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O vereador Wilson Leite Passos (Democratas) defendeu seu polêmico projeto de lei, atualmente em trâmite na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. A proposta, que prevê redução de impostos para "pais saudáveis, de filhos também sadios" recebeu críticas da geneticista Mayana Zatz, em sua coluna no G1. Para a cientista da USP, a proposta está calcada em conceitos eugênicos que estiveram em voga na Alemanha nazista. A eugenia, que consiste no "aprimoramento" de uma espécie pelo cruzamento selecionado de indivíduos considerados mais "saudáveis", não tem hoje respaldo dos estudiosos do genoma humano.
O vereador Wilson Leite Passos (Democratas) defendeu seu polêmico projeto de lei, atualmente em trâmite na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. A proposta, que prevê redução de impostos para "pais saudáveis, de filhos também sadios" recebeu críticas da geneticista Mayana Zatz, em sua coluna no G1. Para a cientista da USP, a proposta está calcada em conceitos eugênicos que estiveram em voga na Alemanha nazista. A eugenia, que consiste no "aprimoramento" de uma espécie pelo cruzamento selecionado de indivíduos considerados mais "saudáveis", não tem hoje respaldo dos estudiosos do genoma humano.
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"A proposta deveria, indiscutivelmente, ser invertida", diz Zatz. "São justamente as famílias com algum doente incurável ou portador de deficiência física e mental, que deveriam ter privilégios fiscais e educacionais."
"A proposta deveria, indiscutivelmente, ser invertida", diz Zatz. "São justamente as famílias com algum doente incurável ou portador de deficiência física e mental, que deveriam ter privilégios fiscais e educacionais."
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Segundo Passos, que está há 27 anos na câmara carioca, não faz sentido acusá-lo de legislar contra os deficientes, embora ele admita seu apreço pelo conceito de eugenia. “Eu criei há anos, em 1956, o Serviço Municipal de Eugenia, que funcionou durante muitos anos. Ele fazia o exame pré-nupcial. A orientação médica e psicológica para que os casais tivessem tranqüilidade, numa sociedade de pais e filhos saudáveis. Quem tivesse alguma enfermidade era tratado, o importante era a família. O que interessa é melhorar a qualidade de nossa gente. Quem é contra é de uma ignorância siderúrgica”, diz.
Segundo Passos, que está há 27 anos na câmara carioca, não faz sentido acusá-lo de legislar contra os deficientes, embora ele admita seu apreço pelo conceito de eugenia. “Eu criei há anos, em 1956, o Serviço Municipal de Eugenia, que funcionou durante muitos anos. Ele fazia o exame pré-nupcial. A orientação médica e psicológica para que os casais tivessem tranqüilidade, numa sociedade de pais e filhos saudáveis. Quem tivesse alguma enfermidade era tratado, o importante era a família. O que interessa é melhorar a qualidade de nossa gente. Quem é contra é de uma ignorância siderúrgica”, diz.
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“A minha inspiração foi a de sempre procurar ajudar de alguma forma a termos gerações mais sadias. Interessa ao país. Eu anteriormente já havia feito uma série de projetos nesse sentido, embora considere esse o mais importante.”
“A minha inspiração foi a de sempre procurar ajudar de alguma forma a termos gerações mais sadias. Interessa ao país. Eu anteriormente já havia feito uma série de projetos nesse sentido, embora considere esse o mais importante.”
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Passos diz que já fez diversos projetos para apoiar os deficientes. “Uma das leis que fiz em favor dos deficientes foi a lei 950, em 1986, que está em vigor, e que cria o programa de integração do deficiente físico na empresa”, afirma.
COMENTANDO A NOTICIA: Quando você pensa que já viu todos os absurdos, aparece algum maluco capaz de quebrar as amarras do impossível para demonstrar que o absurdo sempre consegue dar um passo à frente. O projeto deste “cidadão” é de jumentice a toda a prova. Será que este monte de estrume não tem coisa com que se preocupar ? Será possível que não existem outros problemas maiores para serem resolvidos à sua volta ? Por exemplo, será que a violência e a epidemia de dengue, ou a falta de saneamento básico mal maior dos grandes centros e que são focos de doenças, não mereceriam de parte do ilustre vereador, um pouco mais de atenção e dedicação da criatividade que faz de demonstrar ? Imagino bem os eleitores que votaram neste quadrúpede o susto que devem ter levado ao tomarem conhecimento do projeto da lavra deste lídimo representante popular !
Leiam a seguir as críticas da geneticista Mayana Zatz, em sua coluna no G1.
Passos diz que já fez diversos projetos para apoiar os deficientes. “Uma das leis que fiz em favor dos deficientes foi a lei 950, em 1986, que está em vigor, e que cria o programa de integração do deficiente físico na empresa”, afirma.
