sexta-feira, maio 18, 2007

TRAPOS E FARRAPOS

Navalha na carne. De quem ?
Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Em mais uma operação espetaculosa, a Polícia Federal prendeu um monte de bacanas hoje, políticos, empreiteiros, servidores públicos. Teve de tudo. Até um deputado distrital por Brasília.

Claro, não poderiam faltar as declarações de Tarso Genro e Dilma Roussef comemorando o feito, além, é claro, de proferirem sentenças da mais pura demagogia. É bom sabermos que está havendo combate à corrupção. É bom e é saudável que assim seja. Mas precisamos, em se tratando de Brasil, termos um pouco mais de cuidado antes de largarmos foguetes em comemoração.

Analisem os últimos quatro anos: foram desferidas dezenas de operações semelhantes pela Polícia Federal. Mandados de prisão foram cumpridos às centenas. Certo ? Perguntinha ingênua: quantos permanecem presos, foram julgados, condenados e encarcerados em sentenças definitivas ? Nenhum. Muitos sequer cumprirem 24 horas de prisão. O que quer dizer ? Que muito do espetáculo patrocinado pela PF é mesmo jogo de cena, ações espetaculosas que servem como intimidação, como aviso de alerta. Além, é sempre bom lembrar, que servem a uma causa, a de propaganda do próprio governo que a comanda.

Sempre desejei, como milhões de brasileiros, que se fizesse uma limpeza geral nos antros do poder em Brasília, que onde se decide “tudo”, mas que a limpeza se disseminasse pelo restante do país. Na classe política, e nas relações do governo (seja ele quem for) com empresas e prefeituras, residem 90% dos problemas que este Brasil tem enfrentado ao longo do tempo. Mas esta limpeza ética, só consumará no dia que vier acompanhada do indispensável complemento que é o julgamento, condenação, prisão definitiva e sem privilégios, para as milhares de ratasanas que infestam os porões do poder. Aí, sim, se estará dando um recado direto para o restante do país, a de que o tempo da impunidade e da corrupção leve, livre e solta acabou. Do contrário, dentro de seis meses, os agora presos, continuarão por aí, livres, leves, e soltos. E o que é pior: impunes.

E não bastam apenas prisão e condenação em definitivo: é preciso fazê-los devolver ao Estado o que do Estado ilegalmente tomaram. Porque senão, bastariam dois a três anos de prisão, que convenhamos não é nada para esta gente, e depois, estariam soltos para viverem feitos marajás com o produto de suas vigarices. Sem nem precisarem preocupar-se em trabalhar para sobreviver como fazem os honestos que ainda restam neste país.

Portanto, espetáculos como este acabam, se não tiverem um final feliz para a moralização do país, no lugar comum, cansarão e deixarão simplesmente de ser notícia por mais que o marketing federal invista na sua divulgação.

E digo isto porque , no mesmo dia em que mais este “espetáculo” foi ao ar em todos os noticiários, ao final deste mesmo dia, se produzia a seguinte notícia:
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Câmara decide manter deputado preso em casa
Há pouco, a Câmara Legislativa de Brasília decidiu que o deputado distrital Pedro Passos (PMDB) deverá ser mantido preso até a próxima terça-feira na casa dele, deixando, portanto, a carceragem da Polícia Federal, onde ainda se encontra. Na terça-feira, a Câmara votará parecer da Comissão de Constituição e Justiça, presidida pelo próprios Passos, que recomenda a sua libertação.

A custódia de Passos é da Câmara, como reconhece a juíza que autorizou a prisão dele. Tão logo Passos seja interrogado pela polícia, caberá à Câmara definir o que acontecerá com ele em seguida. Poderia definir que ele permaneceria preso na polícia. Ou então que ficaria preso na sua casa. Ou ainda que deveria ser solto.

Ele ficará em prisão domiciliar. Mas deverá ser solto em seguida.

