Editorial do Jornal do Brasil
Nações não têm amigos, têm interesses, diz um dos primeiros mandamentos da escola que prega (sem explicitá-la em normas escritas) a diplomacia selvagem. De autoria controvertida, a frase é invariavelmente invocada para justificar brutalidades promovidas por certos países em determinadas épocas. De anexações territoriais a violências econômicas, qualquer ultrapassagem das fronteiras civilizadas é atribuída a essa lei da selva.
A contundência da formulação dissimula mais que um aleijão doutrinário: trata-se de uma rematada bobagem. Como tem sido desde o aparecimento das primeiras tribos formadas por seres humanos, como será até o fim dos tempos, todas as nações têm interesses, simultaneamente, amigos. A perseguição dos objetivos específicos de cada comunidade é perfeitamente compatível com a preservação de ligações afetivas, culturais, históricas ou geopolíticas.
Aos protagonistas dos incontáveis exemplos que amparam tal afirmação acaba de incorporar-se o primeiro-ministro britânico Tony Blair. Há dias, ao anunciar a decisão de deixar o posto em junho, o chefe de governo praticamente pediu desculpas por ter envolvido a Inglaterra na Guerra do Iraque, articulada pelo americano George Bush. Tivera motivos para tomar tal decisão, ressalvou o jovem estadista. Entre eles figuram os laços que unem a Grã-Bretanha aos Estados Unidos.
Tecidos desde que os pioneiros da colonização desembarcaram no norte da América, esses laços se tornaram virtualmente indestrutíveis ao longo do século 20. Por duas vezes, a intervenção militar americana em guerras gestadas na Europa livrou a Inglaterra do risco de destruição. A nação socorrida nunca perdeu chances de retribuir, na prática, a ajuda providencial. O erro do Iraque serviu ao menos para confirmar que nações têm amigos, sim.
Mas os interesses nacionais devem sempre prevalecer sobre todas as injunções e circunstâncias, ensinou Tony Blair no mesmo discurso de despedida. A parceria militar não impediu a Inglaterra de contrariar, contestar ou mesmo desafiar, quando necessário, interesses econômicos americanos. Bush afirmou que sentirá saudade de Blair. Mas decerto lembrará sem prazer medidas econômicas encampadas pelo altivo parceiro britânico.
A política externa brasileira seria menos errática, menos desconcertante e menos confusa se seus formuladores assimilassem lições como as oferecidas pelas relações anglo-americanas. Como Blair, Lula acha possível conciliar amizades e interesses nacionais. Mas, no Brasil, aquelas prevalecem sobre estes.
Essa perigosa inversão de critérios é agravada pelo desconcertante sentimento de culpa que aflige o presidente da República. Ao tratar de questões que envolvem, por exemplo, o Paraguai e a Bolívia, Lula parece disposto a compensar com pagamentos em dinheiro perdas humanas provocadas por guerras passadas, ou perdas territoriais decorrentes de mudanças na geopolítica sul-americana.
O Paraguai perdeu a guerra travada contra o Brasil há 150 anos? Acaba de ganhar mais US$ 1 bilhão com o perdão parcial da dívida de Itaipu. A Bolívia vendeu o Acre a preço de mochileiro? Nos dois episódios, os interesses nacionais foram claramente subordinados à política de boa vizinhança.
Lula tem o direito de preocupar-se com o bem-estar dos amigos. Mas tem sobretudo o dever de cuidar do que interessa ao Brasil.
Nações não têm amigos, têm interesses, diz um dos primeiros mandamentos da escola que prega (sem explicitá-la em normas escritas) a diplomacia selvagem. De autoria controvertida, a frase é invariavelmente invocada para justificar brutalidades promovidas por certos países em determinadas épocas. De anexações territoriais a violências econômicas, qualquer ultrapassagem das fronteiras civilizadas é atribuída a essa lei da selva.
A contundência da formulação dissimula mais que um aleijão doutrinário: trata-se de uma rematada bobagem. Como tem sido desde o aparecimento das primeiras tribos formadas por seres humanos, como será até o fim dos tempos, todas as nações têm interesses, simultaneamente, amigos. A perseguição dos objetivos específicos de cada comunidade é perfeitamente compatível com a preservação de ligações afetivas, culturais, históricas ou geopolíticas.
Aos protagonistas dos incontáveis exemplos que amparam tal afirmação acaba de incorporar-se o primeiro-ministro britânico Tony Blair. Há dias, ao anunciar a decisão de deixar o posto em junho, o chefe de governo praticamente pediu desculpas por ter envolvido a Inglaterra na Guerra do Iraque, articulada pelo americano George Bush. Tivera motivos para tomar tal decisão, ressalvou o jovem estadista. Entre eles figuram os laços que unem a Grã-Bretanha aos Estados Unidos.
Tecidos desde que os pioneiros da colonização desembarcaram no norte da América, esses laços se tornaram virtualmente indestrutíveis ao longo do século 20. Por duas vezes, a intervenção militar americana em guerras gestadas na Europa livrou a Inglaterra do risco de destruição. A nação socorrida nunca perdeu chances de retribuir, na prática, a ajuda providencial. O erro do Iraque serviu ao menos para confirmar que nações têm amigos, sim.
Mas os interesses nacionais devem sempre prevalecer sobre todas as injunções e circunstâncias, ensinou Tony Blair no mesmo discurso de despedida. A parceria militar não impediu a Inglaterra de contrariar, contestar ou mesmo desafiar, quando necessário, interesses econômicos americanos. Bush afirmou que sentirá saudade de Blair. Mas decerto lembrará sem prazer medidas econômicas encampadas pelo altivo parceiro britânico.
A política externa brasileira seria menos errática, menos desconcertante e menos confusa se seus formuladores assimilassem lições como as oferecidas pelas relações anglo-americanas. Como Blair, Lula acha possível conciliar amizades e interesses nacionais. Mas, no Brasil, aquelas prevalecem sobre estes.
Essa perigosa inversão de critérios é agravada pelo desconcertante sentimento de culpa que aflige o presidente da República. Ao tratar de questões que envolvem, por exemplo, o Paraguai e a Bolívia, Lula parece disposto a compensar com pagamentos em dinheiro perdas humanas provocadas por guerras passadas, ou perdas territoriais decorrentes de mudanças na geopolítica sul-americana.
O Paraguai perdeu a guerra travada contra o Brasil há 150 anos? Acaba de ganhar mais US$ 1 bilhão com o perdão parcial da dívida de Itaipu. A Bolívia vendeu o Acre a preço de mochileiro? Nos dois episódios, os interesses nacionais foram claramente subordinados à política de boa vizinhança.
Lula tem o direito de preocupar-se com o bem-estar dos amigos. Mas tem sobretudo o dever de cuidar do que interessa ao Brasil.