quinta-feira, dezembro 21, 2006

Congresso refém da insanidade

por Villas-bôas Corrêa, no Jornal do Brasil
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Pela primeira vez em 58 anos de militância como repórter político, tenho vergonha do Congresso. Mais do que vergonha: asco, repugnância, nojo. Não por um escândalo a mais ou a menos no Legislativo que se esqueceu que é um dos três poderes da República e parece empenhado na disputa consigo mesmo do torneio suicida de piorar a cada legislatura. Mas pela vexaminosa originalidade que ornamenta um assalto aos cofres públicos pela iniciativa e responsabilidade das Mesas Diretoras do Senado e da Câmara, do colégio dos líderes que representam as bancadas dos seus partidos e o regozijo debochado da quase unanimidade do plenário.
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As exceções de sempre se conta pelos dedos: senador Jefferson Peres, deputados Chico Alencar, Fernando Gabeira, Raul Jungmann, Roberto Freire, Carlos Sampaio, com vagas abertas para possíveis adesões.
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Por enquanto não é possível prever o desfecho das várias ações encaminhadas ao Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar derrubar o reajuste de escabrosos 90,7% dos subsídios dos 81 senadores e 513 deputados federais. Nem é o caso de relembrar a lista das bandalheiras da abjeta legislatura que agoniza nos arranques finais da sua desmoralização no lamaçal do dossiê, do caixa 2, do mensalão, dos sanguessugas da compra de ambulâncias superfaturadas e as fraternas ligações com a cúpula do governo.
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Uma evidência entra pelos olhos dos que arregalam as botucas para enxergar o que está a um palmo do nariz: estamos longe do ponto final da novela pornográfica. E o enredo não promete acabar bem.
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O mais provável é que os parlamentares, com os fundilhos queimando na fogueira da indignação popular acabarão arriando a trouxa. Os sinais à vista são insatisfatórios, como quem apalpa o terreno antes de desfechar o bote. O presidente da Câmara, deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), emparedado pelo comprometimento com a entusiástica decisão da cúpula dirigente do Congresso, joga a carcaça podre de reses mortas para distrair as piranhas e atravessar o rio com a boiada. E expôs o fundo do quintal de mordomias pouco visíveis, como os carros de luxo para 11 privilegiados; os subsídios extras pagos no início e no final do ano, a extinção de 1.143 cargos de natureza especial e a criação de uma comissão para fixar o teto para os vencimentos do funcionalismo público.
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Balde de água suspeita para apagar o incêndio de proporções amazônicas.
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Desta vez, a última palavra caberá à reação popular. E que começou com ímpeto e promete inflar a cada manobra para manter o indefensável. Esposas de militares à porta do Congresso empunhando faixas de protesto, sindicalistas anunciando passeatas, ações populares abertas às adesões antecipam o que rola pelas esburacadas rodovias da indignação.
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Pelo menos uma etapa é de previsão elementar: enquanto o Congresso não desatar o nó em que se enroscou, será refém da sua insanidade: cada passeata que ocupar os seus corredores e tribunas ou acampar na Praça dos Três Poderes exigindo reajustes salariais não se conformará com a negativa do Legislativo sem autoridade moral para negar aos outros o que se autoconcedeu.
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E o Palácio do Legislativo é de vidro.
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Para manter a fervura da raiva, fiz algumas contas que repasso aos leitores, do que deverão embolsar os parlamentares, com os reajustes, nos dois períodos de atividade: de 15 de fevereiro a 30 de junho e de 1° de outubro a 15 de dezembro, sem os descontos de feriados e dias santificados. Às parcelas: 15 subsídios de R$ 24,6 mil: R$ 369 mil; verbas indenizatórias (12) de R$ 15 mil: R$ 225 mil; verba de gabinete, R$ 50.815 x 15: R$ 752.250; passagens aéreas, em média: R$ 237.600; auxílio moradia, 12 de R$ 3 mil: R$ 36 mil; caixa postal e telefônica, média de R$ 4.268: R$ 51,216. Total: R$ 274.997.216.
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Como todo mundo sabe, a semana útil dos parlamentares começa às tardes das terças e termina às quintas-feiras, a tempo de pegar o avião para o fim de semana nos lençóis domésticos. Este ano, contados na folhinha, sem descontos, os dias úteis encolheram para 48 no primeiro período e 49 dias no segundo que expira entre suspiros de vexame.
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Segurem-se para evitar a queda: os R$ 274.997.216 divididos pelos 97 dias úteis informam para a edificação nacional que os parlamentares, no próximo ano, com o reajuste dos subsídios deverão ganhar R$ 12.546 por cada tarde de presença na Câmara e no Senado.