Por Pedro Porfírio, na Tribuna da Imprensa
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"Os homens não querem a verdade; querem, apenas, que se lhes disfarce a mentira". (Louis Dumur, dramaturgo e jornalista francês - 1864/1933)
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Desculpe, prezados, mas não estou vendo seriedade em nenhuma das posturas sobre esse aumento escandaloso que as mesas do Congresso, com a anuência de quase todos os líderes partidários, tentaram emplacar na mão grande. Ninguém é lunático para defender um reajuste de 90,7%, nem mesmo com esse pretexto de equiparação dos subsídios dos parlamentares aos vencimentos dos ministros do Supremo. 90,7% são um percentual absurdamente indigesto e intragável. Seu simples enunciado já é afrontoso por si. Mas quanto ganha realmente um parlamentar federal neste País?
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Se você parar para conferir os gastos de campanha dos postulantes não terá dúvida em constatar: para rever as fortunas que muitos desses deputados queimam, por dentro e por fora, nem com mais 1.000% nos subsídios e os penduricalhos explícitos. Centrar a cólera popular apenas nesse aumento é mais uma manobra desonestamente diversionista. E serve para que alguns tentem aparecer como vestais ou como peças raras num ambiente por si degenerado, com outros ardis assimilados no sapatinho.
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Logo a CUT?
Veja o caso da CUT: como central dos trabalhadores, calou diante da "reforma da previdência" que oficializou o absurdo do desconto nas aposentadorias e atingiu direitos adquiridos. Aplaudiu todos os desmandos do governo petista que levaram ao empobrecimento dos assalariados, cristalizaram o desemprego e amputaram direitos trabalhistas através de leis como essa de "recuperação de empresas".
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Nesses últimos quatro anos, a CUT só tratou de pendurar seus "quadros" na máquina pública, ocupando até órgãos patronais, como o Sesi, cujo presidente, Jair Meneghelli, ganha uma baba de marajá, sem que a central que comandou tenha chiado. Quando o governo facilitou a destruição da Varig e aplicou uma lei perversa, pela qual milhares de profissionais foram despedidos sem direito a um centavo, a turma da CUT ficou na sombra, embora as categorias massacradas fossem de assalariados a ela vinculados.
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Como você pode admitir que essa turminha omissa e conivente com a política recessiva do governo queira aparecer no saguão de um aeroporto com óleo de peroba, para fazer média com a população indignada, mostrando ela própria ser uma tremenda cara-de-pau?
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Não vejo sinceridade em quem se alça contra o aumento nos subsídios, mas não quer abrir mão do 14º e do 15º salários e da tal "verba indenizatória" de R$ 15.000,00 mensais. Até parece que existem dois blocos: os que querem escancarar, institucionalizando o subsídio de R$ 24.500,00, e os defensores da "verba indenizatória" de mais R$ 15.000,00, a salvo do Imposto de Renda e dos maus olhares de um povo manipulado por uma mídia deprimentemente incompetente (só?).
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O custo real
Vamos parar de hipocrisias. Você sabe quanto custa um deputado federal por mês aos cofres públicos? E as assembléias legislativas e câmaras municipais? Fiquemos por hoje com os deputados. Por baixo, sem ir fundo nas contas, eles ganham R$ 100 mil. Isso só pelo que entra no bolso. Veja os cálculos do site "Contas Abertas":
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"Só o custo de cada deputado federal (salário e estrutura disponibilizada), hoje, é de aproximadamente R$ 100.000,00 por mês. Além do salário de R$ 12.847,20 (15 a 19 vezes por ano), os parlamentares contam ainda com a verba de gabinete (R$ 50.818,82), as verbas indenizatórias (R$ 15.000,00) e mais R$ 3.000,00 de auxílio-moradia, que recebem mesmo já tendo um imóvel próprio em Brasília.
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Isso sem contar os R$ 4.268,55 previstos para despesas com postagens e telefonia, além da cota de passagens aéreas, que varia de R$ 6.000,00 a R$ 16.500,00, dependendo do estado de origem do parlamentar.
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Em 2005, as despesas da Câmara dos Deputados chegaram a R$ 2,3 bilhões. O dinheiro gasto seria suficiente para aumentar em 8 vezes os investimentos federais em educação, no mesmo período. Dos gastos globais do órgão, 75% são referentes a despesas com pessoal e encargos sociais.
O Ministério Público suspeita da existência de fraudes nas prestações de contas de alguns deputados. No ano passado, os parlamentares cobraram da Casa R$ 41 milhões como reembolso por "gastos com combustíveis para veículos automotores", o equivalente a um consumo de 20,5 milhões de litros de gasolina.
