quarta-feira, maio 30, 2007

A ameaça da falta de provas

Fernando Exman e Sérgio Pardellas, Jornal do Brasil

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), disse ontem não ter como provar que pagou com recursos próprios pelo menos parte das despesas que teve com a jornalista Mônica Veloso, com quem tem uma filha de três anos. Uma das principais lacunas do discurso proferido por Renan, na segunda-feira, foi justamente a falta de explicações sobre a origem do dinheiro que o senador disse ter repassado à jornalista antes de reconhecer a paternidade da criança, em dezembro de 2005.

Segundo Renan, parte das transferências não foi registrada porque a relação que mantinha com Mônica era extraconjugal. As declarações do senador foram dadas depois de almoço no Itamaraty oferecido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao secretário-geral do Partido Comunista do Vietnã, Nong Duc Manh. A não comprovação da origem dos recursos pode complicar a situação política de Renan. Hoje, o Conselho de Ética do Senado analisa representação apresentada pelo PSOL, que pede a abertura de processo por quebra de decoro parlamentar.

Perguntado sobre a iniciativa, Renan disse que nada o preocupava.

- Até porque a verdade está do meu lado - declarou.

Os aliados de Renan dizem que o presidente do Senado está blindado politicamente. O clima, no entanto, é de apreensão pelo que pode surgir no noticiário nos próximos dias. Entre os parlamentares, cristaliza-se a sensação de que ainda falta ao quarto homem na linha sucessória da República uma defesa mais consistente. O corregedor da Casa, Romeu Tuma (DEM-SP), disse que, se Renan não comprovar a origem dos recursos repassados à jornalista, cairão por terra os argumentos apresentados na segunda-feira.

- Se não comprovar, não fica bom para ele - disse Tuma.

Na mesma linha do corregedor, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) falou sobre a necessidade de uma "complementação de esclarecimentos".

- Não tenho motivos para duvidar do Renan, mas a Casa espera que ele complemente as informações sobre pontos que não ficaram esclarecidos em seu discurso.

Pela manhã, o senador Jefferson Péres (PDT-AM) defendeu o afastamento de Renan da presidência do Senado até o fim das investigações, "para evitar constrangimento para a Casa". À tarde, Péres - depois de tomar conhecimento das declarações de Renan - foi ainda mais contundente. Disse que, se o peemedebista não provar que pagou com recursos próprios a assistência à mãe de sua filha, sua situação pode se tornar insustentável.

- Se ele não provar, vai ficar difícil.

Sentindo o ambiente carregado, no final da tarde Renan reuniu os principais líderes do Senado em seu gabinete para dizer que seus advogados virão a público esta semana a fim de sanar as dúvidas pendentes. O senador tentou demonstrar tranqüilidade. Amparou-se no argumento de que está sendo acusado "injustamente" e "sem provas". E invocou a necessidade de preservar a instituição.

No início da noite, sentado na cadeira de presidente do Senado, Renan recebeu do líder do PSDB na Casa, senador Arthur Virgílio (AM), votos de confiança. Para o tucano, o ônus da prova, agora, cabe ao acusador.

- Que o lado acusatório apresente as provas - disse Virgílio. - Para o PSDB, o que foi mostrado até agora é muito pouco para pedir o afastamento de Renan. Se não provarem nada contra ele, não vou brincar de desestabilizar um poder constitucionalmente constituído.