quinta-feira, março 24, 2011

Depois do oba-oba do Obama

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

O oba-oba encenado pelo Obama em sua passagem de dois dias pelo Brasil, sem atender a uma só das nossas reivindicações fundamentais, não afasta os erros cometidos do lado brasileiro. Claro que Dilma Rousseff cumpriu seu papel, sendo ao mesmo tempo cordial e firme ao abordar a injustiça das barreiras tarifárias americanas diante de nossos produtos de exportação.

Mesmo assim, escorregamos. Será que não tínhamos outra manifestação de cultura popular para apresentar, senão dois espetáculos de capoeira, um em Brasília, outro no Rio? Afinal, esse bailado de pernas e gingas não será a única forma de demonstrar nossas criações artísticas. A capoeira ficaria melhor para uma visita do Imperador do Japão, dada sua semelhança com o caratê. É verdade que Obama visitou uma exposição de pinturas de artistas brasileiras, mas no recôndito do palácio do Planalto.

Também faltou iniciativa de nossa parte diante das imposições do Serviço Secreto, FBI, CIA e congêneres para blindar seu presidente. Até submetralhadoras eles trouxeram, sem falar em fuzis de mira telescópica e longo alcance, instalados no alto de edifícios na nova e da velha capital. Exigiram, e não houve reação de nossa parte, esvaziar a Praça dos Três Poderes. A ausência de povo no local constituiu fato único desde a inauguração de Brasília. Assim como em parte da Cinelândia. Vale o mesmo para os acessos à Cidade de Deus, para o campo do Flamengo e boa parte do trajeto percorrido por Obama, no Rio.

Ministros do nosso governo retiraram-se antes da fala do visitante, num encontro com empresários, como reação à tentativa dos gorilas americanos de apalpá-los e revistá-los com aquelas maquininhas que apitam ao detectar canetas e isqueiros, mas não houve quem do lado da nossa segurança se insurgisse contra a humilhação.

Ficamos sabendo, também, como é fácil interditar celulares, pois nenhum funcionava ao redor dos hotéis onde a comitiva americana hospedou-se. Só os deles. Ainda seria positivo caso nos tivessem repassado a tecnologia aplicada para isso, capaz de ser utilizada nos presídios nacionais.

Em suma, não se dirá ter sido inócua a vinda de Barack Obama ao Brasil, mas ficou evidente que, se queremos crescer, tornando-nos potência de primeira classe, será apoiando-nos em nossas próprias forças.