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Eu próprio constatei, por amostragem através do http://www2.camara.gov.br/transparencia: só na primeira quinzena de dezembro, o deputado Carlos Santana, do PT fluminense, consumiu da "verba indenizatória" R$ 24.000,00 a título de divulgação da atividade parlamentar. Já a deputada Elaine Costa, do PTB, gastou R$ 23.900,00 em setembro com despesas com combustíveis e consultorias, assessorias, pesquisas e trabalhos técnicos.
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Por que a indignação restrita ao projeto de "equiparação com os salários dos ministros do Supremo?". E por que essa proposta de corrigir a inflação nos últimos quatro anos, com um aumento de R$ 4 mil, sem mexer nos penduricalhos?
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Os servidores públicos federais tiveram essa correção? Que eu saiba, desde a Constituição de 1988, os aumentos dos congressistas não poderiam ser maiores do que do restante do funcionalismo público. Como Lula chegou a dar reajuste de 0,1%, o ético e moral seria, efetivamente, manter congelados os subsídios.
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Do contrário, tenho todo o direito de pensar que tudo isso é uma grande farsa. Forçando a barra para ganhar apoios às suas reeleições, o presidente da Câmara, Aldo Rabelo, e do Senado, Renan Calheiros, jogaram para seus 513 eleitores, enquanto outros visaram a grande platéia.
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Mas, no fundo, ninguém disse: vamos rever tudo de cabo a rabo. Os 90,7% é que estavam no proscênio, produzindo reações na medida que o diabo gosta. Serviram para catapultar a candidatura de Aldo Rabelo, do pequeno PC do B, à presidência da Câmara. E serviram também para criar no povo a falsa sensação de que pode reverter os eventuais desvios de conduta de seus políticos.
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Mostraram, finalmente, o preço que o País paga para ter um Parlamento eleito graças a milhões de pepitas de ouro, e às engrenagens de uma máquina pública sem pudor, até porque, como disse um dia o celebrado John Kenneth Galbraith, "nada é tão cultivável em política quanto uma memória curta".
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"Os homens não querem a verdade; querem, apenas, que se lhes disfarce a mentira". (Louis Dumur, dramaturgo e jornalista francês - 1864/1933)
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Desculpe, prezados, mas não estou vendo seriedade em nenhuma das posturas sobre esse aumento escandaloso que as mesas do Congresso, com a anuência de quase todos os líderes partidários, tentaram emplacar na mão grande. Ninguém é lunático para defender um reajuste de 90,7%, nem mesmo com esse pretexto de equiparação dos subsídios dos parlamentares aos vencimentos dos ministros do Supremo. 90,7% são um percentual absurdamente indigesto e intragável. Seu simples enunciado já é afrontoso por si. Mas quanto ganha realmente um parlamentar federal neste País?
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Se você parar para conferir os gastos de campanha dos postulantes não terá dúvida em constatar: para rever as fortunas que muitos desses deputados queimam, por dentro e por fora, nem com mais 1.000% nos subsídios e os penduricalhos explícitos. Centrar a cólera popular apenas nesse aumento é mais uma manobra desonestamente diversionista. E serve para que alguns tentem aparecer como vestais ou como peças raras num ambiente por si degenerado, com outros ardis assimilados no sapatinho.
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Logo a CUT?
Veja o caso da CUT: como central dos trabalhadores, calou diante da "reforma da previdência" que oficializou o absurdo do desconto nas aposentadorias e atingiu direitos adquiridos. Aplaudiu todos os desmandos do governo petista que levaram ao empobrecimento dos assalariados, cristalizaram o desemprego e amputaram direitos trabalhistas através de leis como essa de "recuperação de empresas".
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Nesses últimos quatro anos, a CUT só tratou de pendurar seus "quadros" na máquina pública, ocupando até órgãos patronais, como o Sesi, cujo presidente, Jair Meneghelli, ganha uma baba de marajá, sem que a central que comandou tenha chiado. Quando o governo facilitou a destruição da Varig e aplicou uma lei perversa, pela qual milhares de profissionais foram despedidos sem direito a um centavo, a turma da CUT ficou na sombra, embora as categorias massacradas fossem de assalariados a ela vinculados.
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Como você pode admitir que essa turminha omissa e conivente com a política recessiva do governo queira aparecer no saguão de um aeroporto com óleo de peroba, para fazer média com a população indignada, mostrando ela própria ser uma tremenda cara-de-pau?
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Não vejo sinceridade em quem se alça contra o aumento nos subsídios, mas não quer abrir mão do 14º e do 15º salários e da tal "verba indenizatória" de R$ 15.000,00 mensais. Até parece que existem dois blocos: os que querem escancarar, institucionalizando o subsídio de R$ 24.500,00, e os defensores da "verba indenizatória" de mais R$ 15.000,00, a salvo do Imposto de Renda e dos maus olhares de um povo manipulado por uma mídia deprimentemente incompetente (só?).
