terça-feira, abril 10, 2007

O risco país e a mentira envergonhada...

Adelson Elias Vasconcellos

Claro que nos fundamentos econômicos do Brasil, temos mantido juízo e bom senso, até porque não foi este governo que os estabeleceu, a começar pelo equilíbrio fiscal do país, e aqui se inclui estados e municípios, e que hoje faz o chororô dos governadores e prefeitos contra a lei de responsabilidade fiscal e o arrocho que ela impõem. Na raiz deste equilíbrio sustentado pela LRF, é que está estruturada toda a nossa atual estabilidade e conjuntura econômicas.

Claro que quanto mais baixo o risco-país, melhor. Isto é muito bom para as empresas que podem captar recursos externos para investimentos a custos menores. Só que na manutenção da taxa interna de juros brasileira, no nível em que se encontra, é que encontram as razões para cotação da moeda americana depreciar-se tanto em relação ao real. E isto tem sido danoso para o país. De um lado, por abrir as porteiras, sem controle algum de parte do governo, para importações com preços desleais e que acabam prejudicando nosso mercado interno, já que nossas empresas de pequeno e médio porte, não tem capacidade de competir, sobrecarregadas por juros estratosféricos e carga tributária predadora. Ao contrário do que acontece com os competidores da China, principalmente. Isto provoca redução de atividade, desemprego e perda de renda. Aliás, esta última continua em queda livre. E o desemprego historicamente tem-se situado em torno de 10% o que também é ruim, porque mais gente acaba pesando nos programas sociais do governo, consumindo mais recursos tirados de outros setores vitais para o nosso crescimento como educação, saúde, saneamento e infra-estrutura.

De outro lado, esta taxa aviltante, fruto do descontrole das contas públicas, já que o governo gasta mais do que arrecada e precisa assim captar recursos no mercado em grandes volumes, estando hoje como tomador de cerca de 90% do crédito disponível. Isto sacrificara o restante do país, pessoas físicas e jurídicas que buscarão crédito escasso, em conseqüência, caro. Com taxa de juros alta e carga tributária insuportável, pequenos e médios empresários acabam sufocados pela concorrência dos importados.

E mais: com o atual nível de juros internos, os investidores acabam vendendo papéis da dívida externa e comprando os da dívida interna. Imaginem vocês, portanto, a conseqüência disto tudo?

E no que isto tem a haver com o dia-a-dia do brasileiro filho de deus, e o mais comum dos mortais ? Simples: Como o governo para continuar atraindo capital motel precisa garantir o pagamento da dívida, além dos juros, ele tem mantido o superávit primário em níveis altos como sendo este um indicador de que honraremos contratos, custe o que custar. Ora, quanto maior a dívida interna, maior a economia a que o governo terá que se impor para garantir o pagamento dos juros da dívida. Em conseqüência, do total que arrecada, cada vez mais o volume destinados a investimentos em educação, saúde, segurança, saneamento público, moradia, infra-estrutura (estradas, portos, aeroportos, comunicações e energia), fica menor. E sem estes investimentos indispensáveis, o preço acaba estagnando-se economicamente, e mais gente sem renda e sem emprego tende a bater nos balcões do governo para pedir bolsa-esmola.

Queira o governo ou não, isto acaba se tornando um círculo vicioso tão ruim, que acaba degenerando neste clientelismo, com a conseqüência de afastar das pessoas o desejo de procurar trabalho.

Por tudo isto é que não se pode acreditar no PAC salvador do governo Lula, pela simples razão de que o pacote não contempla as reformas de que precisamos, e mantém os fundamentos que fazem o tormento de um país emergente não crescer tanto na forma quanto na velocidade que precisa e o tanto que os demais emergentes crescem.

Resta-nos perguntar então o seguinte: diante do diagnóstico que se tem dos males que nos afligem, terá o médico de plantão a competência necessária para ministrar o remédio certo na dose certa para curar o doente? Até aqui o que se viu é que, precisando de um cirurgião, estamos diante de mero clínico geral. Como se vê, não se pode alimentar grandes esperanças. Apenas para lembrar: quando Lula assumiu o dólar estava na casa de R$ 4,00, e com a economia em curva ascendente. A economia mundial começava a viver o seu melhor momento. Quatro anos passaram-se, o dólar está a metade do que valia, já deixamos de exportar inúmeros itens de nossa pauta tradicional de exportações, e o que mantém o nosso comércio externo é a exportação de commodities por conta da volúpia da economia chinesa. E as importações estão crescendo em uma espantosa velocidade. O desemprego tende a crescer e a renda a cair. Estão esperando o quê para agirem ?