COMENTANDO A NOTICIA: Quando você pensa que já viu todos os absurdos, aparece algum maluco capaz de quebrar as amarras do impossível para demonstrar que o absurdo sempre consegue dar um passo à frente. O projeto deste “cidadão” é de jumentice a toda a prova. Será que este monte de estrume não tem coisa com que se preocupar ? Será possível que não existem outros problemas maiores para serem resolvidos à sua volta ? Por exemplo, será que a violência e a epidemia de dengue, ou a falta de saneamento básico mal maior dos grandes centros e que são focos de doenças, não mereceriam de parte do ilustre vereador, um pouco mais de atenção e dedicação da criatividade que faz de demonstrar ? Imagino bem os eleitores que votaram neste quadrúpede o susto que devem ter levado ao tomarem conhecimento do projeto da lavra deste lídimo representante popular !
Leiam a seguir as críticas da geneticista Mayana Zatz, em sua coluna no G1.
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Idéia do tempo de Hitler
Na semana passada, recebi um e-mail de uma grande jornalista, Ruth Helena Bellinghini, perguntando-me se eu havia lido o projeto de um vereador do Rio de Janeiro, Wilson Leite Passos. Respondi que não. “Pois você devia ler e escrever a respeito”, sugeriu ela.
Idéia do tempo de Hitler
Na semana passada, recebi um e-mail de uma grande jornalista, Ruth Helena Bellinghini, perguntando-me se eu havia lido o projeto de um vereador do Rio de Janeiro, Wilson Leite Passos. Respondi que não. “Pois você devia ler e escrever a respeito”, sugeriu ela.
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Fui abrir o site e, quando li o título da matéria, fiquei imediatamente chocada: “Vereador apresenta projeto para beneficiar família saudável que tenha filho sadio”. Ruth me conhece o suficiente para saber que a minha reação seria de revolta. A proposta só pode ser uma brincadeira de mau gosto, digna de primeiro de abril. Vou transcrever alguns trechos do “projeto” (projeto?), defendido pelo vereador no último dia 6, com o título: “Estímulos e proteção à boa geração e constituição de famílias sadias”.
Fui abrir o site e, quando li o título da matéria, fiquei imediatamente chocada: “Vereador apresenta projeto para beneficiar família saudável que tenha filho sadio”. Ruth me conhece o suficiente para saber que a minha reação seria de revolta. A proposta só pode ser uma brincadeira de mau gosto, digna de primeiro de abril. Vou transcrever alguns trechos do “projeto” (projeto?), defendido pelo vereador no último dia 6, com o título: “Estímulos e proteção à boa geração e constituição de famílias sadias”.
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“Pais saudáveis, de filhos também sadios, terão privilégios fiscais e educacionais em relação a famílias com algum doente incurável ou portador de deficiência física e mental. A idéia é garantir a boa saúde das futuras gerações. Para isso, o casal que for aprovado no exame pré-nupcial -- e, no caso de seus filhos, no teste pré-natal --, teria gratuidade em todos os níveis de ensino na aquisição de material didático e também na matrícula. Além disso, os filhos de pais saudáveis seriam beneficiados com redução de impostos”.
“Pais saudáveis, de filhos também sadios, terão privilégios fiscais e educacionais em relação a famílias com algum doente incurável ou portador de deficiência física e mental. A idéia é garantir a boa saúde das futuras gerações. Para isso, o casal que for aprovado no exame pré-nupcial -- e, no caso de seus filhos, no teste pré-natal --, teria gratuidade em todos os níveis de ensino na aquisição de material didático e também na matrícula. Além disso, os filhos de pais saudáveis seriam beneficiados com redução de impostos”.
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O que significa, exatamente, para esse vereador, o casal ser “aprovado no exame pré-nupcial”? Ou no teste pré-natal?
O que significa, exatamente, para esse vereador, o casal ser “aprovado no exame pré-nupcial”? Ou no teste pré-natal?
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Excluindo-se o absurdo da proposta, acho que seria importante esse senhor ter algumas noções de genética.
Excluindo-se o absurdo da proposta, acho que seria importante esse senhor ter algumas noções de genética.
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A incidência de doenças genéticas na população mundial é da ordem de 3% (isso corresponde a mais de 5 milhões de brasileiros) e em muitos casos não existem outros afetados por aquela doença na família. Essas doenças surgiram por uma mutação nova (inexistente nos pais), ou por uma combinação específica de genes maternos e paternos naquela criança.
A incidência de doenças genéticas na população mundial é da ordem de 3% (isso corresponde a mais de 5 milhões de brasileiros) e em muitos casos não existem outros afetados por aquela doença na família. Essas doenças surgiram por uma mutação nova (inexistente nos pais), ou por uma combinação específica de genes maternos e paternos naquela criança.
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Dependendo de cada caso, existe um risco maior ou menor de se repetir em futuras crianças daquele casal. Mas quando não existe outro caso na família, o exame pré-nupcial não teria nenhuma utilidade em prevenir o nascimento daquela primeira criança afetada.