Nem a Câmara dos Deputados tem poder para proceder assim com um dos seus membros - a Legislativa de Brasília tem

Desse poder se beneficiou em 2003 o deputado distrital José Edmar (PMDB) - assim como Passos, aliado do atual senador Joaquim Roriz (PMDB). Edmar ficou 29 dias preso sob a acusação de grilagem de terras. A Câmara mandou soltá-lo.

Então, que tal esta, hein ? Claro, não é a primeira vez que as ações de combate à corrupção precisam enfrentar este tipo de constrangimento que é vencer as inúmeras barreiras criadas pelos “homens” poder para privilegiar os mesmos “homens” no poder. E não pensem que isto irá mudar tão cedo. Infelizmente, esta realidade tende a se manter cada mais forte. E pela simples razão de que, sentindo-se acuados pela prisão dos companheiros de profissão, a tendência será ampliarem ainda mais a sua própria rede de proteção, criando mais privilégios. Não é apenas as ações da PF que farão a diferença. Como dissemos, sem a necessária condenação à prisão em definitivo e sem privilégios, com a indispensável condenação a ressarcir os cofres públicos do tanto que dele desviaram, ações como as de hoje terão o efeito de um pum mal cheiroso: você torce o nariz para o lado, espera o vento carregar o mal cheiroso para longe, e pronto: tudo volta a ser como era antes.

Mas ainda restam tres detalhes curiosos a serem destacados: um, é que a PF tem sido eficiente até demais para o meu gosto. Por que? Porque quando se tratou de casos envolvendo basicamente petistas, ela ficou no meio do caminho. Foram os casos dos mensaleiros e do dossiê fajuto. Além, é claro, do insolúvel caso das cartilhas do Gushiken, que até hoje permanecem ocultas. Foram as cartilhas Conceição, ninguém sabe, ninguém viu. Apenas o dinheiro, R$ 11,0 milhões, é que se sabe o que aconteceu: sumiu.

O outro detalhe é que os bacanas do governo se prontificaram em dizer que se estava combatendo a corrupção nas obras do PAC. Das duas uma: ou estas obras nada tinham a ver a com PAC, já existiam, corriam soltas no lançamento do PAC, e acabaram sendo “fundidas” a ele, processo de incorporação pura e simples – ou o governo está nos tomando por idiotas. Caramba, se o PAC foi lançado há cerca de 4 meses, o governo ainda luta no Congresso para aprovação de medidas para dar sustentação jurídica ao seu conteúdo, o dinheiro mal foi contingenciado, como poderiam em tão curto espaço de tempo já terem realizado as licitações, muitas delas, como sabemos, dependentes ainda de licenciamentos com o IBAMA inclusive em greve por conta das mexidas que lhe foram promovidas e que exigem estruturação adequadas da própria legislação ? Além disto, se as obras do PAC tivessem alguma relação com a operação desencadeada hoje, 17 de maio de 2007, por que os presos vem sendo monitorados pela Polícia Federal há mais de dois anos ? É um indigência do governo querer vender esta pilhéria !

O terceiro detalhe é que, a se tomar a relação dos acusados parecem faltar peixes mais graúdos neste balaio. É curioso porque, como serão bilhões de reais em jogo na execução do “plano” que o governo apresentou em janeiro, e como dissemos acima, as licitações ainda serão abertas à concorrência, não se estaria com esta operação lançando uma espécie de véu sobre a opinião pública, pegando peixes pequenos para encobrir os rolos graúdos que irão rolar ? Sei não, mas neste país tudo isso é possível. Até, como temos visto por décadas de desatinos que se cometem nas esferas do poder, tudo isto acabar dando em nada, sumir do noticiário diante de um novo escândalo espetaculoso...

Assim, fica a sugestão: antes dos foguetes, vamos aguardar para ver no que isto tudo vai dar. Se o roteiro mudar em comparação com os demais escândalos que nesta república de meu Deu são produzidos por atacado, já será um avanço. Alguém acredita nisto ?