quinta-feira, março 24, 2011

Reflexões sobre a inflação neste início de mandato da presidente Dilma

Luiz Carlos Mendonça de Barros, Exame.com

Na semana passada fiz algumas reflexões sobre a ata da última reunião do COPOM, mostrando as evidências de uma mudança importante na operação do sistema de metas de inflação implantado em 1999, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso. Prometi então ao leitor deste Blog aprofundar minhas avaliações sobre a natureza da aceleração da inflação na passagem de 2010 para 2011. Infelizmente os dias agitados nos mercados financeiros que se seguiram aos desastres que atingiram o Japão me mantiveram afastados deste Blog nesta semana. Neste domingo, com uma certa previsibilidade voltando às minhas atividades profissionais posso cumprir minha promessa.

A dinâmica da inflação que vive o Brasil neste inicio de mandato de um novo presidente é bastante complexa. As pressões sobre os preços – tanto no nível do consumidor como dos produtores – têm origem em fenômenos econômicos de várias naturezas e que impactam, em conjunto, a sua dinâmica. O mais importante grupo de forças que agem na direção de preços maiores tem sua origem nos desequilíbrios entre oferta e procura que estão acontecendo tanto ao nível do varejo como no do atacado. Os economistas usam o conceito de absorção interna para quantificar as forças de demanda que nascem do consumo interno, dos investimentos de empresas privadas e entes estatais e das exportações. Isto é feito para dimensionar o total das pressões que agem sobre a capacidade produtiva de uma economia como a brasileira. Para se chegar ao efeito liquido destas forças é preciso considerar também a oferta de bens e serviços representadas pelas importações e que são usadas para atender a demanda total.

A demanda agregada é um conceito macro, isto é, não procura tratar do equilíbrio entre oferta e procura na dimensão micro de cada um dos mercados de fatores de produção, como mão de obra, energia elétrica, capacidade dos portos do país, das ferrovias e das estradas por exemplo. Em certos momentos é preciso – para entender a dinâmica da inflação – analisar o equilíbrio de oferta e procura pelo menos em alguns destes mercados. Sabemos que, por exemplo,os salários são um dos mecanismos mais importantes de transmissão dos aumentos de preços em uma economia com escassez de mão de obra qualificada.

Outra fonte importante de pressão sobre os preços internos nos últimos meses vem dos mercados de produtos primários, principalmente alimentos e metais. A incorporação de centenas de milhares de novos consumidores em países do mundo em desenvolvimento – principalmente na China, na Índia e na America Latina - aumentou de forma importante a demanda por este produtos, pressionando seus preços nos mercados internacionais. Durante o segundo mandato do presidente Lula a valorização do real mascarou este choque de preços e manteve a inflação no centro da meta. Agora, com o governo evitando que a força do real enfraqueça ainda mais a competitividade da indústria brasileira, o aumento dos preços em dólares de vários produtos primários estão se transformando em aumento em reais.

Um outro choque externo de preços – mas este positivo para a inflação – também contribuiu para que nos últimos anos de Lula a inflação ficasse comportada no centro da meta fixada pelo Banco Central. Logo após a crise do Lehman Brothers o mundo desenvolvido passou a viver um período de forte recessão, e que gerou uma capacidade ociosa importante na indústria de vários países exportadores. A queda de preço destes produtos, em um momento em que as importações brasileiras começaram a crescer – ao mesmo tempo em que o real se valorizava – forçou uma deflação neste grupo de produtos. Nos dois anos que seguiram ao colapso da Lehman Brothers a cesta de produtos industriais no Brasil experimentou uma deflação de mais de 2% ao ano.

A partir de 2010, com a recuperação do crescimento mundial, os preços industriais voltaram a subir reduzindo a importância deste choque positivo nos preços no Brasil. Neste início de ano já temos uma inflação positiva neste segmento.

A soma de todos estes fatores apontam para a necessidade de uma redução na atividade econômica nos próximos dois anos para aliviar as pressões inflacionarias e abrir espaço para que os investimentos – que estão sendo realizados – aumentem a oferta e acomodem os mercados. Minha preocupação principal está no mercado de trabalho, pois estamos claramente com uma taxa de desemprego abaixo da de equilíbrio e sabemos que nesta situação os choques externos de preços provocam aumentos marginalmente sempre mais elevados nos índices agregados de inflação.

O governo tem três mecanismos principais para desacelerar o crescimento da economia: aumento de juros via taxa SELIC, restrição de credito via medidas de controle administrativo do estoque de credito do sistema bancário e, redução das despesas publicas. Como força auxiliar – mas apenas auxiliar – o BC pode permitir uma nova rodada de valorização da taxa de cambio.

Mas não será possível uma redução da taxa de inflação nos próximos meses sem uma desaceleração importante da economia. E isto o governo tem dito que não quer. Então a inflação ainda vai aumentar antes de voltar a se estabilizar. Talvez quando isto acontecer o governo, finalmente, aceite reduzir a velocidade da economia.