sábado, fevereiro 24, 2007

Bispo pede que Lula tenha lucidez

Tribuna da Imprensa

Religioso que fez greve de fome sugere 320 projetos alternativos à transposição do Rio São Francisco

BRASÍLIA - O bispo de Barra (BA) d. frei Luiz Flávio Cappio, protocolou ontem uma carta endereçada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pedindo a volta das negociações sobre o Projeto de Transposição do Rio São Francisco. Ao mesmo tempo, apresentou uma série de propostas alternativas à transposição. Embora a obra esteja prevista no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), d. Cappio disse ainda ter fé que alterações sejam feitas e projetos alternativos, favoráveis à população do Rio São Franciso, sejam adotados.

"Eu quero acreditar no mínimo de lucidez do governo Lula para não impor de forma ditatorial um projeto que não é aceito pela sociedade civil brasileira", afirmou. "Não quero admitir que o governo Lula seja tão tacanho em levar adiante uma proposta destas", arrematou o frei, que em 2005 ficou conhecido por fazer uma greve de fome em protesto contra o projeto. O bispo da Barra deixou a greve de fome com o compromisso de que alternativas para o projeto poderiam ser avaliadas.

Agora, d. Cappio defende a adoção de 320 projetos desenvolvidos pela Agência Nacional de Águas e da Articulação do Semi-Árido (ASA). Os trabalhos sugerem sobretudo a revitalização da área e o aproveitamento dos açudes existentes nas regiões.

Na carta endereçada ao presidente, d. Cappio observa: "Senhor presidente, sempre vestimos sua camisa. Ainda estamos vestidos nela. Nossa contribuição de fiel militante da causa do povo é para que o senhor seja verdadeiramente aquilo a que se propôs." Integrantes de organizações não-governamentais e pastorais sociais da região deverão reforçar o pedido para a revisão do projeto dia 12, data em que está marcada uma manifestação em Brasília, sobre o assunto.

Dom frei Cappio se queixou do fato de que as negociações - que em tese deveriam ter sido feitas pessoalmente com o presidente - passaram a ser mediadas pelo Ministério da Integração Nacional. "O pacto entre nós passou a ser convulsionado pelo ministério", afirmou frei Cappio. Com isso, os entendimentos foram interrompidos.

Para ele, o ministro Pedro Brito "é uma versão piorada" do ex-ministro Ciro Gomes. "Ele está atrelado aos grandes interesses. Sugerimos que o novo ministro seja mais inteligente, mais lúcido e mais comprometido com as causas sociais." Mais tarde, completou: "A composição dos ministérios deve ser feita com nomes de pessoas comprometidas com a realidade brasileira."

O bispo disse também que enfrenta dificuldades para encontrar entre políticos aliados na luta contra o projeto. Ele se queixou da posição do governador da Bahia Jacques Wagner, que imaginava mais taxativa. Afirmou que o governador de Minas, Aécio Neves, e Marcelo Déda, de Sergipe, também teriam se manifestados contra o projeto. "Mas até agora nenhum encontro foi viabilizado", afirmou.

Evitou adiantar se uma nova greve de fome está em seus planos. "Espero que não seja necessário chegar a esse ponto", afirmou. "Quero acreditar na lucidez, na inteligência e probidade do presidente para perceber que esse não é o desejo da sociedade brasileira. Agora, se for necessário, vamos pensar no que fazer."

O bispo diocesano citou um estudo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) com projeções sobre os custos da água, caso a transposição seja concretizada. "O metro cúbico passaria de R$ 0,35, um preço caríssimo, principalmente para a população nordestina, que é tão carente."

Ele questionou ainda os números apresentados pelo projeto: 7 milhões de pessoas seriam de certa forma beneficiadas pelo projeto, não 12 milhões como é dito. "Os 12 milhões pagariam a conta. Isso é uma espécie de populismo hídrico, que nos cheira possibilidade de corrupção", afirmou o articulador popular em defesa do São Francisco, Rubem Siqueira.

Dom frei Cappio contestou as informações de que as obras podem ser iniciadas em março, conforme o resultado de ações judiciais. "O ministro procura confundir a opinião pública." Afirmou ainda que, além da ação que terá de ser apreciada no Supremo Tribunal Federal, o projeto de transposição do São Francisco também terá de ser avaliado pelo Senado, pois afeta indiretamente as nações indígenas.

COMENTANDO A NOTICIA: Acho que o bispo está pedindo muito. “Lucidez” para Lula é aquilo que lhe rende votos, popularidade, marketing pessoal. O interesse do país ficará sempre em segundo plano. O que vale para o presidente que nos desgoverna é o lucro político que ele possa tirar de qualquer situação.

Já nem cabe a questão da obra ser ou não viável. Compete aos técnicos e engenheiros definirem este aspecto. Contudo, acredito que esteja havendo uma certa pressa movido ao nefasto interesse político-eleitoral. Que se esgotem todos os estudos necessários para avaliar se a obra comprometerá ou não o rio e o meio-ambiente. E, se comprovada a viabilidade, que as obras da transposição sigam seu curso normal. Mas, parece-nos, que o que menos interessa são as avaliações. Há interesses financeiros de um lado, interesses políticos de outro. Frisamos, contudo, que os aspectos técnicos é que devem prevalecer. O restante é besteirol fruto destes “tais”interesses de droga. Vamos torcer para a técnica vencer as “emoções” financeiras e políticas.