quarta-feira, dezembro 06, 2006

Trapalhada desnecessária

Por Carlos Chagas, na Tribuna de Imprensa
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BRASÍLIA - Imprevista pedra apareceu no caminho do presidente Lula na tentativa de assegurar maioria parlamentar a partir do apoio do PMDB. Pedra por enquanto capaz de ser afastada com as mãos, mas que se não for logo removida exigirá uma pá mecânica. Senão em pé de guerra, os senadores do PMDB cuidam de infligir desagradável derrota ao governo.
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Tudo começou com a grosseria praticada pelo chanceler Celso Amorin, por telefone, contra o embaixador do Brasil em Portugal, Paes de Andrade, presidente de honra do PMDB. Do jeito que as coisas se passaram, fica impossível supor o presidente sem saber de nada. Se não autorizou o episódio, ao menos dele participou. É claro que depois de quatro anos em Lisboa Paes percebeu estar se encerrando sua missão.
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Mas recebeu áspero telefonema de Celso Amorin, determinando-lhe entregar ao governo português o pedido de agreement de seu substituto, o embaixador Celso Marcos Vieira de Sousa. Essa prática não é usual. Esses pedidos são feitos de governo a governo, tanto que o documento em curso estava assinado pelo presidente Lula.
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Paes insurgiu-se e disse ao ministro das Relações Exteriores que não serviria de portador da própria demissão. Havia sido convidado para embaixador pelo presidente Lula e aguardava do presidente Lula a sua dispensa. Celso Amorim enviou diretamente ao presidente de Portugal o pedido de indicação do novo embaixador, evidentemente assinado pelo presidente, que até ontem não havia telefonado a Paes de Andrade, no mínimo para agradecer seus serviços.
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Uma questão menor, dos meandros da diplomacia? Seria, caso Paes de Andrade não fosse o presidente de honra do PMDB. Imediatamente ele recebeu a solidariedade dos senadores do partido, de Renan Calheiros a José Sarney, de Pedro Simon a Mão-Santa, entre muitos.
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Os senadores, por enquanto, mostram-se dispostos a não marcar data para a sessão onde, pela Constituição, o novo embaixador deve ser sabatinado. Pior, alguns sustentam deva a indicação ser rejeitada. Seria, para Lula, uma crise, com derrota de sérias conseqüências. A ministra Dilma Rousseff reconheceu a trapalhada e tenta superá-la, mas como? Não se admite no Itamaraty um pedido de desculpas por parte de Amorim.
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O presidente não deseja desprestigiar seu chanceler, não tendo até agora procurado falar com o ainda embaixador Paes de Andrade. Este se mantém isolado na embaixada, deixando de ir a compromissos diplomáticos. Enfim, uma trapalhada desnecessária...
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Sem tutela
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O que pretendem PT e PMDB, procurando aliar-se para eleger o novo presidente da Câmara? Sentem necessidade de demonstrar serem maiores de idade. Que dispõem de personalidade e independência necessárias para tratar de seus negócios. Reagem à ingerência de Lula, esmaecida, de impor a reeleição de Aldo Rebelo. Não se trata de uma rebelião contra o Planalto.
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Ao contrário, estão antecipando a aliança parlamentar, antes que o presidente termine as costuras em torno da coalizão. O PT deve formalizar, amanhã, a candidatura de Arlindo Chinaglia, e o PMDB decidirá entre a apresentação de um nome próprio e o apoio ao petista. Esse raciocínio explica a cautela com que Lula passou a referir-se à disputa, depois de convencido da influência de poder reeleger Aldo.
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Terá motivos para inquietar-se, porque se o seu futuro pano-de-fundo já começa assim, cada projeto que enviar ao Congresso passará pelo crivo da opinião de suas bases. Pratos-feitos poderão ser rejeitados, fazendo malograr a monolítica base que tenta construir. PT e PMDB querem passar a impressão de unidade com o governo, mas estão delimitando espaços. Tudo pode mudar. Renovadas, as bancadas de aliados precisam demonstrar personalidade.
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Chávez
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Muda alguma coisa para nós? Nada. Afinal, Chávez se viu reeleito, como Lula. Mudará o ministério, como Lula. O venezuelano continuará hostilizando retoricamente os Estados Unidos mas manterá intactos os contratos de fornecimento de petróleo. Nós, que nem hostilizamos os gringos, da mesma forma vamos continuar fazendo tudo o que eles quiserem. Só o futuro dirá de uma diferença capaz de tornar-se fundamental, se continuar mesmo diferença: Chávez envia ao Congresso projeto de emenda constitucional permitindo-lhe disputar terceiro, quarto e até quinto mandato. Aqui no Brasil, pelo menos até agora...