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O custo real
Vamos parar de hipocrisias. Você sabe quanto custa um deputado federal por mês aos cofres públicos? E as assembléias legislativas e câmaras municipais? Fiquemos por hoje com os deputados. Por baixo, sem ir fundo nas contas, eles ganham R$ 100 mil. Isso só pelo que entra no bolso. Veja os cálculos do site "Contas Abertas":
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"Só o custo de cada deputado federal (salário e estrutura disponibilizada), hoje, é de aproximadamente R$ 100.000,00 por mês. Além do salário de R$ 12.847,20 (15 a 19 vezes por ano), os parlamentares contam ainda com a verba de gabinete (R$ 50.818,82), as verbas indenizatórias (R$ 15.000,00) e mais R$ 3.000,00 de auxílio-moradia, que recebem mesmo já tendo um imóvel próprio em Brasília.
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Isso sem contar os R$ 4.268,55 previstos para despesas com postagens e telefonia, além da cota de passagens aéreas, que varia de R$ 6.000,00 a R$ 16.500,00, dependendo do estado de origem do parlamentar.
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Em 2005, as despesas da Câmara dos Deputados chegaram a R$ 2,3 bilhões. O dinheiro gasto seria suficiente para aumentar em 8 vezes os investimentos federais em educação, no mesmo período. Dos gastos globais do órgão, 75% são referentes a despesas com pessoal e encargos sociais.
O Ministério Público suspeita da existência de fraudes nas prestações de contas de alguns deputados. No ano passado, os parlamentares cobraram da Casa R$ 41 milhões como reembolso por "gastos com combustíveis para veículos automotores", o equivalente a um consumo de 20,5 milhões de litros de gasolina.
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Eu próprio constatei, por amostragem através do http://www2.camara.gov.br/transparencia: só na primeira quinzena de dezembro, o deputado Carlos Santana, do PT fluminense, consumiu da "verba indenizatória" R$ 24.000,00 a título de divulgação da atividade parlamentar. Já a deputada Elaine Costa, do PTB, gastou R$ 23.900,00 em setembro com despesas com combustíveis e consultorias, assessorias, pesquisas e trabalhos técnicos.
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Por que a indignação restrita ao projeto de "equiparação com os salários dos ministros do Supremo?". E por que essa proposta de corrigir a inflação nos últimos quatro anos, com um aumento de R$ 4 mil, sem mexer nos penduricalhos?
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Os servidores públicos federais tiveram essa correção? Que eu saiba, desde a Constituição de 1988, os aumentos dos congressistas não poderiam ser maiores do que do restante do funcionalismo público. Como Lula chegou a dar reajuste de 0,1%, o ético e moral seria, efetivamente, manter congelados os subsídios.
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Do contrário, tenho todo o direito de pensar que tudo isso é uma grande farsa. Forçando a barra para ganhar apoios às suas reeleições, o presidente da Câmara, Aldo Rabelo, e do Senado, Renan Calheiros, jogaram para seus 513 eleitores, enquanto outros visaram a grande platéia.
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Mas, no fundo, ninguém disse: vamos rever tudo de cabo a rabo. Os 90,7% é que estavam no proscênio, produzindo reações na medida que o diabo gosta. Serviram para catapultar a candidatura de Aldo Rabelo, do pequeno PC do B, à presidência da Câmara. E serviram também para criar no povo a falsa sensação de que pode reverter os eventuais desvios de conduta de seus políticos.
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Mostraram, finalmente, o preço que o País paga para ter um Parlamento eleito graças a milhões de pepitas de ouro, e às engrenagens de uma máquina pública sem pudor, até porque, como disse um dia o celebrado John Kenneth Galbraith, "nada é tão cultivável em política quanto uma memória curta".
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COMENTANDO A NOTICIA:
Daí ser importante que mantenhamos o alerta geral sobre as atitude dos "nobres"parlamentares, uma vez que eles empurraram a votação do reajuste para fevereiro próximo. Sabem como é, mes de férias, mes de carnaval, o pessoal pode até ter esquecido, quem sabe eles emplacam desta vez ? Neste momento, é o papel da imprensa em mobilizar a opinião pública que contar muito. O que já sabemos é que deputados e senadores não são confiança, principalmente quando o que está em jogo é assaltarem o bolso do contribuinte. Quanto mais tirarem melhor, aliás, diga-se de passagem, que eles se candidatam, em sua grande maioria, não é pela romântica missão "de prestar serviços à nação". O tempo todo eles só pensam naquilo...