quarta-feira, dezembro 06, 2006

A vanguarda do retrocesso

Por Reinaldo Azevedo
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Lula participou hoje da entrega do Prêmio Innovare — falo dele daqui a pouco — e, quem diria?, reclamou da lentidão da Justiça. Foi na parte informal do discurso. Na formal, a lida, elogiou o Poder e a Criação do Conselho Nacional de Justiça. Mas sabem como é: deixa o homem improvisar. Não fosse assim, o Conselheiro Acácio não teria recebido de Sua Majestade a enésima homenagem: “Toda vez que a gente tiver que tomar uma atitude, a gente tem que pensar em todas as regras legais. Mas, se a gente colocar 30 segundos da nossa cabeça para saber que o resultado daquilo pode beneficiar a sociedade como um todo ou pode prejudicá-la, eu penso que as mudanças que nós queremos fazer no Brasil serão muito mais fáceis e os ganhadores serão os 190 milhões de brasileiros". Quando Lula dá aula aos doutores, o céu da razão se ilumina, diria Marxilena Oiapoque.
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Eu posso falar mal do Judiciário. Acho que é até um dever — falar mal de todos os Poderes, na verdade. Você pode, leitor amigo. Jamais se conforme com o Legislativo, o Executivo, o Judiciário, os radicais livres, a oxidação das células, o Bolero de Ravel, as pessoas que varam o sinal vermelho. Mas Lula reclamando da Justiça de novo? Não tenho mais paciência. Quem tem a maioria que ele tem pode encaminhar, se quiser, uma reforma do Judiciário para valer. Por que não encaminha? Vivemos num ambiente em que todos reclamam de e contra todos. Vira uma profissão.
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Não tarda, e Lula vai atribuir ao Judiciário o crescimento medíocre do Brasil. Os juízes terão de dividir esse peso com a ministra Marina Silva e os povos da floresta... É claro que também o presidente da República é assistido pelo direito de reclamar da lentidão da Justiça. Mas a ele cabe tomar a iniciativa de mudar, em vez de perorar.
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“Innovare” é o infinitivo de “innovo” (o verbo aparece no dicionário de latim na primeira pessoa do indicativo) e quer dizer “renovar”. O prêmio é uma iniciativa da Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getulio Vargas, da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), do Ministério da Justiça (Secretaria de Reforma do Judiciário) e do Ministério Público. Contam com o apoio da Companhia Vale do Rio Doce. Vá lá.
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Encantou-me saber que Marcio Thomaz Bastos recebeu um prêmio extra. Pelo conjunto da obra. Como se vê acima, foi o dia em que o Ministério da Justiça premiou o ministro. As inovações de Bastos são inequívocas e inegáveis. A mais notável de que me lembro consiste em proteger da expiação pública gente que tentou fraudar as eleições — como é o caso dos aloprados — e submeter ao corredor polonês donas de butique e assemelhados. É preciso provar que, no Brasil, os ricos também choram... Inovou também quando censurou o que chamou de “tempo político” na investigação do dossiê. Foi originalíssimo quando disse não estar certo da gravidade do caso. Mais ainda quando foram detectadas pegadas do ministério na operação que quebrou o sigilo do caseiro Francenildo. Se inovações faltassem, acabou endossando o coro dos que viam tentações golpistas no debate sobre uma eventual ação de impeachment contra o governo Lula.
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Foi justamente premiada. Paulo Francis — que falta faz! — dizia que um dos principais problemas do Brasil era o “nariz marrom”. Pesquise quem não souber o que isso quer dizer.