É bom então que se diga que este governo está aplaudindo uma política que tanto Lula quanto o petê, ainda na oposição, se posicionaram literalmente contra, e tentaram de todas as formas via Congresso Nacional obstaculizar e abortar. Lembrando sempre que FHC recebeu um país com hiperinflação, estado falido e país sem crédito graças à moratória irresponsável decretada por Sarney. Um governo desacreditado pelos sucessivos “programas” desastrados. E com uma estrutura de governo totalmente fora de eixo. ?De um lado, pelo governo de Collor que desmontou tudo o que encontrou pela frente. De outro lado, pela irresponsabilidade de governantes, federais e estaduais, em relação à finanças públicas. A recuperação deste caótico não poderia ocorrer, como de fato não ocorreu, por um passe de mágica. Seria fruto, isto sim, de um programa equilibrado, racional e coerente de política econômica e responsabilidade fiscal de parte de governos sucessivos. Em dado momento, o resultado seria este que se vê agora, mesmo que o petê jamais tivesse existido. Até porque existe, este resultado até que demorou por conta de seu apedrejamento nos momentos que se negou a colaborar, e agindo na contramão para prejudicar e retardar o mais que pudesse que o país encontrasse o seu caminho.

Ter uma classificação de risco abaixo digamos de 100 pontos é, sem dúvida, um grande feito para quem esteve a 2.400 na véspera do PT assumir o governo. Porém, vale lembrar, que nada desta imensa redução se deve a uma política de governo do PT. O que lhe competia fazer era apenas e tão somente a manutenção dos fundamentos básicos implantados por Malan e sua equipe. Não fosse assim, e Henrique Meireles há muito tempo teria sido mandado para casa, coisa que ainda hoje a maioria dos petistas reclama. Mas por que Meirelles é mantido ? Por causa de seus olhos e por ser amigo do peito de Lula? De forma alguma. Bem sabemos que Lula está atendendo apenas uma exigência dos credores internacionais, com FMI à frente. Ah, mas certamente pagamento antecipado da dívida ao FMI não nos deu independência ? De modo algum. E só demonstrou o quanto o PT seria um perigo se implantasse sua “política econômica”. Por quê ? Porque trocamos uma dívida que nos custava em torno de 6 a 8% ao ano, por outra ao custo insignificante de mais de 20%!!! Convenhamos, deste tipo de independência é o de que menos precisamos. Só um gênio cretino é capaz de ainda soltar rojões para esta desastrada aventura de “independência” proclamada pelo Lula.

E já que falamos de Meirelles disse o presidente do BC sobre a valorização contínua do real frente ao dólar: "Não é papel do Banco Central comentar o câmbio, porque ele é flutuante, mas existem preocupações nessa área (...). Nós nos preocupamos com todos os aspectos que possam afetar a competitividade futura do país, mas não nos pronunciamos sobre o câmbio”. Ora isto nada mais do que o sinal de alerta que estamos disparando neste espaço desde o ano passado. Há um limite para esta valorização do real em relação ao dólar. Quando se foge deste limite, o país passa a ter problemas, internos e esternos. Externos é a perda da competitividade nos preços dos produtos brasileiros no mercado internacional. Com o real valorizado, eles passam a valer, e acabando perdendo mercado. Isto afeta,logicamente, o resultado da balança comercial. E internos, porque começa a desequilibrar o mercado local com a enxurrada de importados que acabam substituindo no gosto do consumidor os produtos fabricados aqui. Em conseqüência começa a haver a desindustrialização com fechamento de fábricas e perda de renda e empregos. E não pensem que este limite é o dólar a dois reais: há pelo menos 10 meses o Banco Central vem atuando pesado no mercado, comprando grandes volume de dólar para ver se sustenta o preço deste em relação ao real. E não fosse por esta atuação diária e volumosa, este limite de R$ 2,00 já teria ocorrido desde o final do ano passado. Portanto, Meirelles sabe bem porque é importante esta atuação. Poderia, por outro lado, rever sua política de juros: são eles que mais colaboram para a valorização do real.

Vamos ver até onde os “gênios” e “heróis” ministros de Lula levarão esta leviandade. Claro que a propaganda oficial vai ter muito para dizer e contar. Pena que será uma propaganda enganosa. Mais uma vez. É de se esperar que ao menos agora, menos pessoas continuem acreditando no milagre invertido. Afinal, até a mentira um dia pode ficar envergonhada de si mesma...