Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação
Lembre aquela brincadeira antiga, em que a sombra dos dedos parece ser um cachorro, ou uma casa, ou uma ave. O poder é assim: as coisas não são o que parecem (e, quando são, como ninguém acredita que sejam, é como se não fossem). Collor batia em Sarney, mas era xingação de campanha - tanto que hoje são colegas de base aliada. Lula chamava Sarney de ladrão, dizia que Maluf tinha de ir para a cadeia, mas eram, disse, bravatas: hoje estão todos juntos.
Não pense que alguém queira prender o senador Demóstenes Torres ou desmontar o império de Carlinhos Cachoeira. O jornalista Fernando Gabeira sintetizou o caso com sua habitual precisão: "Está ficando claro para todos que o PT pretende usar o escândalo Cachoeira para demonstrar que o mensalão foi apenas uma cascata. As denúncias coincidem com o ano eleitoral. É inevitável que cada força política utilize o tema da maneira que lhe parece mais vantajosa". No caso, tentar reduzir a importância do Mensalão, que está para ser julgado no Supremo.
Um indício? Há alguns anos a investigação vem correndo, mas só agora as conversas telefônicas foram vazadas para a imprensa. Por que exatamente nas proximidades do julgamento do Mensalão? E justo Demóstenes?
Demóstenes, mesmo que consiga se livrar de problemas judiciais, é um achado: o mais agressivo denunciante fazia o que acusava os adversários de fazer. Contribui para a ideia geral de que política é isso mesmo e que os mensaleiros são iguais a todos os outros. Não são.
Mas há muitos iguais a eles.
Fumaça nos olhos
Para ter certeza de que o objetivo das denúncias é sempre político-partidário, lembremos que vários ministros caíram, um deles até por gastar dinheiro público numa festa em motel. Derrubados, as acusações cessaram, vão todos bem, obrigado, e alguns reclamam que não foram ouvidos na nomeação dos sucessores.
A maldição das águas
Relembrando: a Casa da Dinda, residência do então presidente Fernando Collor, tinha uma cachoeira que deu a maior confusão e valeu até capa de revista.
A maldição do Rio
O envolvimento da Delta no caso goiano ameaça um dos mais fiéis aliados da presidente Dilma Rousseff: o governador do Rio, Sérgio Cabral, do PMDB. Cabral é amigo do presidente da Delta, Fernando Cavendish, e já enfrentou problemas por causa disso. A Delta é uma das maiores empreiteiras do PAC e cresce rapidamente há alguns anos, ganhando posições no ranking empresarial.
Os nomes da Comissão
A escolha do relator do caso Demóstenes colocou em destaque alguns nomes da Comissão de Ética, que recusaram o encargo: Lobão Filho, Gim Argello, Ciro Nogueira, Renan Calheiros e Romero Jucá.
Um nome para o Supremo
Há vagas em perspectiva no Supremo e a presidente Dilma Rousseff já pensa em nomes. Gostaria de encontrar um jurista que defenda a tese de que a Lei da Anistia alcançou os crimes cometidos até sua promulgação, mas não os posteriores. E considere que ocultação de cadáver (caso dos que morreram durante a luta armada e cujos corpos não foram localizados), sendo crime permanente, continua ocorrendo e não é, portanto, alcançado pela Lei da Anistia.
Levando bola
Em tempos mais normais, a cena seria inimaginável: vetustos senhores de terno e gravata (comprados com o auxílio-paletó que recebem além dos salários) cantando no plenário o hino de um clube de futebol; o presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia, do PT gaúcho, cabeceando uma bola. O senador Eduardo Suplicy, do PT paulista, oferecendo seu livro de Renda Mínima aos jogadores que estavam no Congresso.
Acontece que o Santos FC festejou ontem, sábado, seu centésimo aniversário; e enviou ao Congresso seus dois jogadores mais famosos, Neymar e Ganso, para a homenagem que seria prestada ao clube.
Velhinhos transviados
Pelo menos foi melhor do que a babação explícita que ocorreu quando a atriz holandesa Sylvia Kristel, intérprete do filme soft-porno "Emmanuelle", enfeitiçou os velhinhos do Senado, que quase se ajoelharam diante dela.
Mas Marco Maia, excitadíssimo, mostrou o quanto entende de futebol: disse que Neymar é "o futuro melhor jogador da História". Será que já ouviu falar de um tal Pelé, que aliás jogou exatamente no clube que estava sendo homenageado?
Dura lex
No tempo do Onça (e não, como hoje, do Bafodeonça), quem se dedicava ao Direito dizia que a lei é dura, mas é lei. A coisa mudou: se a lei é dura, que tal um jeitinho? Em São Paulo, foram criadas 2.199 vagas no Tribunal de Justiça. A lei impede a nomeação de parentes. O presidente do TJ, desembargador Ivan Sartori, diz que isso "nós vamos ter de mitigar". Completa: "Se impedirmos que seja nomeado qualquer escrevente, qualquer servidor que tenha parentesco no tribunal inteiro, não vai ser nomeado ninguém".
Deve ter razão: a cidade de São Paulo tem só uns dez milhões de habitantes. Quem não tem parentes no tribunal?
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