domingo, abril 15, 2012

Qual o recado o Brasil tem pronto para a Rio+20?


Adelson Elias Vasconcellos

Sendo o país anfitrião da Conferência Rio +20, seria oportuno a gente saber e conhecer qual o recado que o Brasil tem pronto para apresentar. 

Nem vou entrar no detalhe de alojamentos para abrigar as delegações que nos visitarão. A campanha iniciada pelo prefeito Eduardo Paes é, como afirmei ontem, um atestado de incompetência para que possamos sediar grandes eventos internacionais. Faltando pouco mais de um ano para a Copa das Confederações, e tendo tido ao menos 5 anos para preparar-se, fica evidente o quanto nos falta para merecer reconhecimento internacional quanto a nossa seriedade e responsabilidade. Mas isto ainda é o de menos.

Começo pela preocupação central do governo Dilma no que diz respeito aos preparativos para a Conferência. A dor de cabeça chama-se Código Florestal. Tenciona a presidente apresentar na Conferência um texto final aprovado que consiga agradar à tropa dos ambientalistas, ou ecochatos, Mas há limites para os quais este “agrado” não acontecerá. Da forma como o texto foi aprovado na Câmara, e considerando que os detratores do novo Código, e que praticam um estúpido movimento de oposição, espalhando mentiras e divulgando coisas que no texto não se encontram, esta tropa de choque entende que o Brasil deveria praticamente extinguir suas áreas agrícolas em nome da preservação.

Daí porque o texto da jornalista no post anterior é excelente de se apreciar. Vejam este dado: segundo a ONU, em menos de quatro décadas haverá 9 bilhões de pessoas no planeta, sendo que 6,3 bilhões se concentrarão nas cidades. Como comida não nasce em gôndolas de mercados, em algum lugar ela deverá ser plantada. E há de se considerar também que muito deste alimento, após colhido, precisará ser processado para adequar-se ao consumo humano. Aqueles que podem ser consumidos in natura também exigirão armazenamentos adequados até chegarem ao consumidor final. Ora, aquele contingente de 6,3 bilhões de pessoas morando nos centros urbanos, empurram o processo de produção e industrialização para as zonas rurais. Então, como se resolve a equação se os ecochatos entendem que não se pode desmatar absolutamente mais nada no planeta?

Ou o desmatamento ocorre, mesmo que em condições controladas, ou muita gente vai morrer de fome. Não há como escapar deste dilema. Não basta apelar para a varinha mágica chamada “aumento de produtividade” pensando que, com ela, tudo se resolve. Acontece que aumentos de produtividade não se dão apenas pela vontade. É preciso pesquisa, que por sua vez requer tempo e investimentos altos, e depois tudo precisa ser testado e medido até a obtenção dos resultados positivos desejados. E, ainda assim, aumento de produtividade tem, também, seus limites. Chegará o momento em que aumentar a área plantada será obrigatório. 

No caso brasileiro, o país conseguiu triplicar seu volume de produção sem recorrer em aumento de área. Contudo, há muita área disponível e sem que se precise desmatar um hectare sequer. Esta área, queiram ou não Marina Silva e seus pivetes ecoterroristas, terá, em dado instante, que ser ocupada e a ela dada destinação econômica. Ninguém se alimenta de capim, quando o objetivo que se traça é melhoria na qualidade de vida. É impressionante o analfabetismo desta gente quando, saudosistas, relembram das matas que deram lugar à agropecuária. Esquecem de comparar, por exemplo, a expectativa de vida de ontem com a de hoje. 

Também nem vou me ater em comentar a importância vital para o Brasil do resultado prático, no campo socioeconômico, advindo do campo. Negar esta evidência é absoluta má fé.  

Estas afirmações absolutamente mentirosas de que o Brasil destrói suas florestas não encontram eco na realidade. Não apenas temos preservada a maior parte da nossa cobertura vegetal original, como também, nenhum outro país no mundo tem preservados metade do que o Brasil conquistou. E, ainda assim, conseguimos sustentar a estabilidade econômica do país e que lhe garante avanços sociais que nenhuma outra nação chega perto. 

Temos muito para fazer? Sim, claro. Mas em termos de preservação, o Brasil não apenas tem sido um aluno bem aplicado, como também têm muitas lições para dar. 

O desafio que temos pela frente, e não apenas o Brasil, é imenso. Conseguir produzir alimentos suficientes para sustentar mais de 9 bilhões pessoas, não é uma tarefa das mais fáceis, ainda mais tendo de enfrentar uma ala analfabeta e ignorante e que faz de seu extremismo imbecil uma bandeira que produz muito barulho mas nenhuma solução.

Esta posição absolutamente cretina em relação ao Código Florestal brasileiro é um demonstrativo inequívoco deste analfabetismo, desta dissociação injustificável quanto às necessidades da espécie humana para manter-se dignamente nas próximas décadas. 

Porém, como nem tudo são flores, falta ao Brasil um projeto de reformulação de suas áreas urbanas. Se de um lado, com terrorismo ou não, estamos ao menos com o debate em aberto em relação ao campo, por outro lado, estamos totalmente distantes de se iniciar, a sério, uma discussão sobre as consequências que a rápida, e inevitável, urbanização está produzindo. Esta omissão e negligência,  hoje já se nota, impõem custosos prejuízos que nos afetam de modo implacável. O número de mortes frutos da violência e do trânsito, extermina por ano uma cidade de porte médio. Não é pouca coisa. Além das mortes, o número de mutilados, grande parte jovens, que ficarão à mercê da sociedade que os manterá quase improdutivos por anos a fio, é custo muito alto para um país ainda carente de investimentos indispensáveis em áreas cruciais como educação, saúde, saneamento. Nossa distribuição de renda, apesar dos avanços, encontra-se ainda muito distante da de países mais desenvolvidos. 

Os incentivos que têm sido dados à indústria automobilística impõem um preço que, não apenas o país não tem como arcar, como sequer está preparado para suportar o volume de veículos que são despejados nas cidades e estradas anualmente. 

Assim, enquanto o governo Dilma se volta para a discussão do Código Florestal visando a Rio +20, observa-se que os demais países estão mais focados nas questões da urbanização, ou como lembra a jornalista, “...uma das maiores preocupações dos cientistas é encontrar uma “fórmula” de desenvolvimento socioeconômico-ambiental, a tempo de viabilizar centros urbanos sustentáveis. Sem caos e sem miséria.”.

Neste ínterim, pergunto: o que o país tem feito no campo do saneamento, acesso à água e energias limpas, destinação e tratamento do lixo urbano, afora a qualificação de serviços públicos como educação, saúde, segurança e transporte coletivo? Há um projeto mínimo de longo prazo, e que digam respeito às metrópoles com população superior a 500 mil habitantes? 

Portanto, retomo a questão que vai lá em cima: Qual o recado o Brasil tem pronto para a Rio+20? A considerar a movimentação das nossas autoridades, estamos preparando um discurso muito longe daquilo que realmente importa, e que será o tema a ser discutido como ponto central pelas demais nações.