Valdo Cruz, Folha São Paulo
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Antes do Natal, Lula vestiu o figurino de Papai Noel e mostrou, claramente, que ainda não desceu do palanque eleitoral. Distribuiu benesses a seu eleitorado cativo ao conceder um reajuste para o salário mínimo --subirá em 2007 de R$ 350 para R$ 380-- que sua equipe econômica não aconselhava. Foi além ao definir correção da tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física. Buscou ficar de bem com a classe média, que o vê com desconfiança.
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Antes do Natal, Lula vestiu o figurino de Papai Noel e mostrou, claramente, que ainda não desceu do palanque eleitoral. Distribuiu benesses a seu eleitorado cativo ao conceder um reajuste para o salário mínimo --subirá em 2007 de R$ 350 para R$ 380-- que sua equipe econômica não aconselhava. Foi além ao definir correção da tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física. Buscou ficar de bem com a classe média, que o vê com desconfiança.
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Aparentemente, são medidas até defensáveis. Afinal, R$ 380 de salário mínimo continua sendo um valor muito baixo num país de tantas desigualdades. E corrigir a tabela do IR é uma forma de evitar que o Leão da Receita devore uma fatia maior da renda dos assalariados. Só que tudo isso poderia ser adotado, mas em dose mais parcimoniosa, de forma a evitar maiores pressões sobre o quadro cada vez mais grave das contas públicas. E esse parecia ser o caminho que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva iria adotar pelo menos no primeiro ano de seu segundo mandato.
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Recordo ter conversado, logo após a vitória nas urnas que garantiu a Lula mais quatro anos de mandato, com alguns membros do governo. Gente de primeiro escalão de dentro do próprio Palácio do Planalto e da equipe econômica. O discurso bem afinado era que as bondades do ano eleitoral não se repetiriam no próximo ano. Afinal, se continuassem, ficaria impossível reverter a curva ascendente das despesas públicas, inviabilizando duas medidas consideradas essenciais para a retomada sustentável do crescimento: diminuição da carga tributária e aumento dos investimentos públicos.
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Agora, na reta final do ano, Lula indicou que não quis dar ouvidos a esse grupo de assessores. Preferiu o caminho mais fácil da popularidade, experimentado ao longo desse ano, com adoção de medidas de grande repercussão eleitoral. Tanto que lhe garantiram a reeleição. O que o presidente parece não estar enxergando é que essas bondades distribuídas antes do Natal podem se transformar, num futuro próximo, num verdadeiro presente de grego.
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Hoje, ele ganhará os aplausos de boa parte de seu eleitorado. No futuro, pode ser condenado pelos filhos de seus eleitores quando descobrirem que a Previdência Social brasileira simplesmente quebrou diante da falta de coragem do atual presidente em tentar desarmar essa bomba-relógio. E, no curto prazo, o próprio Lula poderá sentir o gosto da impopularidade no final de seu segundo mandato, já que suas bondades de hoje estão reduzindo o espaço para aliviar a carga tributária das empresas de amanhã, podendo ainda sacrificar o seu tão desejado plano de elevar o investimento público.
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Em resumo: Lula opta hoje por medidas positivas, mas que não são sustentáveis no médio prazo. E põe em risco a possibilidade de o país escapar de sua história recente de taxas medíocres de crescimento. Não será o setor público que impulsionará, como no passado, a economia brasileira. Mas o privado. O presidente ainda não compreendeu essa equação.
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Dados para reflexão
Enquanto os investimentos públicos caíram de 1% do PIB (Produto Interno Bruto) em 1997 para cerca de 0,6% no ano passado, os gastos públicos saltaram, no mesmo período, de 15% para quase 19% do PIB. Resultado de uma política que podou investimentos em infra-estrutura, por exemplo, em benefícios de gastos previdenciários e de pessoal. O saldo está por aí: funcionários públicos e aposentados contentes com o presidente; estradas, portos e ferrovias operando de forma deficitária.
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Dados para reflexão
Enquanto os investimentos públicos caíram de 1% do PIB (Produto Interno Bruto) em 1997 para cerca de 0,6% no ano passado, os gastos públicos saltaram, no mesmo período, de 15% para quase 19% do PIB. Resultado de uma política que podou investimentos em infra-estrutura, por exemplo, em benefícios de gastos previdenciários e de pessoal. O saldo está por aí: funcionários públicos e aposentados contentes com o presidente; estradas, portos e ferrovias operando de forma deficitária.
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Para sustentar esse apetite do governo federal, a carga tributária só fez subir desde o início dos anos 90. Saiu de 29% do PIB em 1995 para chegar na casa dos 38% no final do ano passado. Enquanto isso, o Brasil amarga o décimo-primeiro ano de crescimento econômico abaixo da média mundial. Pior. Pelo segundo ano o PIB brasileiro vai crescer cerca da metade do mundial. E para quem acha que a Previdência Social não é um grande problema, basta dar uma olhada nesses números: as despesas previdenciárias subiram de 6% do PIB em 2000 para uma taxa estimada nesse ano de 8,1% do PIB. Por sinal, o país vai terminar o ano gastando mais com a Previdência do que com juros --os 8,1% contra 7,7% em pagamento para refinanciar a dívida pública.
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Cidades
Lula deve realmente deixar para o próximo ano a remontagem de seu ministério, mas indicou a permanência de Márcio Fortes nas Cidades dentro da cota do PP no seu governo de coalizão. Na semana passada, ao receber parlamentares pepistas, o presidente fez elogios rasgados ao atual ministro. A bancada aplaudiu.