Villas-Bôas Corrêa, Coisas da Política, Jornal do Brasil
O Congresso atravessa ou patina em fase de tão azarado desprestígio e desmoralização que, até quando escolhe o caminho certo erra feio e gravemente na inoportunidade obtusa da avaliação política da iniciativa. Neste exato momento, a Câmara escorregou na casca de um equívoco grosseiro, absolutamente inaceitável numa Casa que vive e respira política.
Aos fatos: depois de três anos de hesitações e adiamentos, os diretores administrativos, de excelente gabarito, decidiram realizar dois concursos, em março e abril próximo, para o preenchimento de 136 vagas de nível superior e 107 de nível médio. Se os níveis dançam no forró burocrático, os vencimentos nas duas faixas pairam nas alturas dos astros em comparação com a esmola dos miseráveis barnabés. Exemplos e seus números: para as 136 jóias da coroa de analista legislativo, o vencimento para o início da escalada é de R$ 9.008,00. Um degrau abaixo, os 107 felizardos classificados em concurso, a prenda R$ 3.252,22 mensais na estréia nos quadros milionários da Câmara das mordomias, vantagens e a penca de mutretas faturadas pelos donos dos votos. Pode não ser muito, mas quem salta os obstáculos de concursos puxados está com a vida ganha e o futuro garantido, inclusive no fim da linha da aposentadoria.
Nada a criticar. Os concursos do Legislativo são de rigor e seriedade inquestionáveis e os premiados com um dos mais altos salários da fuzarca da administração não têm culpa se o governo é vesgo e injusto. Não é aí que a geringonça encrenca. A justificativa única para a seleção de 243 servidores para a Câmara - como para qualquer empresa que se preza - é a evidente e comprovada urgência de tapar rombos que realmente reclamem substitutos.
Ora, o Poder Legislativo destaca-se como um ninho de desperdício. E não é preciso avaliações sofisticadas e análises de especialistas para constatar a evidência que entra pelos olhos ao simples exame dos números, ratificado pelos depoimentos dos que freqüentam os corredores, salas e gabinetes da Câmara e do Senado, seja nos dois a três dias da semana útil ou na madraçaria consagrada dos quatro dias de feriado legislativo - da tarde de quinta-feira à terça-feira da outra semana - da deslavada peta da visita às bases, com passagens aéreas pagas pela viúva.
Para tão leve carga da rotina, os 3,6 mil servidores efetivos dão e sobram. E não é só, pois a Casa é criativa e marota. Somem-se os 1,1 mil cargos de natureza especial, quer dizer, dos que entraram pulando a janela, sem concurso. E mais dez mil assessores ou secretários parlamentares, contratados sem concurso, para ornamentar os gabinetes privativos dos 513 deputados.
Não é, portanto, apenas uma questão de bom senso. Mas de sensibilidade moral. Nem a Câmara ou o Senado podem afrontar a opinião pública com mais uma orgia de gastança.
Antes dos vasos de flores na sala, a faxina deve começar pela varredura do lixo empilhado em volta da casa. Uma distribuição criteriosa dos 1,1 mil servidores espalhados pelos escaninhos do esquecimento e dos dez mil secretários contratos sem concurso para ocupar os vazios dos gabinetes privativos dos 513 deputados resolveria os alegados problemas da falta de gente.
Se a Câmara não quer ou não pode enfrentar o desafio do inchaço da ociosidade dos cabos eleitorais que não aparecem nem para receber os vencimentos depositados na conta bancária, deve impor decorosa disciplina no festival de mordomias e distorções éticas. Pois, como confessa o novo presidente da Câmara, deputado Arlindo Chinaglia, ao ser perguntado sobre os rumores de cancelamento do concurso, "primeiro é preciso analisar a questão". Completou: "De forma genérica, me parece que a Casa já tem muita gente". Parece, presidente?
O Congresso atravessa ou patina em fase de tão azarado desprestígio e desmoralização que, até quando escolhe o caminho certo erra feio e gravemente na inoportunidade obtusa da avaliação política da iniciativa. Neste exato momento, a Câmara escorregou na casca de um equívoco grosseiro, absolutamente inaceitável numa Casa que vive e respira política.
Aos fatos: depois de três anos de hesitações e adiamentos, os diretores administrativos, de excelente gabarito, decidiram realizar dois concursos, em março e abril próximo, para o preenchimento de 136 vagas de nível superior e 107 de nível médio. Se os níveis dançam no forró burocrático, os vencimentos nas duas faixas pairam nas alturas dos astros em comparação com a esmola dos miseráveis barnabés. Exemplos e seus números: para as 136 jóias da coroa de analista legislativo, o vencimento para o início da escalada é de R$ 9.008,00. Um degrau abaixo, os 107 felizardos classificados em concurso, a prenda R$ 3.252,22 mensais na estréia nos quadros milionários da Câmara das mordomias, vantagens e a penca de mutretas faturadas pelos donos dos votos. Pode não ser muito, mas quem salta os obstáculos de concursos puxados está com a vida ganha e o futuro garantido, inclusive no fim da linha da aposentadoria.
Nada a criticar. Os concursos do Legislativo são de rigor e seriedade inquestionáveis e os premiados com um dos mais altos salários da fuzarca da administração não têm culpa se o governo é vesgo e injusto. Não é aí que a geringonça encrenca. A justificativa única para a seleção de 243 servidores para a Câmara - como para qualquer empresa que se preza - é a evidente e comprovada urgência de tapar rombos que realmente reclamem substitutos.
Ora, o Poder Legislativo destaca-se como um ninho de desperdício. E não é preciso avaliações sofisticadas e análises de especialistas para constatar a evidência que entra pelos olhos ao simples exame dos números, ratificado pelos depoimentos dos que freqüentam os corredores, salas e gabinetes da Câmara e do Senado, seja nos dois a três dias da semana útil ou na madraçaria consagrada dos quatro dias de feriado legislativo - da tarde de quinta-feira à terça-feira da outra semana - da deslavada peta da visita às bases, com passagens aéreas pagas pela viúva.
Para tão leve carga da rotina, os 3,6 mil servidores efetivos dão e sobram. E não é só, pois a Casa é criativa e marota. Somem-se os 1,1 mil cargos de natureza especial, quer dizer, dos que entraram pulando a janela, sem concurso. E mais dez mil assessores ou secretários parlamentares, contratados sem concurso, para ornamentar os gabinetes privativos dos 513 deputados.
Não é, portanto, apenas uma questão de bom senso. Mas de sensibilidade moral. Nem a Câmara ou o Senado podem afrontar a opinião pública com mais uma orgia de gastança.
Antes dos vasos de flores na sala, a faxina deve começar pela varredura do lixo empilhado em volta da casa. Uma distribuição criteriosa dos 1,1 mil servidores espalhados pelos escaninhos do esquecimento e dos dez mil secretários contratos sem concurso para ocupar os vazios dos gabinetes privativos dos 513 deputados resolveria os alegados problemas da falta de gente.
Se a Câmara não quer ou não pode enfrentar o desafio do inchaço da ociosidade dos cabos eleitorais que não aparecem nem para receber os vencimentos depositados na conta bancária, deve impor decorosa disciplina no festival de mordomias e distorções éticas. Pois, como confessa o novo presidente da Câmara, deputado Arlindo Chinaglia, ao ser perguntado sobre os rumores de cancelamento do concurso, "primeiro é preciso analisar a questão". Completou: "De forma genérica, me parece que a Casa já tem muita gente". Parece, presidente?