domingo, dezembro 31, 2006

Sem título

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa
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É do fundo do coração que me dirijo ao menino de 6 anos que perdeu sua mãe, hoje, ao caminhar de mãos dadas com ela pela Praia de Botafogo.
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Sua mãe não estava com você em lugar ermo, escuro, em hora imprópria. Sua mãe passava com você, em plena luz do dia, perto de uma cabine da Polícia Militar e por isso foi morta. Ao ouvir os tiros, ela abraçou você com força e disse: “abaixa, meu filho, e desmaiou”. Foi assim que você descreveu para sua tia a reação de sua mãe. Ela desmaiou, e você ficou sem mãe.
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Será que algum dia você nos perdoará? A nós, adultos, cidadãos, eleitores, contribuintes, que vemos nossa cidade se esvair nas mãos de políticos sem alma, sem pudor, sem compostura? E que não fazemos nada? Nem sequer exigimos mais policiamento, a tal da Guarda Nacional que se faz necessária há tanto tempo e que está sendo treinada e preservada para o PAN? Chamá-la agora para quê? Para guardar um menino de 6 anos?
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Espero que você consiga encontrar o caminho do perdão. Peço com fé, ao Menino Jesus, que o seu caminho seja bom e que seu coração reflita essa bondade e que você possa viver sem ódio, com a alminha em paz. Espero que você não sinta, minorada a dor que hoje começa a sentir e que não passará, a vergonha, a raiva, o ódio que estou sentindo, de mim, da vida, do mundo, de tudo.
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Esse ‘des-país’ onde você nasceu não honrou a suprema felicidade de ter entre os seus habitantes mais um menino de 6 anos, feliz, com sua mãe, passeando com ela, de mãos dadas, pela Praia de Botafogo, Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 2006, durante a administração de um prefeito chamado César Maia, o governo estadual de um casal chamado Garotinho, e o governo federal, reeleito, do senhor Luis Inácio Lula da Silva, fundador do Partido dos Trabalhadores.
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Menino de 6 anos, perdão. Perdão por tudo que não foi feito para preparar esta cidade e este país para acolher melhor a sua vidinha que mal se inicia. Perdão, brasileirinho de 6 anos. Perdão!