sábado, abril 28, 2007

PMDB simula unidade para ganhar mais cargos

Karla Correia , Jornal do Brasil

Governadores, ministros, dirigentes estaduais do PMDB, mais deputados federais e senadores do partido reuniram-se ontem, em jantar, na residência oficial do presidente do Senado, Renan Calheiros (AL), numa simulação de unidade destinada a responder à condição imposta ao partido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante a formação da coalizão governista. Lula pediu um PMDB unido, sem diferenças ou rusgas, participando de seu governo. Ao juntar antigos aliados a antigos adversários do governo, os caciques peemedebistas quiseram mostrar que cumpriram sua promessa e dar uma demonstração da força ao governo. E, em silêncio, apresentaram a fatura da empreitada ao presidente Lula.

- Nós chegamos ao governo unidos, como queria o presidente, e, é lógico, estamos prontos para participar da coalizão política, mas também de uma coalizão administrativa - disse o líder do partido na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN).

A "coalizão administrativa" é um eufemismo para a fome do partido por cargos no segundo escalão. O assunto, entretanto, foi vetado do jantar, e os mais de 150 convidados do PMDB chegaram à residência de Renan já avisados. Nada, nem sequer um comentário superficial sobre cargos no segundo ou terceiro escalões do governo, de qualquer um dos convivas, seria admitido no evento cuidadosamente montado pela cúpula do partido com o único propósito de mostrar a Lula que o PMDB finalmente se uniu.

Essa regra de comportamento foi decidida em outro jantar, na semana passada, na casa da senadora Roseana Sarney (AL), líder do governo. Mas está longe de significar que, de fato, o partido esteja unido.

Dois temas são fontes de preocupação para o PMDB nessa segunda etapa da briga por cargos no governo. O primeiro, menor, é a sanha petista pelo segundo escalão. Para o PMDB, o movimento de "despetização" do governo é um sonho distante, sobretudo quando a tarefa de administrar a briga entre aliados está nas mãos de uma comissão de quatro ministros, três deles do PT.

O partido do presidente Lula está de olhos postos em jóias da coroa do PMDB, sobretudo a presidência da Transpetro, hoje ocupada pelo peemedebista Sérgio Machado. Desafeto do presidente Lula e parte vencida do antigo PMDB oposicionista, o ex-governador do Rio Anthony Garotinho foi convidado ao jantar como forma de reforçar a demonstração de coesão da legenda e mostrar resistência à investida do PT fluminense na estatal.

O segundo problema peemedebista, mais grave, é a cizânia entre as bancadas da Câmara e no Senado, na disputa por cargos. Os deputados do PMDB queixam-se de ter pouco espaço no governo em comparação com os senadores. Culpam o presidente do PMDB, deputado Michel Temer (SP) que, ao fazer oposição a Lula durante quase todo o primeiro mandato, deixou para os senadores a interlocução com o Palácio do Planalto. Entre as prioridades da bancada da Câmara estão a presidência de Furnas e da Fundação Nacional da Saúde (Funasa) - que detém metade do orçamento da Saúde.

O fato de o deputado Jáder Barbalho (PA) ter afilhados em mais de 20 cargos de peso no segundo escalão não sossega a bancada da Câmara, que contabiliza Jáder no círculo de poder do Senado. Na tentativa de afinar o discurso antes de conversar com o Palácio do Planalto, líderes do PMDB nas duas Casas reúnem-se hoje para acertar suas demandas e evitar choque de interesses. Terão, em mãos, um relatório do ministro da Coordenação Política, Walfrido Mares Guia, mapeando o poderio das duas bancadas no segundo escalão.