quarta-feira, maio 30, 2007

TRAPOS & FARRAPOS ...

A OBRIGAÇÃO DO POLÍTICO É PRESTAR CONTAS
Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Sempre defendi e continuarei intransigente neste ponto, que onde houver dinheiro público, que se preste contas. A gente sabe que nem todos os “çereshumanos” são honestos, probos, eficientes. Há os que furtam pouco, outros furtam muito. Aqueles que são eventuais, praticam o deslize movido por circunstâncias. Há aqueles que são useiros na prática delituosa, sentem verdadeira paixão que acaba degenerando para um vício incontrolável.

Dito isto, precisamos sempre exigir de quem quer que seja que se utilize de recursos públicos, que são aqueles que provém da sociedade quando paga impostos, que dê conta do destino que dá ao din-din. Como também, todo aquele que esteja investido de cargos cujos salários são pagos pela sociedade, também devem prestar contas de seus atos. A vida privada de cada um acaba no momento que cada um passa a transitar no público aquilo que pertence ao seu foro íntimo.

O senador Renan Calheiros cometeu um deslize enquanto cidadão. Se de seu salário ele apenas descontasse um valor qualquer para pagar pensão de alimentos, o assunto não deveria interessar a quem quer que fosse. Porém, no instante em que esta “obrigação” passa a ser paga não apenas por ele, mas também por um fornecedor e prestador de serviços para o governo, com o qual o senador não mantém nenhum vínculo empregatício, bom, neste caso estamos diante de um “deslize” que interessa sim ser investigado. Não se está pedindo para Renan cidadão retratar-se por ter ou manter uma relação extra conjugal da qual gerou-se um filho ou uma filha. Isso é lá problema dele e sua família. O que o senador deve explicar é a relação pouco recomendável de ter uma de suas obrigações financeiras, da natureza do cidadão, pagas por uma empreiteira que presta serviços ao governo e mantém com ele contratos de trabalho. É disto que se trata. O cidadão Renan pode ter quantos casos quiser na sua vida amorosa. Pode produzir pencas de filhos fruto destes casos. Ninguém deve intrometer-se nisto. Aí se estaria diante de uma invasão de privacidade.

Porém, o que não se admite e isto o senador não esclareceu em momento algum em seu breve discurso, é o uso do cargo para a percepção de favores em caráter pessoal. Neste ponto, estamos diante de algo que vai além do simples tráfico de influência. A lembrar, Renan é o quarto na linha sucessória da presidência da república. É presidente do senado, e por conseguinte, do Congresso Nacional. Não é pouca coisa. Para alguém investido de tal condição, não se pode admitir que mantenha este tipo de relação financeira. Aliás, para nenhum servidor público, é bom que se ressalte.

Portanto, antes de se acusar a revista VEJA, como muitos saíram atirando, é bom notar que a revista cumpriu sua função jornalística. Reuniu informações que sustentaram uma reportagem sobre as ações pouco recomendadas de um homem público e as noticiou. Se isto vai render processo ou cassação de mandato, já não importa saber. Até porque, a considerar o corporativismo existente no Congresso Nacional, talvez sequer renda uma advertência.

Porém, nem toda a retórica do senador descendo ao grau do emocionalismo rasteiro, além da exposição inescrupulosa de sua própria família, foram suficientes para o senador, por exemplo, acusar a revista de calúnia, ou uma ameaça, mesmo que velada, de um processo de reparação moral.

E o doloroso é que diante do calor das palavras, a própria Mônica Velloso veio a público dizer, tanto ela quanto seu advogado, que os pagamentos informados pela VEJA se deram exatamente daquela forma. Ou seja, a tomar-se o discurso de Renan, ou ele omitiu informações e explicações, ou mentiu. Aposto na primeira hipótese, dado que o senador não tão estúpido a ponto de aplicar uma mentira de adolescente que mais tarde poderia ser descoberta pelos fatos. Seria uma ação, a da mentira, a levá-lo ao cadafalso.

Portanto, não se está querendo condenar Renan por filhos que gerou fora do casamento. É assunto dele exclusivamente, já o afirmamos. Porém, se as responsabilidades decorrentes deste fato se estenderem ao senador, ao cargo que ocupa, e às relações que o cargo lhe permite ter, bem aí estamos diante do deslize, para dizer o mínimo. É na documentação que o senador apresentou, que o Corregedor deve ater-se, se ela tem sustentação e se afasta de vez as acusações feitas a Renan.

Mas o assunto não se encerrou no discurso de autocomiseração de Renan Calheiros: ele expõem a que ponto de degradação se chegou na relação que o Estado mantém com alguma espécie de elite que se serve de contratos de trabalho para se locupletarem da forma mais ilícita possível. E o cidadão comum, este a quem não se dá a menor importância, é obrigado a pagar quase cinco meses de trabalho por ano para pagar a imoral carga tributária que lhe é extorquida. E aqui falo extorsão tendo em vista que nada lhe é oferecido em troca.

Estamos cada dia mais descendo o nível de moralidade e decência. Estamos perdendo de pouco em pouco a noção de decência, de honestidade, de trabalho sério, de dignidade. O senhor Luiz Inácio que assumiu sob o discurso de recuperar tais valores na vida pública, anda na contramão do discurso: entronou a corrupção e a imoralidade de tal forma nas instituições do poder, que parece que elas sempre estiveram ali, fazendo parte de seu DNA.

Há jeito para uma limpeza ética no governo brasileiro ? Jeito há, mas o custo não conseguirá ser suportado por uma única geração. Primeiro, não será este governo a dar o primeiro passo nesta direção, a partir de que seu principal nome, aquele que ocupa o trono imperial, não se deu conta do grande mal que faz ao país ao adotar a mentira como valor moral e princípio de conduta.

Segundo, porque esta cultura canalha não se modifica apenas pela simples vontade ou por decreto. Ela tem que estar assentada na formação de cada cidadão. E a sensação que se tem hoje é de a as gerações amadurecidas que se preparam para comandar o país já assimilaram os mesmos desvios de conduta e de ideologia.

Não se espere, portanto, que com pac ali e acolá, o Brasil retome seu curso normal de civilização. Permaneceremos bárbaros e selvagens ainda por muitos anos. Ao invés de “civilizarmos” nossos silvícolas, estamos adotando sua cultura primária como meio de vida. Quem sabe ainda acabemos andando em lombo de burro e morando em casinhas comunitárias de sapé, para o delírio dos esquerdopatas tupiniquins...