quinta-feira, novembro 30, 2006

A democracia como obstáculo

Por Guilherme Fiúza / Política & Cia / No Mínimo
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O repórter de “O Globo” foi recebido aos gritos pelo presidente da Petrobras, na entrevista coletiva concedida por ele na semana passada. Nunca antes na história deste país se assistiu a um show tão explícito de intolerância com a imprensa.
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Ou melhor, se assistiu, na época do regime militar. Aqueles generais tratando jornalistas como pragas, na base do grunhido e do atropelo, deixaram um quadro clássico dos tempos de falta de liberdade. Ninguém podia imaginar um revival desse quadro num governo de esquerda.

Antes da coletiva de Sérgio Gabrielli, o repórter Chico Otavio já comentara com este signatário que o jogo de pressões não seria leve. Um dos autores da reportagem mostrando que a estatal deu mais de 30 milhões de reais a ONGs ligadas a candidatos do PT, Chico já sentia na pele, em sinais vindos de várias direções, o preço que paga quem mexe com a Petrobras.
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Parênteses: Paulo Francis morreu disso.
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Mas agora a coisa está mais animada. À moda dos generais (se é que algum presidente da estatal nos anos de chumbo chegou a esse ponto), Sérgio Gabrielli atacou publicamente o repórter do “Globo” na base do insulto. Chamou-o diante de todos de “irresponsável”, aos berros, e disse que ele não era “uma pessoa bem-vinda” na Petrobras.
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Era só o que faltava. Agora, a megaestatal que se agigantou sugando o dinheiro do contribuinte só aceita em suas dependências jornalistas que falem bem dela. Estranhos tempos, esses.
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O que o senhor Sérgio Gabrielli precisa entender são dois pontos simples:
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1) O presidente da Petrobras tem a obrigação de explicar à sociedade, a qualquer tempo ou lugar, e se possível de bom humor, cada centavo gasto pela estatal em qualquer projeto – especialmente, muito especialmente, se o projeto beneficiou a caixinha de Delúbio, Lorenzetti, Expedito e grande elenco petista.
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2) A explicação à sociedade se faz, em grande medida, através da imprensa. Portanto, o senhor Gabrielli precisa aprender a se dirigir a um repórter com o mesmo respeito dedicado aos superiores que o mantêm no emprego. Ou melhor: com mais respeito.
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O que se lamenta é a indiferença da sociedade esclarecida diante da agressão sofrida por Chico Otavio, um dos repórteres mais premiados da imprensa brasileira. Isso, deixem para lá. Acostumem-se com os arroubos desses megalo-burocratas. Esperem só para ver a árvore frondosa que vingará dessas sementinhas de autoritarismo.
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O super-Marco Aurélio Garcia, ideólogo, presidente de partido, homem de governo, enfim, essa misturada toda que o PT faz muito bem, declarou que um dos grandes derrotados na eleição presidencial foi a imprensa.
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Parece inacreditável, mas é verdade. Um dos sujeitos mais graduados da República nos dias de hoje (que tempos, meu Deus, que tempos) se sente à vontade para julgar – e condenar – publicamente uma das instituições vitais da democracia.
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É como se Lula viesse a público dizer que o grande derrotado da eleição é o Ministério Público, que denunciou os 40 ladrões do mensalão e em nada afetou as urnas.

Aliás, não se sabe se deliberadamente ou em ato falho, Lula referiu-se a uma série de instituições da democracia (leis, normas ambientais, Congresso e o próprio Ministério Público, entre outros) como “obstáculos” ao desenvolvimento.
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Resta esperar que o governo que quis expulsar um correspondente internacional porque falou mal do presidente não compreenda mal o resultado da eleição. E não caia na tentação de remover de seu caminho jornalistas e outros obstáculos democráticos.