Dependendo de cada caso, existe um risco maior ou menor de se repetir em futuras crianças daquele casal. Mas quando não existe outro caso na família, o exame pré-nupcial não teria nenhuma utilidade em prevenir o nascimento daquela primeira criança afetada.
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Aliás, o exame pré-nupcial, que na prática só se preocupa em verificar a presença de doenças sexualmente transmissíveis (como sífilis e Aids) poderia ter um papel importante na prevenção de doenças genéticas. Isto é, casais que já têm algum caso na família ou que têm um risco aumentado de vir a ter filhos com doenças genéticas (por exemplo, no caso de casamentos consangüíneos ou casais com mais de 40 anos) poderiam ser orientados a procurar um serviço de genética.
Aliás, o exame pré-nupcial, que na prática só se preocupa em verificar a presença de doenças sexualmente transmissíveis (como sífilis e Aids) poderia ter um papel importante na prevenção de doenças genéticas. Isto é, casais que já têm algum caso na família ou que têm um risco aumentado de vir a ter filhos com doenças genéticas (por exemplo, no caso de casamentos consangüíneos ou casais com mais de 40 anos) poderiam ser orientados a procurar um serviço de genética.
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Do mesmo modo, o exame pré-natal (que é realizado rotineiramente durante a gestação) só permite visualizar malformações, mas não defeitos genéticos, tais como surdez, cegueira ou retardo mental.
Do mesmo modo, o exame pré-natal (que é realizado rotineiramente durante a gestação) só permite visualizar malformações, mas não defeitos genéticos, tais como surdez, cegueira ou retardo mental.
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Em resumo, portanto, se não houver antecedentes de doenças genéticas na família, a grande maioria dos casais, que têm filhos com algum problema, seriam “aprovados” no exame pré-nupcial ou pré-natal.
Em resumo, portanto, se não houver antecedentes de doenças genéticas na família, a grande maioria dos casais, que têm filhos com algum problema, seriam “aprovados” no exame pré-nupcial ou pré-natal.
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Por isso quando dizemos a pais saudáveis que seu filho tem uma doença genética é tão comum os ouvirmos exclamar: “Mas como!? Não existe nenhum caso na família”.
Por isso quando dizemos a pais saudáveis que seu filho tem uma doença genética é tão comum os ouvirmos exclamar: “Mas como!? Não existe nenhum caso na família”.
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Uma das etapas do Aconselhamento Genético (procedimento realizado nos centros que atendem esses casais) é justamente verificar se existe risco de repetição daquela enfermidade em seus futuros filhos, orientar em relação aos testes genéticos existentes e explicar os resultados de modo que o casal possa planejar sua futura prole.
Uma das etapas do Aconselhamento Genético (procedimento realizado nos centros que atendem esses casais) é justamente verificar se existe risco de repetição daquela enfermidade em seus futuros filhos, orientar em relação aos testes genéticos existentes e explicar os resultados de modo que o casal possa planejar sua futura prole.
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Mas essa é uma decisão exclusiva deles. O geneticista não emite opiniões. Seu papel é certificar-se de que as informações foram bem compreendidas.
Mas essa é uma decisão exclusiva deles. O geneticista não emite opiniões. Seu papel é certificar-se de que as informações foram bem compreendidas.
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Senhor Vereador, a sua proposta deveria, indiscutivelmente, ser invertida.
Senhor Vereador, a sua proposta deveria, indiscutivelmente, ser invertida.
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São justamente as famílias com algum doente incurável ou portador de deficiência física e mental que deveriam ter privilégios fiscais e educacionais. Ainda mais em relação às demais famílias, com “filhos saudáveis”, como o senhor as denomina.
São justamente as famílias com algum doente incurável ou portador de deficiência física e mental que deveriam ter privilégios fiscais e educacionais. Ainda mais em relação às demais famílias, com “filhos saudáveis”, como o senhor as denomina.
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Não por piedade -- elas não precisam e não querem isso -- mas para lhes dar as mesmas oportunidades, um direito que a Constituição lhes assegura e que nós, como sociedade, temos o dever de cumprir.
Não por piedade -- elas não precisam e não querem isso -- mas para lhes dar as mesmas oportunidades, um direito que a Constituição lhes assegura e que nós, como sociedade, temos o dever de cumprir.
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Tenho certeza de que, se essas pessoas tiverem a possibilidade de desenvolver seu potencial de acordo com o talento de cada uma, muitas delas poderão dar uma contribuição social mais relevante do que aquelas ditas “saudáveis”. Mayana Zatz.
Tenho certeza de que, se essas pessoas tiverem a possibilidade de desenvolver seu potencial de acordo com o talento de cada uma, muitas delas poderão dar uma contribuição social mais relevante do que aquelas ditas “saudáveis”. Mayana Zatz.