sexta-feira, março 23, 2007

Histórias a fundo perdido

Wilson Figueiredo, Jornal do Brasil

Poucas vezes, na história deste ou de qualquer outro país, uma sucessão presidencial terá começado tão cedo quanto a que nos espera em 2010. O segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva ainda não disse a que veio no que faz gosto em votar, mas se desinteressa das conseqüências. Pelo menos em reputação pessoal, o custo do primeiro mandato foi alto, mas Lula se reelegeu com folga. O presidente não desperdiça o excedente de votos com que poderia até abrir conta em banco. O BNDES agradeceria.

Na redonda cabeça presidencial, já deve estar esboçado um programa de aceleração do socialismo do século 21, quando milhões de eleitores não mais verão o futuro por um binóculo de corrida de cavalos. É com este Chávez que Lula quer reabrir as portas da História ao socialismo. É por isso que o primeiro mundo vê a parte de cá como o Extremo Ocidente. Mas que não se limite à distribuição de espelhinhos, pentes e objetos supérfluos a índios, nos quais Jean Jacques Rousseau depositou em vão suas melhores esperanças.

A hipótese de que está em curso a terceira gravidez eleitoral, por baixo da colcha de retalhos ministerial, autoriza a suspeitar que a Constituição passará por uma reforma e ganhará status de casa da sogra. Terá a República saúde democrática para dar conta da terceira gravidez? Voto tem a responsabilidade de eleger, e só. Não pode pagar pelos maus governos. É mais cômodo esquecer que Hitler chegou ao poder pelos votos que teve a mais sobre os outros candidatos. Vencer eleição tem sido apenas o primeiro passo na direção das incertezas.

A conta não fecha. Assim que Lula se elegeu a primeira vez, o feito político ganhou o contorno de ocorrência histórica, desse certo ou desse com os burros n'água. Nem uma coisa nem outra. A história se repetiu à esquerda como fazia à direita. O denominador comum foi o Superávit Primário, reverenciado com iniciais maiúsculas. Digamos que o primeiro ministério morreu pagão e se reconheça que o cidadão, ao reeleger o presidente, deve ter tido razões de que a eleição não faz questão. O segundo ministério vai usar a bata do primeiro na cerimônia do batismo, quando do lançamento popular do Programa de Aceleração do Crescimento, com as sobras do primeiro governo.

O temperamento presidencial tem sido um espetáculo de doçura social e paciência política. Os padrinhos do segundo mandato foram os novos graúdos do PMDB, que se aproveitam do estado presidencial de beatitude cívica. Fartam-se. Lula anda íntimo de todas as ciências, e não sente a menor falta de diploma. Com rigor científico, procura localizar o ponto G no lucro do comércio externo e fazer das relações internacionais com o primeiro mundo um novo prazer.

A terceira gravidez eleitoral do PT ainda não pode ser anunciada. Sequer foi percebida no perfil abdominal do pretendente. Por via das dúvidas, Lula tranca a pauta de 2010 com uma reforma ministerial sem começo nem fim. Enquanto durar, será o presidente-sol. Nenhuma semelhança com presidentes do passado imperfeito. A diferença em relação a Getúlio Vargas está em que, na campanha presidencial de 1937, havia dois candidatos liberais, um integralista correndo por fora e o próprio deixando correr. Como não encontrou solução na Constituição, Vargas criou o precedente por fora e ainda levou debaixo do braço uma Constituição não nascida de Constituinte.

Depois de ficar provado que a História não acabou, Lula parece disposto a demonstrar que ela não tem fim. Sempre recomeça a fundo perdido, mas cheia de esperança.