quinta-feira, novembro 30, 2006

Três socos na sensatez

Por Augusto Nunes / Jornal do Brasil
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O Superlula, um herói brasileiro anabolizado por 58.295.042 votos, já deu três socos na mesa depois da reeleição. O primeiro sublinhou o aviso endereçado pelo presidente vitorioso nas urnas a meia dúzia de pais da Pátria ligados ao setor da saúde: tinham 48 horas para resolver a crise do Instituto do Coração, o Incor, prostrado por um enfarte financeiro. Mais de 48 improvisos depois, a crise continua.
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O barulho do segundo soco projetou as nuvens da ameaça sobre outra cobrança de Lula: se o apagão aéreo não fosse imediatamente debelado por soluções luminosas, a companheirada conheceria a face escura do chefe. Indiferentes ao surto de braveza, os controladores de vôo mantiveram a operação tartaruga na velocidade de cruzeiro. E os aeroportos foram reduzidos a zonas conflagradas.
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Institucionalizou-se o atraso em nove a cada 10 pousos ou decolagens. O país descobriu que soluções definitivas não virão antes de 2010. E percebeu que até o encerramento do primeiro mandato não virá sequer a demissão de Waldir Pires, ora em repouso no gabinete do ministro da Defesa.
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Tampouco parecem ameaçados pela perda do emprego os integrantes da equipe econômica, destinatários do terceiro soco na mesa desferido pelo SuperLula. Animado com o triunfo eleitoral, o presidente decidiu que a economia, daqui por diante, deverá crescer 5% ao ano. Como não pode entender de tudo, pediu a companheiros especialistas em contas que mostrassem o mapa da mina. Não gostou do que viu.
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Então vieram mais um ultimato e o terceiro soco: até 31 de dezembro, a turma que dê um jeito de redesenhar caminhos, trilhas e atalhos, para torná-los mais audaciosos, menos acanhados. Para começar o segundo mandato com o pé afundado no acelerador - e girar pelas pistas do Planalto, nos quatro anos seguintes, em ritmo de Brasil Grande - quer providências que o ajudem a "destravar o país".
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Também esse soco deu em nada. As sugestões não vieram. Nem virão. E Lula talvez comece a compreender que certas verdades não podem ser revogadas por nenhum presidente da República, nem mesmo o maior dos estadistas desde as caravelas. Uma delas informa que não existe colheita sem plantio.
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Qualquer período de crescimento mais agudo será necessariamente precedido de anos de ajustes nas contas públicas, no aparelho de Estado, no organismo nacional. Sem isso, um soco na mesa é apenas o fundo sonoro da bravata.