Hugo Souza, Opinião & Notícia
Nas últimas semanas Dilma Rousseff frequentou programas de TV e passou a curiosa imagem de uma presidente que não gosta muito da presidência.
(Fonte: TVGlobo)
Dilma preparou receita de omelete
no programa 'Mais Você'
A conclusão política-eleitoral que se poderia tirar destes primeiros meses de mandato da presidente Dilma Rousseff é a de que ela estaria mesmo esquentando lugar para Lula. A pedra foi cantada por muitos durante a campanha do ano passado: o ex-presidente não teria escolhido uma sucessora, mas sim uma interina, ou seja, alguém que não criasse problemas para a volta triunfal do “filho do Brasil” nos braços do povo depois da quarentena determinada por lei.
Esta hipótese poderia ter se mantido no terreno das anedotas da política não fosse a absoluta discrição com que Dilma se cobriu após assumir o cargo máximo da República, como uma Cinderela às avessas, dando munição àqueles cujo entendimento é de que não haverá tentativa de reeleição em 2014, e a intenção da presidente e do PT não é outra senão a de Dilma fazer um governo “técnico”, correto, quase que apenas cumprindo a liturgia do cargo, e só. Ou seja: um mandato-tampão.
O próprio Lula chegou a admitir a possibilidade de concorrer em 2014, e o presidente do PT, José Eduardo Dutra, quando foi indagado sobre a questão, disse que “a presidente Dilma é o nome natural para disputar a reeleição”, mas fez uma intrigante ressalva: “Agora, estamos no início do governo e não quero ficar fazendo previsões. Não há dúvida de que Lula continuará sendo um quadro importantíssimo no cenário político nacional”.
Nas últimas semanas, entretanto, Dilma surpreendeu passando metade de uma manhã na companhia da apresentadora Ana Maria Braga, ao vivo, no programa “Mais Você”, da Rede Globo, e aparecendo no primeiro programa de Hebe Camargo na Rede TV. No “Mais Você” de Ana Maria Braga, Dilma trocou graças com o louro José, falou sobre a filha e o neto e, o mais importante, preparou uma nada suculenta “omelete presidencial”, na qual chegou a botar bicarbonato de sódio pensando que se tratava de uma pitada de sal.
‘O Palácio do Planalto não é aconchegante’
Na entrevista que concedeu a Hebe Camargo, a presidente falou de moda, de música e da saúde – da própria saúde, contando como venceu o câncer, não da saúde como serviço público (mal) prestado à população. Do que interessa mesmo, falou muito pouco. E assim, pela primeira vez desde que assumiu a presidência, Dilma lembrou um pouco Lula.
Surpresa para quem vê algo friamente calculado no contraste entre o jeitão contido e calado da presidente e a verborragia populista do seu antecessor, com todas aquelas anedotas, parábolas e o inconfundível “nunca antes na história deste país”.
O que sobressaiu das aparições de Dilma dos programas de TV voltados para as classes B, C e D, entretanto, foi o marketing ambíguo usado pela presidente no contexto da estratégia de “descongelamento” da sua imagem perante o respeitável público. Na Ana Maria Braga, Dilma chegou a dizer que “o Palácio do Planalto não é aconchegante”. Na Hebe, decretou: “morar no palácio não é muito bom”.
Afinal, trata-se da primeira mulher presidente do Brasil tentando parecer gente do povo, dizendo que seu lugar não é em palácio, ou de uma estranha no ninho dando sinais de que não permanecerá mais do que o tempo necessário onde não se sente confortável?
Na Hebe, Dilma disse ainda que “não é bom perder a possibilidade de andar na rua, entrar na padaria, tomar um café, comprar um livro, olhar uma roupa. Mas é um período. Eu não nasci presidente, eu estou presidente nesse período, e tenho de desempenhar da melhor forma possível”.
Não é exatamente alguém que parece entusiasmada com o novo emprego, muito menos disposta a se esforçar para mantê-lo em um futuro não muito distante, bem ao contrário do que faria um certo Luiz Inácio.
