sexta-feira, maio 18, 2007

Trabalhador estuda mais e recebe menos

Valderez Caetano , Jornal do Brasil

Os trabalhadores brasileiros estão mais instruídos, mas ganhando menos. Em 22 anos - entre 1982 e 2004 - a média de estudo do proletariado urbano cresceu dois anos e cinco meses, enquanto a renda média encolheu 33,62%. Em 1982, um terço dos trabalhadores das cidades não tinha o ensino fundamental completo. O índice caiu para 15%, mas não garantiu a melhoria da qualidade de vida. Quem tinha diploma do chamado primário há 25 anos ganhava em média 12% a mais do que os analfabetos.

Em 2004, o salário dos dois grupos se equiparou. Os números são de um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), elaborado pelos economistas Anna Crespo e Maurício Cortez Reis.

- Os resultados mostram uma redução no efeito diploma entre 1982 e 2004, indicando que a conclusão de um ciclo educacional no Brasil vem perdendo valor ao longo do tempo - dizem os economistas do Ipea.

Os trabalhadores que estudaram mais estão ganhando proporcionalmente salários mais altos. Pelo estudo do Ipea, quem tinha 17 anos de estudo em 1982 recebia o dobro daqueles que estudaram 10 anos. Em 2004, a diferença dos salários subiu para 172%. Em compensação, a diferença salarial entre os trabalhadores com 10 anos de estudo e os que não haviam concluído o primeiro grau caiu de 123% para 75%.

Para os economistas Anna Crespo e Maurício Cortez Reis, as significativas mudanças no mercado de trabalho nos últimos 20 anos, decorrentes da abertura da economia, da globalização e do desenvolvimento tecnológico, exigiram profissionais mais habilitados.

Salário 33% menor no Sudeste
Segundo o trabalho do Ipea, os trabalhadores com curso superior também viram murchar os seus rendimentos entre 1982 e 2004.

- Durante os últimos 20 anos, aconteceram muitas mudanças no mercado de trabalho brasileiro que podem ter influenciado a relação entre ganho e tempo de estudo - dizem os autores do estudo.

A diferença de rendimentos é ainda mais marcante quando se compara o salário médio dos trabalhadores da região Nordeste com os da região Sudeste. Os pesquisadores escolheram as duas regiões porque, segundo eles, é nelas que estão concentrados 70% dos trabalhadores brasileiros. Segundo o estudo, em 1982 a média de rendimentos dos empregados nordestinos era 65% inferior a de seus colegas do Sudeste. Em 2004, subiu para 75%.

No começo dos anos 80, o salário médio dos trabalhadores nordestinos era de R$ 466,70. Caiu para R$ 297,21 em 2004. Uma queda de 37%. Em 22 anos, o tempo média de estudo, no entanto, saltou de quatro anos e seis dias para seis anos e dois meses. Desenhando a mesma trajetória de queda, os salários médios na região Sudeste caíram 33%, passando de R$ 772,09 em 1982 para R$ 517,75 em 2004. No mesmo período, o tempo de estudo subiu de seis anos e dois meses para oito anos e quatro dias.

O estudo do Ipea foi elaborado com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os pesquisadores tomaram como base os trabalhadores urbanos com idade entre 25 e 60 anos. Os números mostraram ainda que em 1982 os trabalhadores brasileiros que pertenciam a essa faixas de idade tinham, em média, cinco anos e seis meses de estudo. O período de formação escolar subiu para seis anos e dois meses em 1992, seis anos e nove meses em 1998 e atingiu sete anos e seis meses em 2004.