domingo, dezembro 31, 2006

Nada se perde

Fabio Grecchi, na Tribuna da Imprensa
.
Hoje, penúltimo dia do ano, pode entrar para a história como a data em que um dos maiores facínoras da humanidade foi morto: Saddam Hussein. Mas ninguém se torna genocida por conta própria. Há que ter uma estrutura por trás, capaz de fazer com que o regime despótico viceje. E o criador deste monstro é justamente o governo norte-americano, que deseja vê-lo sob sete palmos de terra.
.
Saddam foi guindado pela política de Washington de contrabalançar forças no Oriente Médio. Se de um lado havia Gamal Abdel Nasser, do Egito, e Rafez Assad, da Síria, como satélites da então União Soviética, a influência norte-americana se resumia ao Irã de Reza Pahlevi e à Jordânia do rei (inventado) Hussein. Sem contar Israel, mas não como força de coesão - até ao contrário.
.
Naquela região, todos os países foram criados artificialmente pelas ex-potências coloniais, que saíram, mas mantiveram a ascendência exatamente porque divisão representa conquista. Um algoritmo tão antigo quanto qualquer tática de dominação. França e Inglaterra perderam a vez para os Estados Unidos, que suportam as monarquias árabes, contribuíram para a queda de Nasser, afastaram o Líbano da Síria e ajudaram Saddam no golpe que o levou ao poder. Relacionamento estreitado a partir do momento em que o Irã mergulha no regime dos aiatolás.
.
Saddam era corrupto, claro. Os muçulmanos xiitas só se tornaram força política a partir de Ruholah Khomeini, os curdos são desprezados inclusive na Turquia. Assim ele fez do Iraque seu quintal de experiências bárbaras. Tornou-se força militar por conta de Ronald Reagan e quase passou ao status nuclear num eixo montado com a então racista África do Sul.
.
Trocou de informações e bancou a construção de um supercanhão - o abortado Projeto Babilônia - capaz de acertar Teerã e Tel Aviv. As inteligências israelense, norte-americana, britânica e francesa agiram rápido e mataram o genial engenheiro canadense Gerald Bull, projetista da arma.
.
Já então acreditavam que Saddam estava muito cheio de vontades próprias. Com o "empate" da guerra Irã-Iraque, enfraquecido militarmente, é estimulado a tomar o Kuwait. (Petróleo, sempre o petróleo, prêmio maior de uma vitória que não veio sobre os iranianos.) Monarquia wahidista, como o Bahrein e os Emirados, todos satélites da Arábia Saudita. Que percebeu o crescimento do expansionismo do sunita Saddam e, no bojo, a aparição de uma nova potência petrolífera capaz de pôr em xeque a influência dos Faissal na Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep). Os sócios norte-americanos viram a gravidade da situação: o antigo aliado tinha se tornado um obstáculo a ser removido. Esta é a trajetória sumária de Saddam, graças aos EUA. Uma vez enforcado, a humanidade não terá perdido nada.
.
O cavaleiro...
Para quem jamais ouviu falar do Projeto Babilônia e de Gerald Bull, dois livros contam a história do caso do supercanhão iraquiano (cujos canos foram levados para o país como se fossem dutos de petróleo). O primeiro é "Arms and the man - Dr. Gerald Bull, 1988 and the supergun", de William Lowther. Não confundir o título com a peça de George Bernard Shaw.
.
O outro é "L'affaire Gerald Bull - Les canons de l'apocalypse", de Normand Lester. O primeiro conta a história da construção do supercanhão; o segundo devassa o projeto, mais a trajetória de Bull, até seu assassinato.
.
...do Apocalipse
Bull havia se tornado uma figura independente no submundo das armas. Ou seja: trabalhava para quem pagava melhor. Com os sul-africanos, desenvolveu projetos em favor dos guerrilheiros da Unita, apoiados por Pretória - e pelos EUA - contra Angola. Aliás, Bull passou pelos regimes de Pietr Botha e Frederik de Klerk.
.
O projeto do supercanhão, viabilizado pela CIA, foi tocado pela Armscor sul-africana, que comprava tecnologia básica da Israel Military Industries. Ironia: Bull também trabalhou na melhoria do alcance e do poder de destruição dos mísseis Scud iraquianos.