A armadilha do câmbio que o país não vê...
Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia
A empresa que, de 2003 para cá, acreditou que o governo federal falava sério quando incentivava que ela buscasse o mercado externo, de um modo geral, deve estar se sentindo ludibriada pelo papo oficial.
Em 2003, lembram, o câmbio apontava um dólar na casa de R$ 4,00, claro que por conta do medo de Lula como presidente, fazer aquilo que prometera quando estava na oposição. Passados os temores, e constatado que Lula seria o mais conservador da política econômica recebida, o dólar foi se ajustando à nossa realidade. Imaginava-se que, num ambiente de normalidade, ele oscilaria dentro da faixa de R4 2,40 a R$ 2,60. Pois bem, por muito tempo ele de fato se manteve dentro deste patamar.
As empresas tradicionalmente exportadoras e as candidatas a virtuais a virtuais exportadoras, se prepararam para a competição. Investimentos em máquinas e equipamentos, treinamento de pessoal, investimentos em qualidade, tudo para satisfazer o competitivo mundo do comércio internacional. E foram à luta.
Vai que, Lula projetando a necessidade de garantir sua eleição, traçou um caminho, em relação, que lhe garantiria credibilidade ao discurso. Assim, desonerou completamente a entrada de dólares para financiamento da dívida pública. O que ele tinha em mente era seguinte: trocaria a dívida externa pela interna, num misto de arreganho irresponsável, e discurso socialista oportunista do “Fora FMI”. Isto é, ao invés de pagar de 6 a 8% de juros sobre a dívida externa, preferiu se comprometer em pagar uma de 18 a 20% no mercado interno. Grande negócio ! Internamente, a dívida saltou rapidamente da casa de 600,0 bilhões, para mais de 1,3 TRILHÕES. De fato, neste ponto, Lula consagrou a promessa de campanha ao anunciar o espetáculo do crescimento. Esqueceu apenas de informar que o tal espetáculo se daria no plano da dívida pública. Lembrando apenas um detalhe: neste crescimento de dívida, não se destaca um único centavo para investimentos no país. Trata-se apenas da troca de dívida barata por outra mais cara.
O país, neste ponto, já experimentava um crescimento vertiginoso no comércio exterior. Mas devemos ressalvar que este crescimento se deu muito mais pela volúpia dos países na aquisição de commodities, cujos preços disparam, do que por razões de política interna do governo federal. Tal crescimento produziu uma enxurrada no ingresso de dólares no país. Com os juros internos aqui praticados, somados a desoneração implantada para favorecer o dólar motel, desestabilizou o equilíbrio que então havia. Moral da história: o dólar desabou. Estava no momento que redigia este artigo, na marca de R$ 1,95. E com tendência de mais quedas nos próximas horas e dias.
Na entrevista coletiva que concedeu à imprensa nesta semana, Lula disse que não mexeria no câmbio. É flutuante e como tal vai se manter. Que a valorização do real se dá por uma situação inédita de indicadores econômicos positivos. Esqueceu apenas de mencionar que estes indicadores são fruto da bonança econômica mundial. Ou seja,. estamos sim sendo favorecidos pelos bons ventos vindos de fora, mas também porque internamente, quando este período se iniciou já no final do mandato de FHC, o Brasil tinha feito seu dever de casa. Isto representa dizer que, vindo do governo Lula, a única virtude foi a de ter conservado intocada a política econômica herdada do governo anterior. E só. Ponto final.
Mas ao mexer no equilíbrio de forças, Lula abriu um caminho perigoso. E isto, muito criticamos fosse em 2006, quanto ao longo deste ano. Ninguém aqui está pedindo para produzirmos uma relação artificial. É possível manter o câmbio flutuante, mas também há recursos para uma regulação da paridade do real com o dólar. Durante 2006, o governo federal, Lula principalmente, comemorava que nunca se exportou tanto. Esqueceu de dizer que nunca compraram tanto do Brasil, e isto graças a nossa competência no agro-negócio, atividade tão maltratada pela política federal. Mas que se analisada com mais cuidado, se constataria que tradicionais produtos da pauta de exportação do Brasil estavam perdendo mercado. O real valorizado, tornara os preços destes produtos fora do mercado internacional. No segundo semestre, inclusive, dezenas de fábricas de calçados fecharam as portas. Milhares de empregos foram fechados. E até a indústria automobilística abriu o berro. Sem falar na indústria têxtil, de brinquedos e das pequenas empresas de manufaturados artesanais.
