José Paulo Kupfer, NoMínimo
Juro que tenho tentado encontrar alguma coisa interessante para falar de economia no carnaval. Afinal, tenho um compromisso de renovar as notas todos os santos dias, que incluem os da esbórnia. Mas meu sentimento de culpa e o temor da reprovação de meus sisudos e rigorosos editores não resistem aos fatos. Falar de economia no carnaval é o que há de sem graça.
Tem até coisa curiosa. Por exemplo: no país do carnaval, carnaval não é feriado nacional. A não ser que algum município decrete o feriado (e nenhum tomou a providência, preferindo escolher outras datas), o outrora chamado tríduo momesco, que, aliás, dura pelo menos quatro dias, é, rigorosamente falando, tempo de batente. Isso quer dizer que quem trabalha nos dias de folia nem à remuneração extra tem direito.
Pensando bem, eis aí uma coisa bem brasileira. Nada funciona melhor, nada mais distante de dúvidas e “incertezas jurisdicionais” do que a folga nos dias de carnaval. Nem banco, nem bolsa de valores, repartição pública, empresas e escritórios, quase nada no mundo formal dá expediente. Sem regra nem regulamento. Conclusão: um dos marcos regulatórios que mais funcionam, no Brasil, se caracteriza pela ausência de marco regulatório.
Vou parando. Isto aqui está começando a ficar sério
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A palavra é...
GANDAIA
“Gandaia” – vadiagem, esbórnia, orgia, pândega, bandalha, folia – é palavra antiga e misteriosa. O Houaiss registra duas teses principais sobre sua origem:
Bluteau (1713) registra assim: “Gandaya, Gandáya (como quando se diz) Andar à gandáya. He andar buscando no lixo, & nas enxurradas, ferrinhos, & outras cousas, que a agoa leva.
E ainda:
Corominas, s.v. gandaya 'especie de redecilla para el cabello', 'tuna, vida holgazana', dá como do cat. gandalla, de igual sentido, “probablemente porque los bandoleros catalanes de los SS. XVI y XVII llevaban el cabello recogido com gandalla“, acrescentando que o étimo é incerto...
(Legendas: D. Raphael Bluteau é autor do clássico “Vocabulario Portuguez e Latino”, publicado de 1712 a 1720; Joan Corominas é um importante filólogo catalão do século XX; redecilla é “redezinha”; tuna, vida holgazana, “vadiagem, vida folgada”.)
Silveira Bueno dá crédito a Corominas. Antônio Geraldo da Cunha se cala. O Houaiss acrescenta que Nei Lopes, paladino da ascendência africana de palavras duvidosas, sugere origem banta. E Antenor Nascentes, depois de registrar teses variadas – inclusive a que deriva a palavra do árabe gandur, “peralta” – aumenta o volume do delírio:
Candaya será, quem sabe?, uma aproximação arbitrária da Catai misteriosa e desejada, e coloca-se na Conchinchina.
Ou seja, confusão total. Ainda bem que esse papo não tem a menor importância para quem cai na gandaia.
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Anistia protesta contra fome em reserva
Cláudio Humberto
A Anistia Internacional protestou contra a fome que atinge os onze mil índios Guarani Kaiowa na reserva de Dourados. O governo de Mato Grosso do Sul, diz a organização de direitos humanos, suspendeu as cesta básicas há dois meses para auditoria nas contas do governo anterior. Duas crianças já morreram. A Anistia lembra a lei internacional obrigando assistência humanitária urgente contra a fome.
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Cartilha da CNBB
Tales Faria , Informe JB
A Comissão de Justiça e Paz da CNBB deve lançar, em maio, no dia do trabalhador, uma cartilha sobre a Previdência Social. Objetivo da Confederação dos Bispos: ajudar a inserção de trabalhadores autônomos - tipo engraxates, costureiras e artesãos - na Previdência, e, ao mesmo tempo, pressionar contra a reforma previdenciária defendida pelo empresariado.
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Desfile expõe relações promíscuas no Rio
O tratamento solene de alguns dos principais veículos de comunicação do País aos bicheiros que controlam as escolas de samba do Rio de Janeiro, mencionados - com reverência - como "presidentes", revela um sintoma grave: a relação promíscua entre a sociedade carioca e os criminosos. O mesmo tipo de relacionamento que impede o Rio de Janeiro de chamar pelo nome correto o mais grave problema que aflige o Estado: o crescente domínio da criminalidade. Talvez por temor de ofender o vizinho, o amigo do filho, o tia da amiga. Mesmo após o cruel assassinato do garotinho João Hélio, em vez de denunciar os assassinos e exigir o combate ao crime e ao tráfico de drogas, os cariocas fazem passeatas babacas, convenientemente genéricas, "pela paz" e pelo fim "da violência". Meter o dedo na cara do crime, que é bom, nada.
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Sul-coreana Hyundai construirá fábrica no Brasil
Fonte: Reuters
A Hyundai Motor, maior montadora da Coréia do Sul, anunciou nesta segunda-feira que está construindo uma fábrica avaliada em US$ 250 milhões no Brasil, que será a primeira unidade da empresa na América Latina.
A CAOA Montadora, que distribui os carros da Hyundai no país, assumirá todo o custo de construção da fábrica na cidade de Anápolis, enquanto a Hyundai vai oferecer sua marca e toda a tecnologia, disse um porta-voz da montadora sul-coreana por telefone.
A unidade, que terá capacidade de produzir 50 mil carros por ano até 2009, começará a produzir pequenos caminhões e utilitários esportivos ainda no primeiro semestre de 2007.
A parceria é um dos últimos esforços da Hyundai para expandir-se na produção fora da Coréia do Sul, na tentativa de evitar os altos custos trabalhistas sul-coreanos e a valorização do won, que prejudica os lucros obtidos pela empresa no exterior.