM mudasse de altitude, de 350 mil para 370 mil pés. Mas o comandante do vôo manteve a altitude, sob a alegação de que seguia orientação de outro controlador. A sorte é que não havia, naquele momento, nenhum aparelho sobrevoando àquela altura.
"O fato aqui descrito é lugar comum. Já foi relatado. É fator contribuinte para incidentes e acidentes."
Em outro "Relatório de Perigo", datado de 8 de fevereiro deste ano, o controlador alerta para a necessidade de mais operadores-radar no turno das 22h as 6h, período em que, segundo ele, o volume de tráfego é igual ou superior aos de outros turnos. De acordo com a descrição, o caso é gravíssimo e exige solução imediata. A situação do setor responsável pelo controle de vôo do Rio de Janeiro, acrescenta, é a mais crítica.
"Tipifico o caso de poucos operadores e a incompatibilidade do tráfego noturno e diurno aos descansos necessários aos controladores como gravíssimo. Sugiro atuações rápidas a este caso. Este relato é mais crítico na região RJ".
No dia 14 de março foi registrado outro caso considerado grave pelos controladores, no setor que cuida dos vôos que partem e desembarcam no Rio. De acordo com relato do supervisor da região RJ, "detectamos em todas as pistas o código asterístico". O símbolo aparece quando os aviões desaparecem do radar de controle. Na linguagem dos controladores, o sistema deixou de avistar o alvo. As falhas nos radares, dizem os especialistas no controle do tráfego aéreo, tornam os vôos menos seguros.
Fatos como esses têm levado o controlador a executar procedimentos alternativos na tentativa de obter maior segurança nos vôos. Por isso, a necessidade de controle do fluxo de aviões em todo o país e os constantes atrasos, justificam.
- Essa situação é uma rotina no trabalho. Nós sabemos que os equipamentos não estão bons e que as frequências não funcionam, enquanto a Aeronáutica continua falando que está tudo perfeito. É um jogo de interesse - disse um controlador de Brasília que trabalha há mais de 20 anos no Cindacta 1, e temendo represálias, preferiu não se identificar.
Os chamados "Relatórios de Perigo" são escritos em papéis timbrados do Sistema de Investigação e Prevenção de Acidentes (Sipaer). Os documentos, segundo o órgão, devem ser baseados em fatos ou experiências pessoais e não precisam ser assinados pelo controlador, a não ser que haja o interesse de saber quais medidas foram tomadas. O objetivo dos relatos é aumentar a segurança de vôo.
Há também os boletins de ocorrências operacionais que servem para relatar situações de menor gravidade. O JB teve acesso a 10 boletins envolvendo o setor responsável pelo Rio de Janeiro. Dois deles com data de 22 de novembro de 2006. No primeiro, o supervisor da região RJ informa que, quando os radares de Três Marias (MG) e Couto (TO) estavam inoperantes, ocorreram perdas e falhas de detecção no radar em seis quadrículas - subdivisões de setores do radar. No outro, o controlador alerta para a ocorrência da multiplicação de aviões da GOL e TAM. As duas aeronaves apareciam duplicadas no sistema, como se estivessem ocorrendo quatro vôos. As duplicações de pista, informou o documento, podem causar transtornos no espaço aéreo devido porque o controlador deixa de saber qual informação do radar é a correta.
Procurada, a Aeronáutica tentou desqualificar os documentos. Disse que, a despeito da linguagem técnica e do timbre oficial, não teria como atestar a veracidade dos relatórios de perigo, uma vez que eles poderiam ser "escritos por qualquer pessoa".
- O que podemos assegurar é que o controle do espaço aéreo é absolutamente seguro - disse a assessoria do Comando da Aeronáutica.