domingo, dezembro 31, 2006

Que ano…

Por Pedro Doria, em NoMínimo
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É hábito da imprensa, a cada fim de ano, fazer uma retrospectiva, um balanço do que foram aqueles trezentos e tantos dias que passam. Por vezes, vêm também prospectivas. Se tornamos ao fim de 2005, havia expectativa de tudo quanto é tipo para o 2006 que entrava.
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Dois mil e seis foi daquele tipo de ano em que o inesperado torna.
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Ariel Sharon já estava doente e ninguém esperava que ele voltasse a si. Mas a vitória do Hamas na eleição palestina e a do Kadima, na israelense, eram esperadas. Alguns – este blogueiro incluso – imaginavam que, no governo, sem dinheiro, o Hamas ficaria mais brando. A verdade é que nem importava muito: o resultado seria que, independentemente do que decidissem os palestinos, Israel seguiria as diretrizes deixadas por Ariel Sharon.
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Quer dizer: Gaza esvaziada, assentamentos na Cisjordânia começariam – talvez lentamente – a serem evacuados. O programa era deixar os palestinos isolados, sem ter do que reclamar, forçá-los a declarar um país com o qual Israel pudesse lidar sem ter de carregar o peso de qualquer responsabilidade de jurisdição.
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Mas aí o Hamas raptou um soldado israelense e umas negociações meio complicadas tiveram início. Então o Hizbolá, na fronteira libanesa, fez o mesmo.
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De repente Israel estava atacando o Líbano. De repente era uma guerra de grande escala. De repente era uma coisa insana: estavam colocando o Líbano não de joelhos mas, pior, estavam pondo o país abaixo. Destruíram parte da infra-estrutura que levará uma década para ser reposta.
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Ninguém jamais poderia imaginar que, em 2006, caças israelenses poderiam estar bombardeando Beirute. Foi um ano estranho, muito estranho.
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Como poucos poderiam imaginar que os EUA se transformariam, no Iraque, em personagens secundários. Mas quando um grupo sunita, ainda em janeiro, explodiu o principal santuário xiita – a Mesquita onde se escondeu o último imame –, de repente aquilo já não dava para ser chamado de uma luta contra o invasor.
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É curioso que a imprensa mundial ainda se debata a respeito de qual o nome: é uma Guerra Civil.
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Uma guerra pelo poder no Iraque entre sunitas e xiitas, com os curdos do norte se afastando em busca de, mais que autonomia, independência total. Existe quem ventile a proposta de criar três países, um para cada etnia. Artificial, não seria: artificial foi o Iraque, traçado a esmo entre o Tigre e o Eufrates por nostalgia britânica que imaginavam que a Mesopotâmia renasceria. São, curdos, sunitas e xiitas, diferentes demais e, aparentemente, intolerantes uns com os outros.
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O entrave da opção por três Estados é o petróleo, mas já há acordos na mesa que sugiram fórmulas de divisão da renda.
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Enquanto isso, em Washington, a pressão é por algum tipo de mudança: tirar os homens, levar mais homens, aumentar a ocupação por cinco anos, sair de lá antes que seja tarde.
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George W. Bush termina 2006 com seu tamanho real enquanto estadista: mínimo. É um homem pequeno. Ainda ontem, o Washington Post divulgou uma entrevista embargada até sua morte na qual o ex-presidente Jerry Ford falava horrorizado da idéia de invadir o Iraque. Ford destroçava Bush e seus ex-discípulos, Rumsfeld & Cheney.
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Bush perdeu, perdeu como ninguém imaginava em 2005 que poderia perder: escaparam-lhe das mãos as duas Casas no Congresso. Está tão perdido que é incapaz de decidir o que tem de ser feito a respeito do fiasco iraquiano dois meses depois de a população tê-lo informado que sua política está reprovada.
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E sobre as coisas que ninguém esperava, elas continuam – porque, palestino contra palestino, bem, com matança na rua, crianças trucidadas, isto é demais. Esta era uma daquelas coisas que os bons moços que têm a melhor das impressões dos palestinos, que os vêem apenas como povo oprimido, jamais poderiam imaginar. É só que, antes de valores nacionalistas, – palestinos –, em Gaza as lealdades são tribais, são entre clãs.
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(Justiça seja feita: na Cisjordânia, entre 1948 e hoje, nasceu uma forte identidade nacional palestina.)
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Augusto Pinochet se foi, em 2006. Infelizmente, foi-se em liberdade. Milton Friedman e John Galbraith se foram, e com eles o pai dos neo-liberais e o último grande keynesiano. Daniel Ortega está de volta.
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Uma coisa previsível não aconteceu: Fidel vive.