quarta-feira, maio 30, 2007

As armas não podem subir os morros

Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa
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Em declarações reproduzidas pelo jornalista Sergio Ramalho, "O Globo" de 23/05 - reportagem muito boa -, o secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, sustenta que a operação de guerra que se estende há várias semanas no Morro do Alemão tem como objetivo asfixiar o que classifica de tesouraria da facção criminosa que domina aquela área. O objetivo pode estar certo, mas a forma de colocá-lo em prática não parece ser a melhor.

Afinal de contas, inocentes estão tombando no conflito, como, com propriedade, focalizou o repórter Marlon Brum, em artigo também em "O Globo" do mesmo dia. Há duas leis no mundo irrevogáveis: a lei da oferta e da procura e a lei do menor esforço. Há oferta abundante de armas e munições porque há recursos financeiros, de parte do tráfico, para adquiri-las.

Trata-se da indústria da morte, poderosa como fatos comprovam. Quanto à lei do menor esforço, ela deveria se aplicar no Estado do Rio de Janeiro da seguinte forma: é muito mais fácil e muitíssimo menos arriscado bloquear o acesso de armamentos e tóxicos ao alto dos morros do que tentar invasões na expectativa de neutralizá-las e tomar a sua posse. Por que não é adotada tal política?

Há centenas de favelas na cidade do Rio de Janeiro. Em todas elas, forte presença do crime e dos criminosos. Têm poder porque possuem dinheiro, produto da venda de drogas. Têm força porque possuem armas e munições à vontade. Portanto, pagam por elas. E pagam caro. Não fosse assim, elas não chegariam a seu destino, não chegariam ao fundo do poço da insegurança.

A questão que se coloca é que todos os governos sustentaram e sustentam que a cidade não produz drogas, tampouco armas, e assim elas aqui chegam através dos portos, aeroportos, estradas. Perfeito. Mas como chegam ao alto dos morros? As drogas e as armas chegam, não pode haver outra hipótese, pelas ruas da cidade até as da favela.

A partir daí são transportadas por pessoas que as carregam e entregam a seus tristes destinos. Será que a polícia não pode fiscalizar este transporte? Parece não ser das tarefas mais difíceis. Não se trata de amedrontar os 97 por cento das populações dos morros que são pessoas honestas, trabalhadoras. Mas bloquear os recarregamentos sucessivos.

Com isso, formar-se-ia um cerco. Rompê-lo seria tarefa transferida ao crime organizado ou não, o que dificultaria suas atividades. É muitíssimo mais simples impedir que subam armas e drogas do que tentar capturá-las com a violência indispensável e peculiar a ações deste tipo.

O bloqueio envolveria também a descida do dinheiro, produto da venda dos entorpecentes durante o dia. Os compradores sobem. O dinheiro tem que descer. Desce à noite, através de emissários a serviço de doleiros ou então por mensageiros que os conduzem a agências bancárias ou financeiras. O dinheiro não pode, é claro, permanecer mais de 24 horas lá em cima. Tem que vir para baixo, não há outro jeito, não existe outro caminho. Tudo isso, como no poema de Drumond, parece um claro enigma. Mas ele permanece desafiando a inteligência e a percepção de todos. O que está se passando, afinal?

O secretário Beltrame se referiu à asfixia da tesouraria do tráfico. Mas esta tesouraria e o tráfico não estão somente na Penha. Espalham-se pelo Rio. É difícil assim imaginar que em todos os morros cariocas a mesma operação agora em prática poderá se repetir. A vida do Rio de Janeiro pára. Com isso, a economia declina, a sensação de insegurança aumenta, a exposição das pessoas inocentes às balas cruzadas se alarga.

A vida, em conseqüência, se desvaloriza. A colocação do raciocínio, pela resposta que provoca, revela que a lógica passa longe da atuação de hoje. Não é possível que o governador Sergio Cabral não se revele sensível à lógica dos limites. O que, no fundo, nada mais é do que a constatação de uma clara realidade. Nenhum governo pode declarar uma guerra desse tipo. Da mesma forma que é impossível, em poucos meses, resolver uma situação acumulada durante pelo menos vinte e cinco anos.

As omissões se sucederam. É necessário desacumulá-las. Porém não à base de invasões de estilo militar, as quais, como assinalou Marlon Brum, não estão apresentando qualquer revolução. No caso da Penha, está faltando planejamento. Existem inúmeras saídas. O bloqueio parece concentrar-se no acesso principal.

O que coloca em desvantagem as forças da Polícia Militar, sujo desempenho reconheço ser até heróico, mas as leva a serem alvejadas de cima para baixo, enquanto alvejam os inimigos de baixo para cima. Já que não se pode realizar um bombardeio aéreo, pois isso significaria a morte em massa de inocentes, tem que ser encontrado outro roteiro de ação. Outra estratégia. Afinal de contas, não estamos num filme policial.

Estamos dentro de um quadro real. Não dentro de uma ficção, da qual os atores, terminado seu trabalho, voltam para casa. Ao contrário. Na Vila Cruzeiro, descortina-se um panorama trágico em que dezenas de pessoas não sabem se podem sair ou se vão voltar para suas residências. Muitas não têm voltado. Têm sucumbido, sem culpa alguma, a um duelo que se trava fora de um espaço racional. E o que foge à lógica não leva a nada.