quarta-feira, dezembro 06, 2006

TOQUEDEPRIMA...

Federais estudam implantar ciclo básico e fim do vestibular
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SALVADOR - Reitores, diretores e professores das 57 Instituições Federais de Ensino Superior do Brasil (Ifes) e representantes do Ministério da Educação (MEC) devem apresentar hoje, em Salvador, um projeto de reestruturação do ensino superior conhecido como Universidade Nova. Pela proposta, estudantes seriam admitidos com base na nota no Exame Nacional de Cursos (Enem). Além disso, o curso superior teria uma formação básica de três anos sobre áreas como saúde, artes e humanidades, que seria chamada de Bacharelado Interdisciplinar (BI). Seria o fim da formação específica desde o primeiro ano.
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O 1º Seminário Nacional da Universidade Nova - Reestruturação da Arquitetura Acadêmica da Educação Superior no Brasil começou ontem e foi marcado por manifestação de estudantes contrários às mudanças. A proposta final será apresentada aos conselhos reguladores do ensino superior no Brasil, o Conselho Universitário (Consuni) e o Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão (Consepe).
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"Depois de três anos, o estudante torna-se bacharel na área escolhida e tem a opção de continuar a graduação em áreas específicas", explica um dos principais criadores da proposta, Naomar Almeida Filho, reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), ao defender a idéia do ciclo básico.
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Ele aponta como outra vantagem o fim da precocidade na escolha profissional, a volta da cultura como eixo na formação universitária e a reintrodução do Brasil no meio do ensino superior internacional. "O que estamos propondo já é aplicado em algumas das melhores universidades do mundo."
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A proposta tem o apoio de outras 11 instituições federais - entre elas a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Federal do Ceará (UFC) - que contribuem na elaboração do projeto - e do próprio MEC. "Trabalhamos em uma perspectiva acadêmica antiga, ultrapassada para as demandas da sociedade de hoje, que exige mudanças", afirma o secretário-executivo do MEC, Manuel Palácios.
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Ele conta um problema relativo à estrutura atual do ensino superior que sofreu em família - e que não existiria caso o Universidade Nova já funcionasse. "Meu filho prestou vestibular para Economia, passou, mas não gostou do curso", lembra. "A saída foi ele trancar a matrícula e voltar a fazer cursinho para prestar vestibular para Direito - tudo isso na mesma universidade."
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Oposição
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Enquanto representantes das instituições e do MEC apresentavam os pontos da proposta a seus colegas no seminário, do lado de fora da sala de conferências do Hotel Mercury, representantes do Diretório Central dos Estudantes da UFBA (DCE) distribuíam panfletos e conversavam com os pedestres sobre os pontos negativos do projeto.
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"A Universidade Nova tem um problema central: apesar de atrair mais alunos para os Bacharelados Interdisciplinares, não dá condições às instituições de ensino para formar mais pessoas nas carreiras profissionalizantes", diz Rafael Bastos, do DCE. "Se o estudante é bacharel em uma área do conhecimento e não consegue vaga em um curso profissionalizante, como vai para o mercado de trabalho?"
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Alguns professores também temem efeitos negativos da proposta. "Se houver mais ingresso de estudantes nas instituições, é possível que a qualidade dos cursos, de forma geral, caia", acredita um docente da faculdade de Física da UFBA que preferiu não se identificar.
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De acordo com o reitor da universidade, essas dúvidas serão eliminadas até a elaboração final do projeto. "Ainda não chegamos a um acordo, por exemplo, sobre como vamos promover a passagem dos estudantes dos BIs para os cursos profissionalizantes", conta Almeida Filho. "A questão da qualidade de ensino não está tão ligada à relação professor por aluno, mas à grade curricular dos cursos."
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O que pode mudar
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Estrutura acadêmica
Nos três primeiros anos de curso, os alunos freqüentariam Bacharelados Interdisciplinares (BIs), divididos por áreas de conhecimento - ciências, artes, humanidades, tecnologia. Após a conclusão, o estudante receberia o diploma de bacharel na área e poderia optar por fazer complementação profissionalizante, bacharelado ou licenciatura em uma disciplina específica ou pós.
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Benefícios
Ampliação de conhecimentos e competências cognitivas, adiamento do processo de escolha profissional e flexibilização curricular.
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Problemas
Ao fim do BI, o estudante teria um diploma de curso superior, mas não estaria apto a ingressar no mercado de trabalho em profissões que exigem formação superior específica (Medicina, Engenharia e Direito, por exemplo), não há garantia de que ele consiga vaga para continuar os estudos.
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Vagas
Como nos BIs estudantes de várias carreiras acompanham as mesmas aulas, tende a crescer o número de vagas durante os três primeiros anos do ensino superior.
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Seleção

Os estudantes seriam selecionados pela nota no Enem. Como não está prevista a ampliação da estrutura física das universidades, ainda não se sabe como vai ser a seleção dos alunos para os cursos após os BIs. As vagas poderiam ser preenchidas pelos alunos com melhores notas.