quarta-feira, dezembro 06, 2006

Os lábios de Amorim

Por Sebastião Nery, na Tribuna da Imprensa
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Desde governador de Minas, Juscelino tinha o hábito de telefonar cedo, muito cedo, para seus auxiliares. Pascoal Carlos Magno, diplomata, anjo e príncipe da cultura brasileira, diretor da Casa do Estudante do Brasil e fundador de teatros, era assessor cultural de JK na presid6encia da República.
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Uma manhã bem cedo Juscelino ligou para a casa de Pascoal, que tinha ido dormir muito tarde:
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- Pascoal, aqui é o Juscelino.
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- Vá à merda.
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Bateu o telefone e continuou a dormir. Juscelino levou um susto, pediu a Geraldo Carneiro para ver o que estava acontecendo. O gentil e educado Pascoal tinha pensado que era trote. Juscelino entendeu e contava a história.
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Castelo Branco
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O telefone tocou na casa de Genaro de Carvalho, famoso tapeceiro da Bahia e britânico no humor, que morava no Campo Grande, em Salvador:
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- O senhor Genaro está? Aqui é o Castelo Branco.
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- Que Castelo Branco? O pai de todos nós, lá de Brasília? Detesto trote.
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- Não é trote não, seu Genaro. Estou aqui em Salvador, hospedado no Palácio da Aclamação, bem perto de sua casa, e gostaria que o senhor escolhesse um tapete seu e me trouxesse, pois quero adquirir.
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- Eu sei, seu Castelo, que o senhor é quem manda. Mas não vou não. Quem quer meus tapetes vem comprar aqui. Procure um trote mais inteligente. Daí a pouco, um Cadilac preto parou em frente à casa de Genaro. Era o governador Lomanto Junior, que tinha ido comprar um tapete para o presidente Castelo Branco, hospedado ali bem junto, no Palácio da Aclamação.
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Genaro vendeu o tapete e pediu a Lomanto que pedisse desculpas a Castelo. Ele tinha pensado que o telefonema era de Jorge Amado, que tinha a mania de passar trotes telefônicos nos amigos.
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Dom Newton
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Padre Godinho, deputado da UDN, da Arena e do MDB, cassado pelo AI-5, imitava perfeitamente as vozes alheias. Uma noite, já tarde, toca o telefone no apartamento do padre Nobre, do MDB de Minas, em Brasília:
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- É o senhor padre Nobre? Padre Nobre, aqui é dom José Newton, arcebispo. Li nos jornais que o senhor está na Comissão de Orçamento da Câmara e estamos precisando de ajuda para as obras de assistência aos menores da arquidiocese. O senhor poderia providenciar uma verba?
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- Pois não, senhor arcebispo, com todo o prazer.
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- Muito obrigado, padre. E receba minha bênção episcopal.No dia seguinte, na Câmara, padre Godinho encontra padre Nobre:
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- Nobre, sonhei com você, à beira da cama, recebendo uma bênção.
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Padre Nobre ficou uma fera. Um mês depois, de manhã bem cedo, toca o telefone no apartamento do Padre Nobre:
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- É o senhor padre Nobre? Aqui é dom José Newton, arcebispo.
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- Vá à puta que o pariu, seu arcebispo de merda!
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E desligou. À tarde, chega ao gabinete do padre Nobre, na Câmara, monsenhor Ávila, secretário do arcebispo:
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- Padre Nobre, o que houve hoje cedo durante um telefonema do senhor arcebispo para o senhor, que ele passou mal logo que desligou o telefone?
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Padre Nobre ligou aflito para o arcebispo, contando a história do trote de padre Godinho e pedindo desculpas. Dom José Newton ouviu e desculpou:
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- Está explicado, padre Nobre. Bem vi que havia alguma coisa errada. Mas, padre Nobre, que linguajar pouco nobre nos lábios de um sacerdote!
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Celso Amorim

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Piores são os lábios do ministro Celso Amorim. Ninguém entendeu o telefonema gratuito, antidiplomático, grosso, mal educado, estúpido, do ministro Celso Amorim para o embaixador em Lisboa Paes de Andrade, demitindo-o de sopetão, dando o nome do substituto e "ordens para obedecer imediatamente". Repetia o que fez com o embaixador Abdenur, de Washington, que, segundo Elio Gaspari, ele "demitiu com um telegrama de motorista".
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Mas no Ceará não tem disso não. Pego de surpresa, Paes de Andrade só teve tempo de mandar o ministro procurar o que fazer, gritar-lhe no ouvido uma "pedra 90", como se diz lá na Bahia, e bater o telefone. O presidente do Senado, Renan Calheiros, comunicou a Lula que Amorim esqueceu que ninguém nomeia embaixador sem o Senado aprovar e o Senado não concorda.
Lula, como sempre, disse que não sabia de nada, que Amorim havia "atropelado" e chamaria Paes para uma conversa. Este ano não há mais tempo para a Comissão de Relações Exteriores e o Senado aprovarem um novo nome. Só depois de 15 de fevereiro. E o "candidato" de Amorim ficou queimado.
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Depois de passar 17 anos puxando o saco de Paes, pedindo e ganhando o voto dele em todas as eleições, Lula não teve sequer a gentileza de mandar uma secretária ou assessor dar um telefonema para Paes. São uns grossos.
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Ciro
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Quem entende desse governo é Ciro Gomes: "A compra do dossiêfoi uma patuscada dos aprendizes de mafiosos do PT de São Paulo... O presidente Lula não pode ser feito de palhaço no Brasil e no Ceará... A Petrobras fez patrocínios culturais e políticos imorais, picaretagens".