Do Estadão
.
.
Apareceu um novo lance na guerra interna do governo Lula sobre o comando da Radiobrás, estatal que controla três emissoras de TV, seis estações de rádio e um site de notícias. No fim de semana, o jornalista Bernardo Kucinski, ex-assessor do Planalto, encarregou-se de trazer a polêmica a público, divulgando no site Carta Maior um artigo com críticas à gestão de Eugênio Bucci, presidente da Radiobrás que decidiu deixar o posto a partir de 2007.
.
.
O alvo de Kucinski é a cobertura da Radiobrás que, longe do jornalismo chapa branca que marca sua história, teve uma postura equilibrada durante o primeiro mandato. Noticiou greves de funcionários, fez denúncias de meio ambiente e acumulou 3.500 reportagens sobre a crise do mensalão, aquele evento que, conforme a cartilha do PT, é uma 'construção jornalística'. Para Kucinski, a Radiobrás fez uma 'comunicação estatal que tem vergonha de ser estatal'. Ele também acusa a Radiobrás de não ter aproveitado a chance de 'contextualizar e hierarquizar melhor os fatos'.
.
Como sabe toda pessoa que já ouviu A Voz do Brasil, a Radiobrás sempre se ocupou em 'contextualizar e hierarquizar melhor os fatos' conforme o ponto de vista de quem está no governo - isso desde o Estado Novo. A discussão em curso no governo Lula situa-se na fronteira que separa o uso do Estado como aparelho de propaganda ou como instrumento para assegurar uma informação de qualidade à população.
.
.
Como sabe toda pessoa que já ouviu A Voz do Brasil, a Radiobrás sempre se ocupou em 'contextualizar e hierarquizar melhor os fatos' conforme o ponto de vista de quem está no governo - isso desde o Estado Novo. A discussão em curso no governo Lula situa-se na fronteira que separa o uso do Estado como aparelho de propaganda ou como instrumento para assegurar uma informação de qualidade à população.
.
'O Estado brasileiro sempre fez proselitismo, embora isso seja errado e até proibido por lei', afirma Bucci. 'Nossa gestão abandonou esse comportamento, para produzir informações de interesse do cidadão.'
.
.
Meses depois da posse de Lula, 20 mil servidores se uniram em Brasília para protestar contra a reforma da Previdência. Em seu noticiário, A Voz omitiu o protesto e registrou que 'um grupo de servidores' fora a Brasília fazer sugestões para 'melhorar a reforma'. 'Tivemos de mudar o projeto editorial. Não há lei que diga que nosso papel deve ser de relações públicas', afirma Bucci.
.
.
Embora faça um noticiário a anos-luz do que se conhecia no passado, a Radiobrás não divulgou as fotos do dinheiro destinado a comprar o dossiê Vedoin. A explicação é que suas regras internas impedem a divulgação de informações de fonte anônima - e, oficialmente, as fotos do dinheiro não eram chanceladas por ninguém.
.
.
Conhecido pelo respeito às formalidades - ele criou norma interna que obriga os funcionários da empresa a trabalhar de gravata -, Bucci marcou sua gestão por uma postura profissional. Elevou o número de funcionários contratados por concurso e foi ao mercado preencher cargos executivos. Alguns resultados apareceram. Há quatro anos, 700 emissoras de TV espalhadas pelo Brasil reproduziam o noticiário da Radiobrás. Este número agora passa de mil.
.
Diariamente, 2 mil emissoras de rádio divulgam um pacote de reportagens preparado pela emissora - serviço criado em sua gestão. Em 2004, o site da Agência Brasil teve um pico de 2 milhões de acessos num dia, número equivalente ao que se atingia durante um mês.
.
.
Diariamente, 2 mil emissoras de rádio divulgam um pacote de reportagens preparado pela emissora - serviço criado em sua gestão. Em 2004, o site da Agência Brasil teve um pico de 2 milhões de acessos num dia, número equivalente ao que se atingia durante um mês.
.
Kucinski escreveu que, numa cobertura de 'caráter metafísico', a Radiobrás não produziu 'uma narrativa própria do governo Lula', raciocínio que leva à defesa de um noticiário politicamente dirigido.
.
.
'O governo não pode dirigir o noticiário', afirma Bucci. 'Governo é fonte e alvo de investigação. Deve ser fiscalizado e deve dar respostas.'
.
.
Em 2002, Kucinski chegou a ser cogitado para a presidência da Radiobrás. Foi preterido por Bucci, nomeado por Lula. Quatro anos depois, o ambiente é outro. A crítica de Kucinski integra um coro de petistas de vários escalões que depois da reeleição querem um terceiro turno contra a imprensa.
.
.
'Nenhuma distorção que possa ter ocorrido na iniciativa privada pode levar a uma contra-distorção da parte do Estado, que não pode abandonar o compromisso de servir ao cidadão', afirma Bucci.