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A proposta de governo de coalizão, tão alardeada atualmente, possui um viés pragmático que deveria ser, mais propriamente, denominado de fisiológico. O pragmatismo pode corresponder a um realismo na política que não necessariamente exclua idéias e projetos em torno dos quais se articula. Sem-idéias, ele resvala para a simples e pura negociação de cargos e benesses dos mais diferentes tipos.
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O presidente Lula e os seus ministros, após a eleição, não cessam de produzir factóides midiáticos, como se algo de novo estivesse sendo feito. A promessa de um crescimento de 5% para o ano de 2007 e mesmo um percentual maior para os seguintes surgiu de um dos tantos arroubos presidenciais, vendendo a imagem de uma proposta séria. Uma análise de seu comportamento posterior e dos discursos de seus ministros mostra a ausência de uma proposta séria, sem que, no entanto, eles abandonem a mídia, encenando o que não estão fazendo. Há uma irresistível propensão para a fala vazia, como se palavras ao léu fossem o substituto de um discurso articulado, fundamentado em projetos consistentes.
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O que tem sido privilegiado é o discurso ancorado em símbolos, tendo como objetivo uma melhor preservação do poder. Anunciar o crescimento econômico como meta a ser imediatamente alcançável, sem que as suas condições sejam enfrentadas, tais como a diminuição dos gastos correntes do Estado e uma verdadeira reforma da previdência, soa como música apenas para os que não querem ouvir. Lula procura assim mostrar que está fazendo algo novo em seu segundo mandato e os seus porta-vozes correm para aparentar que esse objetivo está sendo implementado. Não esqueçamos que os cargos de ministros dependem, agora mais do que antes, do que aparentem fazer, pois o novo ministério funciona como uma espada de Damócles sobre suas cabeças. De tanto correrem de um lado para outro, terminam dando a imagem de uma completa confusão governamental. O que está verdadeiramente em questão é que o poder seja preservado de eventuais iniciativas da oposição, que poderiam se traduzir, por exemplo, em CPIs ou em vitória dos partidos adversários na disputa pela presidência do Senado.
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O pragmatismo que está sendo demonstrado não deixa, porém, de ter um lado positivo, na medida em que Lula não está utilizando os mecanismos populistas e carismáticos que exibiu na campanha eleitoral. No segundo turno, mais particularmente, a esquerdização de sua conduta sinalizou uma volta do antigo programa petista, com apoio direto do MST e dos grupos mais à esquerda no partido. Terminada a refrega, houve uma certa serenização do ambiente político, com o discurso sobre a coalizão primando sobre o da “luta de classes” ou o do combate contra as “elites conservadoras”. Contudo, esse pragmatismo é exclusivamente voltado para o fortalecimento do poder de Lula e de seu partido, não se traduzindo por nenhuma renovação do ponto de vista das idéias. Uma “social-democratização” petista nos moldes europeus parece não fazer parte da agenda, como a que se fez com Felipe Gonçalves na Espanha ou, mais próxima de nós, a que se realizou na experiência socialista chilena.
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O exemplo paradigmático é a negociação com o PMDB. Não há nenhum eixo programático nessa aliança partidária. Dá dó observar as tentativas de apresentar essas negociações como se tivessem alguma sombra de idéias. O documento apresentado para justificá-la é de uma generalidade atroz, feito sob medida para tentar afugentar a pecha de fisiológico. As alas governista e oposicionista, agora chamada de “neo-lulista”, se digladiam sem parar pela conquista de ministérios e postos privilegiados nas empresas estatais. Um procura mostra mais poder do que o outro apenas para poder conquistar uma fatia maior do botim. O apetite parece não ter limites, enquanto idéias do que deveria ser feito no país somem do horizonte.
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Do ponto de vista governamental, a exclusiva preocupação consiste no que o presidente e seus ministros chamam de governabilidade. A expressão não deixa de ser reveladora, pois o Brasil não tem tido nenhum problema de governabilidade, nem institucional. O único problema grave que teve foi o produzido pelo próprio governo e por seu partido que propiciaram o surgimento, no dizer do Procurador-Geral da República, de uma “sofisticada organização criminosa” que assaltou os cofres públicos. O problema foi muito mais policial do que político, embora tenham se amalgamado. Logo, quando o PMDB é chamado a fazer parte da coalizão governamental, o objetivo desse convite reside em evitar problemas como CPIs ou a aprovação de leis que permitam ao governo fazer passar algumas de suas propostas, inclusive aquelas que permitiriam um maior controle da imprensa, segundo consta das propostas do PT, apresentadas com o eufemismo de “democratização dos meios de comunicação”. O pragmatismo exibido é, lamentavelmente, o da repetição do fisiologismo que já caracterizou o primeiro mandato, com outros e, inclusive, os mesmos protagonistas.