Em momento algum o governo se mostrou sensível a grita destes setores, todos importantes por serem geradores de muitos empregos.
Agora, Lula comemora que este câmbio favorece os mais pobres, porque aumenta seu poder de compra. Será ? E, mesmo na entrevista, ele afirmou o seguinte:
“(...) Se eu pudesse te responder com essa facilidade toda, eu já teria feito o que tem que ser feito. (...) O câmbio vai continuar flutuante. E ele vai se ajustar. O que nós precisamos é ter medidas tributárias para permitir que empresas que competem no mercado internacional possam ter mais competitividade. (...)”
Ter mais competitividade: esta foi a senha de Lula. A importação de máquinas? Sim, o real valorizado facilita. A desoneração ? Sim, ele prometeu. Como?Não disse. Ora, para setores que padecem há mais de um ano com uma política que mata investimentos, fecha fábricas e empregos aqui dentro, o que o governo tem a oferecer além de promessas ? Nada. Literalmente o governo Lula não tem nada a oferecer diante duma realidade que prejudica o mercado interno. Vimos há poucos dias que a média da renda do trabalhador caiu. O desemprego está em alta, as empresas estão fechando e desempregando milhares e o governo não tem a oferecer absolutamente nada.
E falar de competitividade então chega a ser uma ofensa ao bom senso. Com 40 % de tributação ser competitivo contra os demais com carga de 25% para baixo ? E mais: diante de juros mais caros do mundo, de carga tributária mais alta do mundo, diante de uma burocracia que asfixia a atividade produtiva, e de um sistema que toma o dinheiro do empresário antes mesmo que ele possa receber o produto de sua atividade pela antecipação de impostos, ser competitivo, convenhamos, é tomar-nos por perfeitos imbecis.
A verdade é uma só: enquanto o governo brasileiro for perdulário ao extremo, enquanto vigorar a cretina política de fortalecimento do estado diante da miséria da nação, vamos precisar andar a reboque do mundo. Se o mundo for bem, o país também irá. Mas, se um mísero espirro de encrenca lá fora acontecer, nós afundaremos juntos. Diante de tantos especialistas existentes por aí, pergunto: por que será que os países do primeiro mundo estão provocando esta crescente desvalorização do dólar ? Na esteira da resposta acreditem, o que se enxerga deveria pelo menos alertar nossas autoridades econômicas.
Aliás o Ministro do Desenvolvimento foi no mínimo intrometido e inoportuno ao responder ser “natural" a morte de algumas empresas por causa da baixa do dólar. Primeiro porque esta baixa se dá por razões de política econômica do governo de que participa. Segundo, porque toda a morte de empresas gera conseqüências sociais desagradáveis, sendo que uma delas é o desemprego que provoca. Este desemprego torna-se injusto quando esta morte ocorre aquém da vontade dos empregados, sem culpa alguma. Agora, quando a morte ocorre, caro ministro, por culpa de política de governo, acredite-me, o melhor seria este governo decretar-se incompetente e ir embora. Não foi eleito para isto. E, tanto quanto se saiba, o câmbio não é uma área pertencente ao seu ministério. O melhor que poderia ter feito era não dar palpite algum.
Porque senhores, deixar o câmbio chegar no ponto em que chegou, sem medir as conseqüências ruins, ficar olhando apenas as virtudes, é fazer meio governo. Ora se é para fazer festa quando tudo vai bem, não se precisa de governo. A conjugação de valorização da moeda, juros altos e carga tributária excessiva, sem favorecer o ingresso de bens tipo máquinas e equipamentos para permitir um choque de competitividade para a nossa indústria local, acredito eu, ser uma aposta arriscada, com efeitos prejudiciais à muitas cadeias produtivas. E o que é pior é vermos o governo sentado em cima do problema e sem apresentar alternativas para minorar os prejuízos. E olhem que estes prejuízos estão acontecendo já há mais de um ano...
Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia
A empresa que, de 2003 para cá, acreditou que o governo federal falava sério quando incentivava que ela buscasse o mercado externo, de um modo geral, deve estar se sentindo ludibriada pelo papo oficial.
Em 2003, lembram, o câmbio apontava um dólar na casa de R$ 4,00, claro que por conta do medo de Lula como presidente, fazer aquilo que prometera quando estava na oposição. Passados os temores, e constatado que Lula seria o mais conservador da política econômica recebida, o dólar foi se ajustando à nossa realidade. Imaginava-se que, num ambiente de normalidade, ele oscilaria dentro da faixa de R4 2,40 a R$ 2,60. Pois bem, por muito tempo ele de fato se manteve dentro deste patamar.
As empresas tradicionalmente exportadoras e as candidatas a virtuais a virtuais exportadoras, se prepararam para a competição. Investimentos em máquinas e equipamentos, treinamento de pessoal, investimentos em qualidade, tudo para satisfazer o competitivo mundo do comércio internacional. E foram à luta.
Vai que, Lula projetando a necessidade de garantir sua eleição, traçou um caminho, em relação, que lhe garantiria credibilidade ao discurso. Assim, desonerou completamente a entrada de dólares para financiamento da dívida pública. O que ele tinha em mente era seguinte: trocaria a dívida externa pela interna, num misto de arreganho irresponsável, e discurso socialista oportunista do “Fora FMI”. Isto é, ao invés de pagar de 6 a 8% de juros sobre a dívida externa, preferiu se comprometer em pagar uma de 18 a 20% no mercado interno. Grande negócio ! Internamente, a dívida saltou rapidamente da casa de 600,0 bilhões, para mais de 1,3 TRILHÕES. De fato, neste ponto, Lula consagrou a promessa de campanha ao anunciar o espetáculo do crescimento. Esqueceu apenas de informar que o tal espetáculo se daria no plano da dívida pública. Lembrando apenas um detalhe: neste crescimento de dívida, não se destaca um único centavo para investimentos no país. Trata-se apenas da troca de dívida barata por outra mais cara.
O país, neste ponto, já experimentava um crescimento vertiginoso no comércio exterior. Mas devemos ressalvar que este crescimento se deu muito mais pela volúpia dos países na aquisição de commodities, cujos preços disparam, do que por razões de política interna do governo federal. Tal crescimento produziu uma enxurrada no ingresso de dólares no país. Com os juros internos aqui praticados, somados a desoneração implantada para favorecer o dólar motel, desestabilizou o equilíbrio que então havia. Moral da história: o dólar desabou. Estava no momento que redigia este artigo, na marca de R$ 1,95. E com tendência de mais quedas nos próximas horas e dias.
Na entrevista coletiva que concedeu à imprensa nesta semana, Lula disse que não mexeria no câmbio. É flutuante e como tal vai se manter. Que a valorização do real se dá por uma situação inédita de indicadores econômicos positivos. Esqueceu apenas de mencionar que estes indicadores são fruto da bonança econômica mundial. Ou seja,. estamos sim sendo favorecidos pelos bons ventos vindos de fora, mas também porque internamente, quando este período se iniciou já no final do mandato de FHC, o Brasil tinha feito seu dever de casa. Isto representa dizer que, vindo do governo Lula, a única virtude foi a de ter conservado intocada a política econômica herdada do governo anterior. E só. Ponto final.
Mas ao mexer no equilíbrio de forças, Lula abriu um caminho perigoso. E isto, muito criticamos fosse em 2006, quanto ao longo deste ano. Ninguém aqui está pedindo para produzirmos uma relação artificial. É possível manter o câmbio flutuante, mas também há recursos para uma regulação da paridade do real com o dólar. Durante 2006, o governo federal, Lula principalmente, comemorava que nunca se exportou tanto. Esqueceu de dizer que nunca compraram tanto do Brasil, e isto graças a nossa competência no agro-negócio, atividade tão maltratada pela política federal. Mas que se analisada com mais cuidado, se constataria que tradicionais produtos da pauta de exportação do Brasil estavam perdendo mercado. O real valorizado, tornara os preços destes produtos fora do mercado internacional. No segundo semestre, inclusive, dezenas de fábricas de calçados fecharam as portas. Milhares de empregos foram fechados. E até a indústria automobilística abriu o berro. Sem falar na indústria têxtil, de brinquedos e das pequenas empresas de manufaturados artesanais.
