sábado, abril 28, 2007

Fim anunciado do conservadorismo

Fernando Nakagawa , Jornal do Brasil

Foi uma manobra lenta, mas a equipe econômica do governo trilha hoje um caminho diferente do transcorrido há um ano. Com a saída de nomes importantes do Banco Central e do Ministério da Fazenda, o conservadorismo tão criticado no primeiro mandato do presidente Lula perdeu força. Na quarta-feira, o Banco Central deu prova simbólica da mudança com a apertada decisão sobre a taxa básica de juros, a Selic. Por quatro votos a três, o Comitê de Política Monetária reduziu a Selic em 0,25 ponto, para 12,50% ao ano.

Ontem, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tentou dar ares de normalidade ao dissenso, que não ocorreu na reunião anterior, da qual participou Afonso Bevilaqua, hoje ex-diretor, que segundo críticos personalizava a ortodoxia do Banco Central.

- Não fiquei surpreso porque é natural que, às vezes, haja pontos de vista divergentes. Não é a primeira vez - disse Mantega.

Até mesmo as tradicionais críticas do ministro à política de juros foram deixadas de lado.

- Fiquei feliz que a taxa caiu 0,25 ponto. O Brasil está indo na direção certa. O crescimento da economia prova isso.

Tamanha tranqüilidade tem explicação. No caso, certeza de queda mais rápida dos juros. Em análise para clientes, a LCA Consultores - que tem entre os sócios Luciano Coutinho, indicado para presidir o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) - aposta que o Copom reduzirá a Selic em 0,50 ponto na reunião de junho.

"Uma leitura literal do comunicado da decisão concluiria que boa parte dos integrantes do Copom considera desejável acelerar imediatamente o ritmo de flexibilização da política monetária", diz a consultoria.

A queda-de-braço entre os desenvolvimentistas e monetaristas está cada vez mais favorável ao primeiro grupo. Tal movimento começou lentamente, como efeito da troca de cadeiras que tirou o conservador Antonio Palocci da Fazenda, abrindo espaço para Mantega, e alçou Dilma Rousseff à condição de chefe da Casa Civil. No Ministério da Fazenda, há quem lembre que Palocci certa vez citou que o Brasil era um transatlântico a ser manobrado lentamente.

- A frase é do ministro anterior. A manobra foi feita por Mantega - diz um economista do ministério.

As mudanças continuaram no ano passado, mas foram aceleradas no início do segundo mandato do governo Lula. Em poucos meses, Carlos Kawall deixou o Tesouro Nacional e Afonso Bevilaqua e Rodrigo Azevedo saíram do Banco Central. Ao mesmo tempo, Coutinho foi convidado para o BNDES, Paulo Nogueira Batista Júnior ganhou a cadeira brasileira no Fundo Monetário Internacional (FMI) e Roberto Mangabeira Unger levou a nova Secretaria de Ações Especiais de Longo Prazo. A troca tirou da equipe nomes considerados desalinhados a Mantega e incluiu pessoas mais próximas ao ministro.

- É inegável. A equipe atual é menos parecida com a que tínhamos no governo FHC e no primeiro mandato de Lula. O grupo que temos agora, pela sua formação e história de cada um, tem o perfil muito próximo ao de Mantega, ao PT histórico - declara Roberto Piscitelli, professor da Universidade de Brasília. - Com o grupo coeso, é muito provável que eles tentem acelerar o ritmo da economia. A divisão do Copom foi uma mostra evidente desse desejo.
O professor também aposta que o grupo vai acelerar o gasto público, com mais investimentos em infra-estrutura.

- Com o novo PIB e a redução da meta de superávit primário para 3,8%, a equipe econômica terá espaço para gastar mais e agir de forma mais arrojada. Na porta do cofre no BNDES, Luciano Coutinho não deve criar resistência.