Em momento algum o governo se mostrou sensível a grita destes setores, todos importantes por serem geradores de muitos empregos.
Agora, Lula comemora que este câmbio favorece os mais pobres, porque aumenta seu poder de compra. Será ? E, mesmo na entrevista, ele afirmou o seguinte:
“(...) Se eu pudesse te responder com essa facilidade toda, eu já teria feito o que tem que ser feito. (...) O câmbio vai continuar flutuante. E ele vai se ajustar. O que nós precisamos é ter medidas tributárias para permitir que empresas que competem no mercado internacional possam ter mais competitividade. (...)”
Ter mais competitividade: esta foi a senha de Lula. A importação de máquinas? Sim, o real valorizado facilita. A desoneração ? Sim, ele prometeu. Como?Não disse. Ora, para setores que padecem há mais de um ano com uma política que mata investimentos, fecha fábricas e empregos aqui dentro, o que o governo tem a oferecer além de promessas ? Nada. Literalmente o governo Lula não tem nada a oferecer diante duma realidade que prejudica o mercado interno. Vimos há poucos dias que a média da renda do trabalhador caiu. O desemprego está em alta, as empresas estão fechando e desempregando milhares e o governo não tem a oferecer absolutamente nada.
E falar de competitividade então chega a ser uma ofensa ao bom senso. Com 40 % de tributação ser competitivo contra os demais com carga de 25% para baixo ? E mais: diante de juros mais caros do mundo, de carga tributária mais alta do mundo, diante de uma burocracia que asfixia a atividade produtiva, e de um sistema que toma o dinheiro do empresário antes mesmo que ele possa receber o produto de sua atividade pela antecipação de impostos, ser competitivo, convenhamos, é tomar-nos por perfeitos imbecis.
A verdade é uma só: enquanto o governo brasileiro for perdulário ao extremo, enquanto vigorar a cretina política de fortalecimento do estado diante da miséria da nação, vamos precisar andar a reboque do mundo. Se o mundo for bem, o país também irá. Mas, se um mísero espirro de encrenca lá fora acontecer, nós afundaremos juntos. Diante de tantos especialistas existentes por aí, pergunto: por que será que os países do primeiro mundo estão provocando esta crescente desvalorização do dólar ? Na esteira da resposta acreditem, o que se enxerga deveria pelo menos alertar nossas autoridades econômicas.
Aliás o Ministro do Desenvolvimento foi no mínimo intrometido e inoportuno ao responder ser “natural" a morte de algumas empresas por causa da baixa do dólar. Primeiro porque esta baixa se dá por razões de política econômica do governo de que participa. Segundo, porque toda a morte de empresas gera conseqüências sociais desagradáveis, sendo que uma delas é o desemprego que provoca. Este desemprego torna-se injusto quando esta morte ocorre aquém da vontade dos empregados, sem culpa alguma. Agora, quando a morte ocorre, caro ministro, por culpa de política de governo, acredite-me, o melhor seria este governo decretar-se incompetente e ir embora. Não foi eleito para isto. E, tanto quanto se saiba, o câmbio não é uma área pertencente ao seu ministério. O melhor que poderia ter feito era não dar palpite algum.
Porque senhores, deixar o câmbio chegar no ponto em que chegou, sem medir as conseqüências ruins, ficar olhando apenas as virtudes, é fazer meio governo. Ora se é para fazer festa quando tudo vai bem, não se precisa de governo. A conjugação de valorização da moeda, juros altos e carga tributária excessiva, sem favorecer o ingresso de bens tipo máquinas e equipamentos para permitir um choque de competitividade para a nossa indústria local, acredito eu, ser uma aposta arriscada, com efeitos prejudiciais à muitas cadeias produtivas. E o que é pior é vermos o governo sentado em cima do problema e sem apresentar alternativas para minorar os prejuízos. E olhem que estes prejuízos estão acontecendo já há mais de um ano...